Bauru e grande região

Esportes

Guerrinha é surpreendido com demissão do Paschoalotto/Bauru e não esconde chateação: 'Estou decepcionado'

Treinador acertou saída nessa sexta-feira (16) e encerrou parceria na fase mais vitoriosa do time

por Bruno Freitas com Wagner Teodoro

16/10/2015 - 14h15

Caio Casagrande/Divulgação
Guerrinha é o assunto mais comentado pelos torcedores nas redes sociais. "Problema de resultado, não foi. Problema de relacionamento, nenhum. Problema financeiro, também não. Fui pego de surpresa. Respeito, mas faltou consideração. Que esperassem acabar a temporada", disse o técnico

“Estou decepcionado”. A frase resume o sentimento de Guerrinha comunicado, nessa sexta-feira (16), de seu desligamento do cargo de técnico do Paschoalotto/Bauru, após oito anos consecutivos à frente da equipe. A decisão do comitê gestor do time pegou o treinador de surpresa e encerra uma era no basquetebol masculino em Bauru. Guerrinha foi um dos idealizadores e pilares do ressurgimento da modalidade na cidade em 2007, fundamental na consolidação do projeto e comandante da evolução, que culminou no auge da equipe, com título internacionais e participação no Mundial e pré-temporada da NBA neste ano. “Estou profundamente decepcionado com o ser humano e com as pessoas do comitê gestor”, reforça.

A súbita alteração de rota no momento de ápice do projeto, com uma temporada cheia de títulos e participação em eventos internacionais, e a forma como foi conduzida sua saída foram os pontos que deixaram Guerrinha chateado. “Na minha opinião, pelo que eu fiz, eu que criei e montei o time, no mínimo, tinha que esperar terminar meu contrato. Que pelo menos esperasse acabar a temporada. A não ser que tivesse um problema. Eu penso assim. Fui pego de surpresa. Respeito, mas faltou consideração. Mas as pessoas do conselho que decidiram isso devem estar muito bem embasadas para tomar esta decisão”, ironiza.

Guerrinha salienta que não foi comunicado de nenhum descontentamento da diretoria com seu trabalho. “Normalmente, quando ocorre uma mudança, é porque tem um problema. Problema de resultado, não foi. Problema de relacionamento, nenhum. Problema financeiro, também não. Não teve nenhum tipo de problema”, garante. “O Rodrigo (Paschoalotto, presidente do patrocinador master da equipe) me chamou e comunicou que houve uma reunião do comitê gestor e que ficou definido que meu ciclo estava encerrado”, relata.

O treinador afirma que questionou o motivo da dispensa e foi informado que o time busca outra filosofia de trabalho. “Fui punido pelo sucesso do time”, considera. “Estou decepcionado principalmente pelo que eu proporcionei para Bauru. Não fui um técnico contratado para vir aqui e perder um jogo ou ganhar um título e ir embora. Eu criei o projeto, desenvolvi, fiz tudo na parte de mentor. Pode ter certeza que muitas pessoas estão envolvidas pela minha credibilidade, tanto patrocinadores quanto outras situações”, cita.

O técnico, no entanto, ressalta que respeita o direito do time de promover mudanças. “Eu sou empregado e, se eles querem trocar o técnico, não posso fazer nada. Mas fazer assim, no meio da temporada, no mínimo, não respeitaram o ser humano, não vou falar nem do profissional”, reitera.

Questionado sobre o que leva dos 13 anos que o fizeram referência no basquete de Bauru, o técnico afirma que viveu jornada de concretização de um sonho. “Comecei um projeto e sempre abri mão de muitas coisas em função de um sonho. Semana passada jogamos na NBA, jogamos o Mundial de igual para igual...”, recorda. “Na primeira passagem eu peguei um time (Tilibra) praticamente montado e ajudei a desenvolver. Na segunda passagem começamos do zero. Eu fui mordomo, roupeiro, assessor de imprensa, diretor... Várias vezes coloquei dinheiro do meu bolso. Mas fico feliz de olhar para trás e ver onde comecei e onde estou deixando.”

Diretoria do Paschoalotto/Bauru justifica saída de Guerrinha como forma de “revigorar” equipe

Por Wagner Teodoro

Quioshi Goto
“Existe o desgaste natural pelo tempo longo que o Guerrinha está no comando, não houve nenhuma briga ou desentendimento”, garantiu o gestor Vitor Jacob

A saída de Guerrinha do comando do Paschoalotto foi definida pela diretoria como forma de dar “novo gás” ao time. É o que declara Vítor Jacob, gestor do Paschoalotto/Bauru. “A diretoria entende que o time precisa de uma revigorada, novos ares, para continuar em alto nível. Existe o desgaste natural pelo tempo longo que o Guerrinha está no comando, não houve nenhuma briga ou desentendimento. A diretoria entende que a situação exige um fato novo e para a motivação elenco seria necessária a mudança”, explica.

