Bauru

Economia & Negócios

Inflação, estiagem e dólar alto deixam café da manhã cada dia mais 'salgado'

Produtos como pão francês, café e laticínios acumulam aumento de preços; consumidores e padarias se viram como podem

por Larissa Bastos

12/09/2021 - 05h00

Samantha Ciuffa

Apas registra aumento no preço de alimentos do café da manhã, como pão francês (9,70%), muçarela (22,92%) e presunto (23,47%)

Nos últimos 12 meses, tomar café da manhã tem ficado cada dia mais caro. Segundo especialistas, por conta do combo formado pela inflação, estiagem prolongada e alta do dólar, os preços dos alimentos mais comuns na primeira refeição do dia, como pão francês, café, leite, muçarela, presunto e manteiga, ficaram mais 'salgados'. E a previsão é de que os valores continuem subindo. Diante deste cenário, proprietários de padarias de Bauru traçam estratégias para evitar afastar clientes (leia mais abaixo).

Os consumidores também se viram como podem para adaptar a refeição, considerada a mais importante do dia. É o caso da aposentada Sandra Mara Bulgarelli, de 62 anos, que precisou reduzir a frequência que consome queijo no café da manhã. "Eu adoro comer um queijinho, mas está muito caro. Tudo aumenta e o salário continua o mesmo. Então, tive que comprar menos. Hoje, como um pãozinho com manteiga. Tomar café da manhã está caro", reclama.

Mesmo doendo no bolso, muitos não conseguem ficar sem um pão quentinho logo cedo. É o caso da psicóloga Márcia Brito, de 61 anos. "Percebi que [o preço] aumentou bastante do começo do ano pra cá. Mas não abro mão de um pãozinho", comenta.

Um levantamento feito pela Associação Paulista de Supermercados (Apas), que analisou os valores desses itens nos últimos 12 meses no Estado de São Paulo (veja mais no quadro), confirma a percepção tanto de Sandra quanto de Márcia. Mesmo que os números não sejam referentes aos preços praticados pelas padarias, servem como um 'termômetro' para ilustrar o efeito que vem sentindo o consumidor final nas compras.

CAUSAS

Segundo a Apas, de julho de 2020 a julho de 2021, o pão francês teve um aumento de 9,70% no preço. O economista Carlos Sette explica que o valor do produto é influenciado principalmente pelo custo da farinha de trigo, que ficou 28% mais cara nos primeiros sete meses deste ano, provocando uma reação em cadeia.

"Como influência externa para o aumento, a gente considera que 70% da farinha de trigo consumida no Brasil é importada. Ou seja, sofre influência direta do dólar, que está muito alto. Já como influência interna, apontamos o período de seca, que dura vários meses. A estiagem atrapalha tanto o plantio quanto a colheita", analisa Sette.

Já a muçarela ficou 22,92% mais cara no mesmo período citado, acompanhada pelo leite longa vida (11,55%), presunto (23,47%), café em pó (15,25%) e manteiga (13,62%). "No caso dos laticínios, a alta também está influenciada pela falta de chuvas, já que, como o pasto rareia, as vacas produzem menos leite, aumentando o custo de seus derivados porque a demanda continua", explica o economista.

CONTINUAR SUBINDO

E a má notícia é que o preço desses alimentos deve continuar subindo. "Todos os aumentos também estão ligados à inflação oficial que está acumulada em torno de 5%, de janeiro a agosto deste ano, puxando todos os preços para cima. Só que, como esses produtos [de café da manhã] subiram muito mais do que 5%, indica que a inflação interna do setor foi maior do que a do País", finaliza Carlos Sette.

Padarias traçam estratégias para evitar 'fuga' de clientes

Aceituno Jr.

Sérgio Oliveira, de padaria no Vista Alegre, comenta o cenário

A alta do custo dos principais produtos de café da manhã tem desafiado os administradores de padarias em Bauru. Eles precisam encontrar alternativas para evitar afastar os clientes neste momento de retomada do movimento.

De acordo com José Sérgio Tosi, de 43 anos, proprietário de uma padaria no Jardim Estoril, foi necessário abrir mão de parte do lucro para evitar repassar o aumento aos clientes.

"É possível sentir diariamente o impacto tanto na hora de comprar quanto na hora de vender. Tudo tem aumentado muito, inclusive a farinha de trigo, que é o principal ingrediente do pão francês, nosso produto mais vendido. O certo seria repassar os aumentos ao consumidor, mas não consigo, porque o movimento que caiu durante a pandemia só está retomando agora. Então, tenho absorvido muita coisa e reduzido meu lucro. Mas, mesmo assim, acredito que o café da manhã ficou de 12% a 15% mais caro desde o começo do ano", analisa Tosi.

Já Sérgio Oliveira, de 29 anos, gestor de marketing de uma padaria no Parque Vista Alegre, conta que uma das estratégias adotadas pelo estabelecimento foi 'brigar' por descontos com os fornecedores para adquirir os alimentos por um custo inferior.

"Além disso, mesmo com o aumento da farinha de trigo, decidimos não aumentar o preço do quilo do pão francês, que é o que traz os clientes. Mas tivemos que diluir parte do custo em outros produtos e absorver um pouco também", explica Oliveira.

Ler matéria completa

×