Bauru e grande região

Esportes

Esporte bauruense: Inspiração alvirrubra!

Há 50 anos, Noroeste venceu desafio que agora é do basquete: a altitude

por Thiago Navarro

27/12/2014 - 07h00

Fotos: Reprodução/Quioshi Goto

Jogos do Norusca foram destaque na imprensa boliviana em 1964

Quando a FIBA Américas divulgou a composição dos grupos da primeira fase da Liga das Américas, a ‘Libertadores do basquete’, a primeira preocupação da comissão técnica do Paschoalotto/Bauru foi com a altitude da cidade que receberá os jogos do Grupo D, onde está o Dragão. Tunja, na Colômbia, está 2.800m acima do nível do mar, o que pode ser uma vantagem a mais para o Patriotas de Boyacá, o time da casa. Além do Bauru, os outros dois times da chave também não estão acostumados a altitude, que são o Capitanes de Arecibo (Porto Rico) e o Trotamundos de Carabobo (Venezuela).

Se o basquete vai encarar pela primeira vez este desafio - já jogou fora do Brasil em Cancún (México), Buenos Aires (Argentina), Montevidéu (Uruguai) e Valdívia (Chile), sempre ao nível do mar – o centenário Esporte Clube Noroeste já teve seus dias no alto da Cordilheira dos Andes. Curiosamente, também foram três partidas, a exemplo do basquete agora, só que em Cochabamba, na Bolívia, a 2.700m de altitude, em torneio amistoso em maio de 1964. O Alvirrubro conseguiu o título, o único conquistado pela equipe fora do País. O primeiro título internacional oficial do esporte coletivo bauruense, entretanto, só viria 50 anos depois, há pouco mais de um mês, quando o Paschoalotto/Bauru venceu a Liga Sul-Americana contra o Mogi, no Ginásio Panela de Pressão.

Adaptação

Um dos titulares do Noroeste naquela excursão boliviana de 1964, o ex-lateral-esquerdo João Gualberto Pires lembra que o time teve cerca de 20 dias para se aclimatar à altitude dos Andes. “Todo ano, antes ou depois do campeonato estadual, a Noroeste (ferrovia) oferecia uma viagem para que o time jogasse no Mato Grosso (na época o Mato Grosso do Sul ainda não existia). Naquele ano, fomos para Campo Grande, Corumbá e Aquidauana, de trem, e ainda fizemos um jogo em Cuiabá, pegando um avião em Corumbá. Fomos bem nessas partidas. Isso foi em março. Pouco depois, em maio, seguimos para Cochabamba, pegando um voo de Corumbá até lá, para jogar este quadrangular amistoso”, lembra Gualberto.

O torneio foi realizado em Cochabamba, e tinha dois times da cidade, o Jorge Wilstermann e Aurora, o San José de Oruro, e o Norusca, que despertava interesse no país vizinho justamente pelos amistosos que sempre fazia no Mato Grosso.

O Brasil vivia o início da ditadura militar, e a Bolívia também estava em ebulição política , o que motivou o adiamento dos jogos. “Chegamos lá no começo de maio, mas o quadrangular demorou pra começar. Isso ajudou muito o nosso time a se acostumar ao ar rarefeito. Nos cinco, sete primeiros dias, a gente sentiu mais, dava falta de ar. Havia uma escada no hotel, e a gente subia e descia ela para ver o quanto aguentávamos”, cita.

Quioshi Goto

João Gualberto Pires foi o titular da lateral-esquerda do Norusca naquela campanha

“Quando estreamos contra o Jorge Wilstermann, já estávamos aclimatados, e vencemos. O mesmo nos dois jogos seguintes”, recorda-se Gualberto, que encerrou precocemente a carreira dois anos depois, por conta de uma lesão muscular, seguindo no Noroeste como funcionário administrativo e depois preparador físico e treinador, após cursar Educação Física na Instituição Toledo de Ensino (ITE). Nos anos 1980, Gualberto ainda foi diretor municipal de esportes na primeira gestão de Tuga Angerami, o equivalente hoje ao cargo de secretário de esportes.


Basquete elabora preparação diferenciada

Logo que os grupos da Liga das Américas foram publicados, comissão técnica e diretoria do Paschoalotto já se reuniram para traçar as primeiras medidas visando uma melhor adaptação à altitude. Os jogos em Tunja (Colômbia) serão nos dias 6, 7 e 8 de fevereiro. Mesmo sem dispor do tempo que o Noroeste teve há 50 anos para se adaptar, o basquete também se ‘arma’ para enfrentar o altiplano andino.

“A altitude será um dos nossos adversários, 2.800m é uma altitude bastante considerável e o que tem que ser feito é um período ideal de adaptação, que seria pelo menos sete dias. A gente joga em casa contra o Flamengo no dia 30 de janeiro, e a intenção é partir logo cedo no outro dia para a Colômbia”, menciona o preparador físico da equipe, Bruno Camargo.

“Lá, temos que reproduzir os treinos com intensidade, para haver a adaptação, e o desgaste será grande, severo. O lado bom é que na volta os atletas voltarão muito melhor fisicamente, os estudos mostram que os efeitos da altitude são positivos no retorno. Sabemos que uns vão sentir mais, outros menos, mas só vamos saber lá, até porque muitos nunca foram. Para amenizar, vamos fazer uma dieta rica em ferro, para aumentar os glóbulos vermelhos e o transporte de oxigênio, e usar balões de oxigênio nos intervalos”, pontua.

“Finalizamos bem 2014, não só pelos títulos mas pelo aspecto físico também, fizemos avaliação antes de parar, e a orientação aos atletas era não parar totalmente entre o Natal e Ano Novo”, resume Camargo.


Campeão

A boa adaptação do time fez a diferença (nem balão de oxigênio o time usou, diz Gualberto), e o Noroeste saiu de território boliviano invicto, com vitórias por 2 a 1 sobre o Jorge Wilstermann, 4 a 0 em cima do Aurora e 4 a 1 diante do San José de Oruro, sagrando-se campeão do quadrangular amistoso, que levou mais de 10 mil torcedores por partida ao estádio de Cochabamba.

Gualberto lembra que o time-base do Norusca tinha: Navarro (Daniel Evaristo); Aracito, Virgílio, Brito e Gualberto; Romualdo e Lourival; Daniel Leite, Araras, Zé Carlos Coelho e Aílton. O treinador era o uruguaio Alcides Manay, e também faziam parte do elenco Romualdo, Adauto, Nenê Malé, Aldemar, Bassu, Rubens Salim, entre outros. A campanha noroestina foi destaque nos principais jornais da Bolívia na época, e a passagem pelo Mato Grosso antes também havia sido noticiada pela mídia mato-grossense e até pela Gazeta Esportiva.

Delegação noroestina garantiu tíulo em Cochabamba, em 1964

 

Time do Noroeste campeão há 50 anos, vencendo Jorge Wilstermann, Aurora e San José de Oruro