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Personagem: Do Nova Esperança a campeão da América

Donizete Oliveira, ex-jogador multicampeão pelo futebol,  recorda trajetória que começou no seu bairro em Bauru 

por Bruno Freitas

16/06/2019 - 07h00

Bruno Freitas/BTC
Donizete mostra, ao lado do filho Giovani, as camisas que vestiu na Seleção Brasileira e no Cruzeiro; ao centro, a réplica da taça da Libertadores conquistada pelo time mineiro

Fotos: Arquivo pessoal
Donizete com a camisa do São Paulo, onde foi comandado pelo seu melhor técnico, o mestre Telê Santana

Donizete na Seleção, em amistoso de aniversário de Pelé, ao lado do Rei e Leonardo

Bruno Freitas/BTC
Volante, que atuou em grandes clubes brasileiros e também jogou no Exterior, mantém paixão pelo Norusca, time do coração

Um dos bauruenses mais vitoriosos do esporte profissional, campeão da Libertadores da América e bicampeão da Copa do Brasil, passa, muitas vezes, despercebido entre as pessoas em sua cidade de origem, onde vive com a família após ter "pendurado as chuteiras". Mas ele mesmo flerta com o anonimato, não gosta das câmeras e vive muito bem assim, sempre cercado de amigos e ao lado da família. Donizete Oliveira, hoje com 51 anos, é o homenageado na 20ª edição da Copa Jornal da Cidade/BTC 2019, no Bauru Tênis Clube, agremiação associativa que ingressou em 1990 e, depois que aposentou, passou a frequentar diariamente.

Donizete Oliveira abriu a porta de sua casa, em Bauru, para falar do início da carreira, a trajetória em grandes clubes do futebol, da coleção de títulos, da resenha com craques, falou sobre Romário, Dener e Telê Santana, além de mostrar uma relíquia guardada a sete chaves, a réplica da taça da Libertadores que ganhou no Cruzeiro, em 1997.

VENDIA AMENDOIM NO ALFREDÃO

O futebol na vida de Donizete Oliveira começou, na verdade, nas arquibancadas do Estádio Alfredo de Castilho. Quando tinha entre 11 e 12 anos ele vendia amendoim e sorvetes em dias de jogos do seu time do coração, o Esporte Clube Noroeste. "Joguei em grandes clubes, com mais de 200 jogos no Cruzeiro, quase joguei no Corinthians, defendi o São Paulo de Telê Santana, mas o meu time do coração mesmo é o Noroeste. Vi grandes jogadores ali no campo, enquanto fazia um dinheiro na arquibancada, para ajudar a família. Entre os jogadores que me lembro da grande qualidade eram Lela e Vitor Hugo", recorda Donizete.

Meio-campista de muito vigor físico, raça e titular em todas as equipes que defendeu, Donizete Oliveira deu os primeiros chutes no próprio Alfredo de Castilho, na base, com 12 anos. Naquela época, recorda ele, o clube fornecia apenas o passe de ônibus. "A gente era pobre. Minha mãe foi ao clube e pediu ao menos uma cesta básica, mas o Noroeste não podia fornecer. Nem para mim nem para os outros meninos. Foi então que meus pais me tiraram do futebol para poder só estudar e trabalhar, para ajudar em casa", disse.

Décadas depois, entre 2004 e 2005, de acordo com o ex-jogador, que já havia parado há três anos, o então presidente noroestino Damião Garcia (hoje falecido) foi até sua casa para negociar a desaposentadoria de Donizete, para que jogasse no Norusca que buscava o acesso da Série A2 para a elite do Campeonato Paulista, mas o sonho acabou não se concretizando. Hoje, Donizete veste a camisa do Alvirrubro habitualmente e não perde um jogo sequer no Alfredão.

TRAJETÓRIA DE SUCESSO

José Augusto de Oliveira e Cecília Francisco de Oliveira, os pais de Donizete, não estão mais vivos. O ex-jogador é casado e tem três filhos, Giovani, de 14 anos, Lívia, 12 anos, e Maria Fernanda, de 6 anos. Na infância simples, morava na quadra 2 da rua Cabo Francisco de Assis, no Jardim Nova Esperança, onde possui casa até hoje. Ele estudou na Escola Estadual Irmã Arminda Sbríssia. Aos 13 anos, seu cunhado Lapão o levou em uma viagem para o Rio de Janeiro, onde ele acabou fazendo um teste no Fluminense. E o treinador da época não o deixou voltar para Bauru. "Meu técnico ali na base foi o Toninho. E anos depois fui profissionalizado pelo então treinador Sérgio Cosme", revela.

