Bauru

Cultura

A arte perde um gênio

Jô Soares, que morreu nesta sexta-feira aos 84 anos, foi um artista híbrido, um diplomata em pleno showbusiness, com uma obra imortal

por Camila Appel

06/08/2022 - 05h00

Jô Soares, morto nesta sexta-feira (5), aos 84 anos, foi um artista híbrido, de talentos diversos e um exibido assumido. Ele estava internado há uma semana no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, onde recebia tratamento. Uma amiga informou que o artista enfrentava problemas urinários. Quando criança, Jô já chamava a atenção, com suas imitações e ousadias. Ele se pendurava na cobertura do anexo do Copacabana Palace, onde morava no Rio de Janeiro, ameaçando pular na piscina, só para rir com a reação dos turistas ao sol. Estudou na Suíça e nos Estados Unidos, aprendeu a falar seis línguas. José Eugênio Soares nasceu no Rio em 1938. Filho único de uma família rica que perdeu a fortuna de repente. O pai era operador da Bolsa de Valores. A mãe, dona de casa e leitora assídua. Ela teve o filho aos 40 anos, nada comum na época.

Jô passou sua vida mais gordo do que magro e odiava o adjetivo gordinho ou forte, por considerar os dois pejorativos. Gostava de junk food, em especial sanduíches e assumia assaltar a geladeira de madrugada para comer feijão gelado com azeite. Ele se casou 3 vezes. Primeiro com a atriz e poeta Tereza Austragésilo, depois com a atriz Silvia Bandeira e por último com a designer gráfica Flavia Junqueira, com quem manteve uma amizade profunda após o divórcio. Teve um filho com Austragésilo, Rafael, autista de "alto nível" parecido com o do personagem de Dustin Hoffman em "Rain Man".

Jô Soares era dado a paixões - livros, filmes, teatro, motos, música, em especial jazz e blues, quadrinhos, charutos cubanos, refrigerante diet (dizem ser o que tinha na sua caneca), artes plásticas e futebol (torcia pelo Fluminense). Notívago, costumava dormir tarde e acordar tarde. Morava em São Paulo, no Higienópolis, num apartamento de 2 andares, um para sua moradia e outro para escritório, conectados por um elevador a vácuo. Apelidou o lugar de "Espaço Cultural Jô Soares", onde tinha uma réplica de 2 metros do Superman, jukebox Wurlitzer, piano de cauda, estante com brinquedos e bonecos de réplicas suas, uma parede de cartazes feitos por Ziraldo para os espetáculos e quadros pintados por ele mesmo. Ele se considerava uma pessoa mística, acreditava em outro plano de existência e era devoto de Santa Rita de Cássia.

DO COMEDIANTE AO ENTREVISTADOR

Jô Soares trabalhou como office boy num escritório de exportação e noutro de turismo vendendo passagens aéreas. Estudou para ser diplomata, mas repensou a decisão quando escutou de Silveira Sampaio que, independentemente do que ele fizesse, ia acabar no showbusiness. Foi o que aconteceu. Jô passou a frequentar grupos teatrais, namorando Tereza Austragésilo, até que em 1958, aos 19 anos, estreou na TV a convite de Adolfo Celi, no programa "TV Mistério" da TV Rio, ao lado de Tônia Carrero e Paulo Autran.

Depois, passou a escrever e atuar em programas da TV Continental e da TV Tupi. Em 1959, estreou no teatro como o bispo de "Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna. A fama nacional como comediante foi conquistada em 1967, como o mordomo da "Família Trapo", na Record, programa que ajudava a escrever. Em 1970, foi para a Globo, atuando em programas como "Faça Humor, Não Faça Guerra", que estreou naquele mesmo ano, "Satiricom", de 1973, e "Planeta dos Homens", de 1982, até ter seu próprio programa, o "Viva o Gordo", também de 40 anos atrás. Jô deu vida a mais de 200 personagens, como o Capitão Gay e a cantora Norminha, marcando bordões como "vai para casa Padilha", "não me comprometa" e " macaco tá certo". Em 1987, foi para o SBT realizar o sonho de ter um programa como otalk shows americanos, o Jô Soares Onze e Meia, e manteve seu programa, agora chamado de "Veja o Gordo". Houve ressentimento na Globo com sua saída. Em 2000, ele voltou à Globo com o Programa do Jô e levou 23 integrantes da atração.

Jô Soares foi escritor, jornalista, dramaturgo, diretor e ator de cinema e de teatro, músico e artista plástico. Ele escreveu para a revista Manchete, para O Globo, o Jornal do Brasil e foi colaborador da Veja por 7 anos. Lançou 5 romances policiais, "O Xangô de Baker Street", de 1995, "O Homem que Matou Getúlio Vargas", de 1998, "Assassinato na Academia das Letras", de 2005, e "As Esganadas", de 2011, além de uma autobiografia em dois volumes, lançada há cinco anos. Chegou a vender mais de 1 milhão de cópias, alcançando o topo da lista dos mais vendidos, e foi editado nos EUA e Europa. Gostava de misturar ficção com fatos e fazer referências a personagens verídicos. Jô tocava bongô, piano, piston, saxofone, trompete e violão. Compunha prefixos musicais para seus espetáculos e teve programas musicais em rádios. Pintava acrílico sobre tela, chegando a fazer exposições individuais no Brasil e no Exterior. Uma mostra em São Paulo, em 2004, por exemplo, contou com 54 obras suas. Ele participou da Bienal de São Paulo, em 1967. No teatro, contracenou com Cacilda Becker, recebendo elogios de Décio de Almeida Prado. Jô dirigiu autores nacionais e estrangeiros, como Shakespeare, Nelson Rodrigues, Neil Simon e Edward Albee, e encabeçou espetáculos solos, escritos, produzidos e interpretados por ele, como "Na Mira do Gordo" e "Remix em Pessoa".

 

Corpo será cremado em cerimônia restrita à ex-mulher

O velório de Jô Soares, que morreu aos 84 anos, terminou por volta das 17h desta sexta-feira (5), no bairro paulistano da Bela Vista.

Restrita a familiares e amigos, a cerimônia teve a presença de figuras como Matinas Suzuki Jr., biógrafo de Jô, Drauzio Varella, a atriz Regina Braga, Mika Lins, Zélia Duncan, Ivo Hollanda, Serginho Groisman, Thiago Leifert, Juca de Oliveira, Dan Stulbach, Natuza Nery, historiador Leandro Karnal e o filósofo Mário Sérgio Cortella. O corpo de Jô Soares será cremado em Mauá, a cerca de 30 quilômetros de São Paulo, mas não haverá cerimônia de sepultamento. A ex-mulher do apresentador, Flávia Pedras Soares, conduzirá o processo sozinha.

O velório preservou um ar do que ele mais prezou ao longo da vida: discrição. O seleto grupo de amigos foi formado, em sua maioria, por colegas e companheiros de sua equipe no Programa do Jô, como a jornalista Anne Porlan e o editor Vilhem, além de companheiros do teatro. A despeito do inevitável tom de tristeza, a despedida também foi leve. As declarações unânimes davam conta de que o humorista descansou e partiu ativo e lúcido, realizando os projetos que desejava.

Ler matéria completa

×