Bauru

Economia & Negócios

Ações sustentáveis definirão futuro de empresas

Práticas incluem apoio à comunidade e redução do consumo de água e energia

por Claudia Rolli

06/06/2021 - 05h00

Mathilde Missioneiro/Folhapress

O fundador da Raízs, Tomás Abrahão

"A pandemia acelerou um cenário que já vinha sendo discutido, especialmente nos últimos três anos: para sobreviver, pequenos e médios negócios têm de criar práticas de sustentabilidade. A análise é de especialistas, advogados e consultores que atuam com práticas de ESG (ambiental, social e governança corporativa, na tradução do termo em inglês), além de empreendedores de pequeno e médio porte que que já aderiram a essas ações.

As práticas incluem regras de transparência com fornecedores e consumidores, reciclagem de produtos e reaproveitamento de insumos, apoio à comunidade e preocupação com a diversidade. "As empresas que não olharem seus indicadores não financeiros, como ESG, vão perder competitividade e não vão sobreviver a médio prazo", avalia Ricardo Assumpção, diretor-executivo da Grape Global ESG, consultoria que atua no cenário social e ambiental.

Assumpção, que estudou como as pequenas e médias empresas podem se inserir nesse contexto, afirma que questões ambientais e sociais são determinantes para a companhia obter melhores linhas de crédito, atrair investidores, criar valor no futuro e atender às pressões externas -de acionistas, mercado financeiro ou consumidores.

O investimento em empresas com essa prioridade chama atenção. Startups brasileiras com soluções para melhores práticas ESG receberam cerca de US$ 900 milhões de 2017 a 2021, segundo mapeamento da empresa de inovação aberta Distrito. A maior parte foi investida naquelas com ações para a área social.

Negócios que integram sustentabilidade às suas estratégias promovem a inovação, aumentam a produtividade e conseguem gerar mais valor a médio e longo prazo.

Um estudo da Universidade Harvard, em parceria com a London Business School, analisou 180 empresas americanas nas mesmas condições financeiras durante 15 anos. Metade delas, que tinham práticas ESG, conseguiram resultado financeiro 40% superior.

Se, por um lado, os grandes têm orçamentos maiores e setores dedicados à sustentabilidade, os pequenos negócios têm mobilidade, menos burocracia e estão próximos dos consumidores.

Qualquer iniciativa deve envolver toda a empresa em um movimento "top-down", a partir do propósito do dono, avalia Augusto Cruz, sócio da AC Consultoria e advogado especializado em governança e políticas públicas.

A decisão de ser sustentável geralmente está ligada à intenção dos sócios, mas pode vir da demanda de clientes ou de questões legais, como a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), que obriga todas as empresas a seguir regras digitais, diz o consultor da AC. "Mas é preciso envolver todos, de CEOs a funcionários. Caso contrário, as ações só acontecem por marketing e de forma pontual. Ser sustentável não é abraçar árvore ou distribuir presente no Natal. Isso é 'greenwashing'."

O "greenwashing" (maquiagem verde) é um termo usado quando uma empresa afirma ser adepta de práticas ESG sem realmente aplicá-las. É uma jogada de marketing para atrair investidores. Uma das formas de minimizar impactos e custos para investir em ações socioambientais é trabalhar em parceria na cadeia produtiva. "Não adianta a grande empresa falar em sustentabilidade sem olhar a cadeia em que atua, se os seus fornecedores não agem com os mesmos valores", diz Assumpção, que acredita que o movimento de envolver pequenas e médias em práticas ESG deve ganhar força nos próximos dois anos.

Para o advogado Leonardo Barém Leite, especializado em negócios e direito empresarial, companhias de todos os portes e segmentos vão ter dificuldade para conquistar mercado, atrair e reter talentos, além de investimentos, se não tiverem também coerência em suas ações. "Porque não adianta se preocupar com a parte ambiental e se esconder atrás de terceirizações para não cumprir regras."

Nos movimentos de fusões e aquisições, as práticas de ESG já são consideradas na decisão final. É preciso ainda lembrar do G (governança), parte do ESG. Para a pequena empresa, é igualmente importante separar os papéis e as contas do proprietário e da pessoa física, diz Matthew Govier, diretor da Accenture Strategy na América Latina.

Criar uma rede de apoio não só para comprar insumos, mas para vender ou baratear serviços, é uma alternativa para absorver custos e investir em ações sustentáveis. Em Salvador, cem diferentes academias e redes de ginástica se uniram e contrataram um mesmo escritório para atender demandas jurídicas que surgiram na pandemia, cita Cruz, da AC Consultoria. Reduzir o consumo de água, energia, transporte e reverter a economia aos funcionários são iniciativas que qualquer empreendedor pode fazer.

Os números, no entanto, mostram que há muito a avançar. A sustentabilidade é considerada o coração da empresa ou faz parte de projetos em apenas 16% dos pequenos negócios, segundo pesquisa do Centro de Sustentabilidade do Sebrae, com 1.887 empresas. Mais da metade (54%) faz ações isoladas, esporádicas e sem planejamento.

 

Jovens companhias

Pequenas e médias empresas que plantaram ações de ESG já colhem resultados positivos, ampliam seus negócios ou mudam de patamar ao receber investimentos e se fundir a grandes grupos. A Raízs, plataforma que conecta pequenos produtores a consumidores de orgânicos, cresce 300% ao ano desde 2018. Começou pequena, recebeu investimentos de R$ 10 milhões e migrou para a categoria de média. Hoje, são 160 funcionários, 850 agricultores e 45 mil clientes. A startup usa inteligência artificial para prever a demanda de consumidores, a partir de pedidos feitos no site, e quanto os agricultores precisarão plantar. "Um pé de alface só é colhido se for vendido", diz Tomás Abrahão, diretor-executivo da Raízs. "Com a tecnologia, veio a eficiência para reduzir desperdícios, pagar melhor o produtor [23% acima do mercado] e vender 20% mais barato." Já a Pegaki surgiu em 2016 para resolver problemas de entregas do comércio eletrônico e hoje tem 2.000 pontos de retirada e coleta para compradores e vendedores. Os pontos funcionam em comércios de bairro, como padarias e mercadinhos, e seus donos recebem uma renda pelo espaço. Com o serviço, a Pegaki reduziu prazos de entrega, frete, consumo de combustível e uso de veículos. Com o aumento das vendas online, o serviço passou de 10 mil pacotes movimentados por mês para 1 milhão. Em fevereiro, a empresa foi comprada pelo grupo de logística Intelipost. A meta agora é crescer para 20 mil pontos em três anos.

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