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Economia & Negócios

Mulheres enfrentam efeito ainda mais devastador da crise'

Impacto econômico por conta da pandemia, aumento das tarefas com a casa e filhos e violência doméstica ergueram barreiras ainda mais desafiadoras

por Marina Dayrell

13/09/2020 - 05h00

Reprodução/RME

Ana Fontes: "Precisamos pensar no mais amplo aspecto de mulheres"

Há dez anos à frente da Rede Mulher Empreendedora (RME), instituição de apoio ao empreendedorismo feminino, Ana Fontes conhece de perto as dificuldades que as mulheres encontram para abrir e manter um negócio no Brasil. Mas, nos últimos meses, os impactos econômicos por conta da pandemia do novo coronavírus, a ainda maior dificuldade no acesso ao crédito, o aumento das tarefas com a casa e com os filhos e, em muitos casos, o crescimento da violência doméstica ergueram barreiras ainda mais desafiadoras para elas.

Uma pesquisa realizada pela RME e o Instituto Locomotiva com 1.165 empreendedoras durante a pandemia apontou que a crise significou a interrupção das atividades para 39% dos negócios comandados por mulheres. Outras 47% seguem em funcionamento, mas já sofreram os impactos negativos dos últimos meses. O problema fica mais grave já que para 21% delas toda a renda familiar vem do negócio.

Com o recorte racial, os números são ainda mais assustadores. Segundo a pesquisa Saúde Financeira de Mulheres Negras - Covid-19, desenvolvida por uma parceria entre ID_BR - Instituto Identidades do Brasil, Comunidade Empodera, EmpregueAfro e Faculdade Zumbi dos Palmares (todas iniciativas voltadas à empregabilidade de pessoas negras e aceleração da igualdade racial no mercado de trabalho), 79% das empreendedoras não têm reserva financeira para sobreviver à pandemia. Quando questionadas qual a principal necessidade durante a quarentena, 48% responderam capital de giro.

Nesta entrevista, Ana Fontes conta que, ao lado de 26 colaboradores, procura novas formas de auxiliar as quase um milhão de mulheres envolvidas tanto na RME quanto no Instituto RME - organização sem fins lucrativos com foco em mulheres em situação de vulnerabilidade social.

Quais são os desafios mais específicos para as mulheres empreendedoras nessa crise?

Ana Fontes - Há desafios diretos e indiretos. As mulheres geralmente empreendem na área de conforto, como moda, beleza, estética, alimentação fora de casa e serviços. São esses os segmentos mais afetados na pandemia. Então, os negócios liderados por mulheres foram os mais afetados. Outro efeito é que as mulheres têm menos acesso a crédito que os homens no mercado, então seus negócios acabam sendo mais afetados. E tem outros aspectos que são indiretos ao negócio e que afetam as mulheres que estão dentro de casa. Tristemente, 80% do cuidado doméstico ainda são das mulheres. Essa organização que ficou diferente agora durante a pandemia sobrecarregou essa mulher. Ela perdeu a renda, o negócio está com dificuldade, tem criança dentro de casa e os afazeres domésticos, então isso tudo gera também um impacto no negócio. Ainda temos a questão da violência doméstica, que cresceu durante a pandemia.

E quando falamos de mulheres, ainda é um grupo muito heterogêneo.

Ana Fontes  - As pessoas pensam sempre em classe média, mesmo que não seja alta, mas numa pessoa que teve acesso, estudo. Mas temos que falar no mais amplo aspecto de mulheres. Hoje são mais de 13 milhões de pessoas que vivem em favelas, imagina a quantidade de mulheres envolvidas. Muitos dos negócios liderados por mulheres são as únicas fontes de receita das famílias, então o efeito devastador da crise para elas é muito grande.

As pesquisas têm mostrado que as PMEs têm tido dificuldade para acessar crédito.

Ana Fontes - Deveria haver políticas públicas que chegassem na ponta e dessem oportunidade para mulher terem acesso a crédito. Temos uma série de programas lançados pelo governo, mas não temos nenhuma política focada em negócios para mulheres. Nós, da RME, fizemos duas parcerias de corealização. Tem o Estímulo 2020, que é um grupo de empresários que captaram recursos e criaram um fundo para ajudar pequenos negócios. Outra iniciativa, em parceria com o Grupo Mulheres do Brasil e o Banco Pérola, é o Fundo Dona de Mim, com o objetivo de dar microcrédito para mulheres microempreendedoras individuais (MEI) Foi lançado no dia 1 de julho e em 24 horas já tinha todo o crédito tomado, então já acabou o recurso. Agora, estamos fazendo captação para uma segunda onda.

Você falou em parcerias com empresas. Como elas podem ajudar?

Ana Fontes - Nós criamos projetos para as empresas. Tem aquelas que fazem doações diretas, que vendem produtos e destinam parte da renda ao Instituto Rede Mulher Empreendedora. Por exemplo, ela está produzindo uma blusa ou uma joia e uma parte do que ela vende disso vem para a gente. Outra forma são empresas que patrocinam eventos, ações e redes sociais. Também existem os projetos e programas especiais.

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