Bauru e grande região

Esportes

Incêndio do antigo estádio do Noroeste faz 60 anos

por Thiago Navarro

25/11/2018 - 07h00

Arquivo/Bauru Ilustrado
Arquibancadas de madeira, construídas quatro anos antes, quando o Norusca subiu para a elite foram completamente consumidas pelo fogo

Um dos fatos mais emblemáticos da história do Noroeste e da cidade de Bauru completou 60 anos na última sexta-feira. No dia 23 de novembro de 1958, a arquibancada do antigo Estádio Alfredo de Castilho, que ficava na região dos Altos da Cidade, pegou fogo durante o jogo entre Noroeste e São Paulo, pelo Campeonato Paulista. A partida estava com 25 minutos, e o Tricolor veio com grandes jogadores, alguns deles que haviam sido campeões mundiais pela Seleção meses antes na Suécia, na primeira Copa que o Brasil conquistou.

A presença na cidade de um clube grande da Capital, com jogadores campeões pelo Brasil, como De Sordi, Mauro e Dino Sani, além do famoso goleiro argentino José Poy, bem como a participação noroestina na elite estadual, levou cerca de 15 mil pessoas ao antigo estádio da rua Quintino Bocaiúva, ao lado do Hospital de Base. O jogo estava 0 a 0, quando durante a tarde quente de domingo o incêndio começou a consumir as arquibancadas de madeira, construídas quatro anos antes, quando o Norusca subiu para a elite e precisava aumentar a capacidade do estádio. Em 1954, logo após subir para a Divisão Especial, a mobilização na cidade foi para que o clube tivesse o direito de jogar a elite e arquibancadas de madeira foram construídas.

Porém, em 1958, o incêndio destruiu praticamente tudo. Felizmente, não houve nenhum ferido grave. Já os danos materiais obrigaram o Noroeste a jogar pelos dois anos seguintes no estádio Antonio Garcia, cedido pelo seu maior rival na época, o Bauru Atlético Clube (BAC) - onde atualmente fica um supermercado. E foi no estádio do BAC que esta partida entre Noroeste e São Paulo foi concluída alguns dias depois, em 9 de dezembro de 1958, com vitória do Tricolor por 3 a 1, com gols de Gino (2) e Canhoteiro para o São Paulo, e Poy (contra) para o Noroeste.

LEMBRANÇA

Arquivo/Bauru Ilustrado
Estádio estava lotado naquele novembro de 1958, mas não houve feridos entre os 15 mil espectadores

Com 19 anos à época, o historiador João Francisco Tidei Lima relembra os momentos de pânico da torcida no local. "Eu estava sentado atrás do gol e comecei a perceber que estava saindo fumaça por alguns lugares. Lembro-me muito bem da torcida na arquibancada de madeira que estava pegando fogo descendo e derrubando o alambrado para invadir o campo e o juiz, naturalmente, interrompeu o jogo em meio àquele 'corre-corre'. Foi um momento de bastante pânico, mas, felizmente, sem vítimas", conta.

Outro detalhe importante que os anos não apagaram da mente de João foi em relação à cobertura jornalística no momento do incêndio. "Fiquei sabendo que, em função do incêndio, a energia foi cortada. A Bauru Rádio Clube passou a transmitir dos estúdios, a Auri Verde passou a transmitir de Jaú outro jogo, a partida do XV de Novembro e Corinthians e quem permaneceu transmitindo do local foi a única rádio com dispositivos para alimentar sua energia, a Rádio Emissora Terra Branca, que narrou todo o fato", relembra.

O memorialista Luciano Dias Pires, editor do Bauru Ilustrado, também estava no estádio. "Foi pavoroso porque foi algo totalmente inesperado. Não tínhamos notícia de que um estádio de futebol tivesse pegado fogo em qualquer parte do Brasil e mesmo do Exterior", relata. "O grande craque do passado Leônidas da Silva estavá lá, comentando o jogo por uma emissora da Capital. Ele ficou chocado, como todos nós", proessgue Dias Pires.

NOVO ESTÁDIO

Aceituno Jr.
Hoje, a avenida Duque de Caxias passa no local onde foi o estádio, nas proximidades do Sesi e do Hospital de Base

O fato acelerou a construção do novo estádio, o atual, na Vila Pacífico. A Rede Ferroviária já tinha um terreno, e inclusive o ginásio Panela de Pressão havia sido inaugurado em 1956, para a realização dos Jogos Abertos em Bauru pela primeira vez. Mas o projeto completo, que incluía a construção do estádio, ainda esperava mais recursos. Com o incêndio, a cidade ajudou e se mobilizou na construção do estádio, em novo local, inaugurado em 1960, em um amistoso em que o Noroeste venceu o Palmeiras por 3 a 2. Na época, foi denominado de Estádio Ubaldo de Medeiros, mas com o golpe militar de 1964, por questões políticas, o novo estádio passou a ter o nome do antigo e até hoje se chama Alfredo de Castilho.

OS TIMES

O Noroeste como já havia ocorrido em anos anteriores, estava com uma boa equipe no Campeonato Paulista. O elenco contava com jogadores como o goleiro Julião, os meias Diógenes e Gaspar e os atacantes Berto e Nestor, e terminou a competição com uma boa participação, no 10º lugar entre 20 clubes. Naquele dia, a formação foi com Julião, Pedro, Pierre e Fernando; Diógenes e Gaspar; Batista, Wilson, Berto, Nestor e Ismar. O São Paulo era um dos favoritos ao título, e acabou com o vice-campeonato, uma vez que o Santos foi o campeão. O São Paulo jogou em Bauru naquele dia com Poy, De Sordi, Mauro e Riberto; Dino e Vítor; Maurinho, Juracy, Gino, Canhoteiro e Roberto. O árbitro do jogo foi o argentino Juan Brozzi.

LOCAL DO ANTIGO ESTÁDIO

O antigo estádio do Noroeste que pegou fogo em 1958 ficava na rua Quintino Bocaiúva. A continuação da avenida Duque de Caxias, entre o Hospital de Base e o viaduto Antônio Eufrásio de Toledo (acesso para Falcão e Independência) foi aberta onde antigamente ficava uma parte do estádio. O Sesi do Altos da Cidade também ocupa uma parte da área do antigo estádio.