Jacob nega que a diretoria tenha iniciado negociação com Demétrius para substituir Guerrinha. “Ainda não temos um nome, estamos conversando internamente para tentar definir um”, garante. “Estamos analisando quem está no mercado. Vamos pensar com bastante calma” declara. O Jornal da Cidade apurou que a proposta da nova filosofia seria trazer um técnico para trabalhar com jogadores jovens, o que abriria a perspectiva de grande mudanças no final desta temporada.

O gestor do Paschoalotto fez ainda questão de elogiar e agradecer a Guerrinha. “Somos eternamente gratos, o basquete em Bauru não existiria sem o Guerrinha. Ele é um ícone do esporte e reconhecemos todos estes valores nele. Foi somente uma mudança de direção que ocasionou isso”, finaliza Jacob.

Demétrius e Dedé

Reprodução
Demétrius Ferracciú é um dos mais cotados a assumir o comando do time bauruense

A contratação de Demétrius Ferracciú é o plano A da diretoria do Paschoalotto para substituir Guerrinha no comando da equipe. O treinador é atualmente assistente de Rubén Magnano na seleção brasileira e tem boa passagem à frente do Limeira, de onde saiu em 2014, após seis anos de trabalho entre assistente técnico e treinador.

A diretoria do Paschoalotto nega, mas o Jornal da Cidade apurou que o Paschoalotto já entrou em contato com Demétrius e fez proposta oficial ao técnico. O treinador, inclusive, já apresentou contraproposta e aguarda apenas a resposta do Bauru para concretizar o acerto, que pode ser sacramentado nas próximas horas.

Na comissão técnica limeirense, Demétrius foi bicampeão paulista e conquistou o título do Jogos Abertos do Interior, em Bauru. Como jogador, o armador Demétrius começou nas categorias de base da Luso-Bauru e defendeu equipes como Franca, Vasco da Gama e Telemar, sendo multicampeão.

Se a negociação em andamento com Demétrius não se concretizar, outros nomes especulados são Dedé Barbosa, ex-Limeira, e até mesmo o de Rubén Magnano. Enquanto o time não define o novo treinador, o Paschoalotto/Bauru será dirigido, interinamente, pelo auxiliar técnico Hudson Previdello.

Glórias e identificação

Guerrinha chegou a Bauru em outubro de 1998. Era o início de uma relação, dividida em duas passagens, que se estenderia por 13 anos e traria títulos e identificação mútua entre o profissional e a cidade, tornando-se um dos ídolos do basquete na cidade. Em sua primeira passagem, o basquete masculino bauruense era patrocinado pelas empresas Tilibra e Copimax e havia acabado de conquistar o acesso à Divisão Especial do Campeonato Paulista.

O treinador permaneceu quatro anos e sete meses à frente do Tilibra/Copimax, conquistando os títulos do Campeonato Paulista de 1999 e o Campeonato Nacional de 2002. No período, a equipe fez ainda mais duas finais, ficando com o vice-campeonato sul-americano, em 1999, e estadual, em 2000. Em março de 2003, por problema financeiros no projeto, o treinador e diretoria acertam o fim do ciclo.

Em agosto de 2007, Guerrinha voltou a Bauru para capitanear um novo projeto de basquete masculino profissional na cidade. Acumulando funções em quadra e fora dela, trabalhou com a diretoria na reestruturação da modalidade na cidade e foi fundamental para consolidar a equipe no cenário da modalidade. O primeiro título veio em 2010, na Copa EPTV de Basquete. Porém, foi a partir de 2012 que a equipe se tornou protagonista no País. Seguiram-se as conquistas do bicampeonato paulista (2013 e 2014), Liga Sul-Americana (2014), Jogos Abertos (2014), vice do NBB (2014/2015), Liga das Américas (2015), vice-mundial (2015) e participação em amistosos de pré-temporada da NBA.

Repercussão

A demissão de Guerrinha caiu como uma “bomba”, nessa sexta (16), e agitou as redes sociais. No Facebook do JC, por exemplo, muitos agradeceram ao agora ex-treinador por seu trabalho, outros também criticaram a medida da diretoria do time e vários se mostraram preocupados com o futuro da equipe, temendo “desmanche”.

“Foi como receber a notícia da perda de um amigo. Estou triste, pois, desde 1998, nunca vi outro treinador no banco do Bauru”, enfatiza Jair Orti, da Torcida Fúria – que comemora hoje 16 anos. “A comissão da diretoria e seus gestores devem ótimas respostas do que pretendem na temporada, pois a torcida está cada vez mais infeliz com as saídas de seus maiores ídolos dentro de quadra”, conclui.