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Economia & Negócios

Exigência alta deixa cargos básicos vagos mesmo diante do desemprego

Falta de qualificação mínima para vagas que antes não exigiam tanta formação tem feito postos de trabalho sobrarem em Bauru, apontam entidades

por Marcele Tonelli

14/06/2019 - 07h00

Mesmo com a grande fila de desemprego, vagas de trabalho básico têm sobrado em Bauru. A aparente contradição, porém, tem explicação. A crise ampliou a quantidade de candidatos qualificados desempregados e, com isso, as empresas também aumentaram as exigências mínimas na contratação para cargos considerados básicos. O descompasso é que, agora, grande parte dessa mão de obra qualificada já foi absorvida, mas os contratantes mantiveram as exigências elevadas. Como resultado, muitos bauruenses que não apostaram na escolaridade e em cursos não conseguem acesso ao mercado formal, mesmo que estejam sobrando vagas.

A realidade é sentida pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Renda (Sedecon), que acumula, hoje, quase 20 vagas de emprego em sua plataforma. A Caritas Bauru, entidade que possui parceria com a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) e auxilia na inserção e recolocação de pessoas de baixa renda no mercado, abriu 29 vagas no mês passado, mas nove ainda não foram preenchidas.

São postos de emprego para vendedor, pedreiro, jardineiro, motorista, entre outros.

ESTÁ DIFÍCIL

Há dois anos desempregado, Cezar Miguel Ventura, de 60 anos, está entre os bauruenses que buscam recolocação no mercado, mas o fato de possuir apenas o Ensino Fundamental virou um grande empecilho. Atualmente, ele participa de cursos da Caritas na tentativa de encontrar uma oportunidade.

"Já trabalhei como porteiro, como auxiliar geral e tenho curso e experiência em jardinagem, mas não tenho o grau de escolaridade que as empresas estão pedindo para essas vagas. Antigamente, não tinha tanta exigência assim. Tem gente que nem experiência tem e consegue a vaga só porque tem o segundo grau completo", compara o homem, morador da zona rural.

"Tenho vontade de voltar a estudar, mas sustento a casa com bicos de servente de pedreiro e não tenho recursos para isso. Minha esposa também não está bem de saúde e depende de mim. Essa é a minha realidade", lamenta Cezar, contando que abandonou os estudos e começou a trabalhar aos 11 anos para ajudar a mãe e os oito irmãos.

4 MESES NA ESPERA

Malavolta Jr.
Karla Andrade, coordenadora da Caritas, fala sobre o mercado

Enquanto Cezar procura um emprego, na Caritas, por exemplo, há uma vaga de líder de jardinagem à espera de um pretendente há 4 meses. "Além de nível Médio, a pessoa precisa de capacidade de liderança, o que é mais difícil", detalha Karla Andrade, coordenadora da entidade.

"As empresas que exigiam só o Fundamental estão exigindo nível Médio. E, quem pedia o Médio, agora quer Ensino Superior", avalia Karla, ressaltando que o nível de empregabilidade por lá é de 30%. "Só que a população vulnerável acaba ainda mais marginalizada neste processo, porque muitos não têm como abandonar um bico, geralmente a única renda da família, e largar os filhos em casa para fazer um curso ou estudar", contextualiza.

O diretor jurídico da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Elion Pontechelle Júnior, diz que os critérios para contratações no comércio não mudaram, porém, enxerga que mais gente qualificada segue em busca de uma vaga. "É que o volume de currículos com maior qualificação aumentou. É evidente que comerciantes optem pelo currículo mais recheado. Quem não tem o Ensino Médio pode acabar excluído, infelizmente. Tudo é demanda e oferta", cita.

CURSOS E QUALIFICAÇÃO

Tanto a Caritas quanto a Sedecon, assim como outras entidades em Bauru, oferecem cursos gratuitos. São ofertados, inclusive, passes para o transporte e lanche.

Samantha Ciuffa
"É preciso que a pessoa se atualize a cada seis meses", diz Tatiana Rodrigues, da Sedecon

É o caso do Time do Emprego, da Sedecon, que ajuda na capacitação inicial do pretendente, com noções de como se portar em entrevistas, como montar um currículo, noções sobre as habilidades que possui e conteúdos básicos da língua portuguesa e matemática. A próxima turma será aberta em agosto. "Muitos têm a autoestima baixa, não sabem se apresentar e falar de suas experiências. Outros chegam até a mentir no currículo para conseguir algo", observa Tatiana Rosária Rodrigues, diretora do departamento de Relações e de Trabalho, Emprego e Turismo na Sedecon.

Ela conta que a secretaria também mantém uma ação junto às empresas quando as vagas ficam muito tempo à espera de pretendentes. Por lá, o nível de empregabilidade chega a 60%.

"As que sobram não são vagas que exigem uma supercapacitação, mas, muitas vezes, um curso simples de poucas horas. Hoje, é tudo muito dinâmico, os programas de computador mudaram, técnicas para assentar um piso mudaram", exemplifica.

Em 2018, a Sedecon elaborou pesquisa com 700 pessoas e constatou que 69% dos que estavam procurando emprego não haviam realizado qualquer curso de capacitação nos últimos 2 anos.

"É preciso que a pessoa se atualize a cada seis meses, faça cursos e demonstre interesse", finaliza Tatiana.

Emprega Bauru

O Emprega Bauru está com vagas abertas para operador de logística (1 vaga), captador de imóveis (1), corretor de imóveis (2), auxiliar de manutenção predial (1), analista contábil (1), vendedor externo (1), gerente geral (1), coordenador de vendas e marketing (1), eletricista de linha viva (5), inspetor de riscos (2), alinhador/borracheiro (1), motorista de transporte de produtos perigosos (3) e estagiário em design ou publicidade e propaganda (1). Interessados pelas vagas, bem como empresários que queiram divulgar oportunidades de emprego, devem se inscrever através do site https://hotsite.bauru.sp.gov.br.

SERVIÇO

Para saber mais sobre os cursos oferecidos pela Sedecon, acesse a página "Sedecon Bauru" no Facebook. Ou compareça na sede da pasta, que fica na rua Virgílio Malta 17-6, telefone: (14) 3227-7819. A porta de entrada para cursos na Caritas ocorre via Centro de Referência em Assistência Social (Cras) dos bairros.