Depois, ao longo da carreira, Donizete jogou com destaque no Grêmio, no Bragantino, onde fez meio-campo com Mauro Silva, São Paulo, Cruzeiro, onde vestiu a camisa do time em mais de 200 jogos e conquistou vários estaduais, duas Copas do Brasil e uma Libertadores, além de Vitória, Urawa (JAP) - onde mandava e desmandava no time - e por fim Vasco, ao lado de Romário, que pediu sua contratação na época. Donizete defendeu a Seleção Brasileira no amistoso internacional celebrando os 50 anos de Pelé, em 1990, no confronto Brasil x Resto do Mundo, vestiu a amarelinha também em 1991 e novamente nos anos 2000, nas eliminatórias da Copa do Japão e da Coreia do Sul, onde foi titular no 6 a 0 contra a Venezuela.

BASTIDORES

O Vasco foi seu último time da carreira. Donizete revelou que foi o próprio Baixinho quem pediu sua contratação. "O Eurico Miranda precisava de um volante que reunia características de força e técnica, que jogasse para o time e o Romário passou meu telefone para ele. Eurico me ligou, perguntou quanto eu ganhava no Japão, na época no Urawa, onde eu tinha de tudo, até intérprete em período integral, falou do desejo de contar comigo e me trouxe de volta para o Brasil", recorda. Donizete destacou também os dois maiores atacantes que jogou a favor e contra, Romário e Denner.

"O Baixinho era craque demais, sem igual. Eu joguei contra o Dener, na época ele na Portuguesa, e realmente era diferenciado. Se não tivesse morrido, seria um dos maiores do futebol. Quando ele chegou à Seleção, nos anos 90, eu foi o primeiro a cumprimentá-lo e dar boas-vindas", disse.

"FUTEBOL NÃO É MAIS O MESMO"

Donizete comparou o futebol de sua época, dos anos 90 e 2000, com o atual. "Naquele período os times do Brasileirão tinham, no mínimo, de três ou quatro craques, craques de verdade, entre os titulares. Hoje temos três ou quatro no campeonato inteiro. O futebol mudou. Hoje é muita força, em todas as posições. Na minha época a força do time era minha, eu jogava para o time, corria por eles, mas os companheiros das outras posições do grupo eram leves, técnicos, rápidos e habilidosos", destaca.

"LIBERTADORES ERA GUERRA"

O ex-atleta revelou ainda uma curiosidade na campanha do título da Libertadores de 1997, com o Cruzeiro. "Quando íamos jogar nos países vizinhos, como a Argentina, por exemplo, era guerra. Nosso ônibus era aguardado para ser apedrejado e nós, jogadores, tínhamos que ficar deitados no piso. No vestiário, o time adversário nos deixava sem água de propósito. Era tenso, mas nada disso nos impediu de levar para casa o título", lembrou Donizete. Hoje ele tem essa lembrança do título na sala de casa, uma réplica de mesmo tamanho e peso da taça da Libertadores, relíquia que recebeu de presente do Cruzeiro.

"IRIA PARA O CORINTHIANS, MAS TELÊ LIGOU"

Outra revelação que fez, foi quando quase foi contratado pelo Corinthians, mas acabou indo para o rival São Paulo, após dois anos de destaque no Bragantino, entre 1992 e 1994. "O meu agente me disse que o Corinthians tinha interesse em me contratar e fez a proposta. Eu falei pra ele que o Corinthians era a minha cara. Jogar lá, com a minha característica de marcação forte, raça e entrega dentro de campo, teria a torcida gritando o meu nome. Seria bacana demais. Aí veio uma proposta do São Paulo também. Mesmo assim, eu naturalmente acabaria indo para o Corinthians, até que o telefone tocou. E quem era? Telê Santana. O homem me ligou e me pediu para jogar com ele, que precisava de mim lá. E isso fez toda a diferença. Como eu iria dizer não para o Telê Santana? Não tinha como. E fui para o São Paulo, onde foi muito feliz em duas temporadas. Depois fui para o Cruzeiro e fiz história", conta.

TREINADORES

Donizete também falou sobre os melhores treinadores de sua época. "Com certeza o melhor treinador que tive foi Telê Santana. Ele era diferente porque o trabalho dele era muito além das quatro linhas. Ele era um pai, um irmão mais velho, um grande conselheiro. Ele me fez parar de dar carrinho e a jogar só em pé. Além do Telê, destaco o Ênio Andrade, meu técnico no Bragantino, que melhorou meu futebol em 100%. Outros grandes treinadores que tive foi Parreira, Luxemburgo e Cilinho", cita.

EM PAZ E EM FAMÍLIA

Atualmente, Donizete não troca o convívio da família e a liberdade de poder levar os filhos na escola e ver as crianças crescerem para voltar a trabalhar com futebol. "Eu até cheguei a tirar licença B da CBF, na época para adquirir conhecimento e rever amigos. Até recebi muitos convites para trabalhar em vários clubes, mas quero ficar com a minha família", finaliza.