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Tóquio volta a se frustrar com Olimpíadas depois de 80 anos

Ha oito décadas, Segunda Guerra Mundial forçou país a abrir mão da realização dos Jogos

24/03/2020 - 16h15

Yukihito Taguchi/Reuters

Tóquio tem histórico de cancelamento ou adiamento de Jogos Olímpicos sediados na cidade

Há muito mais diferenças do que semelhanças entre as situações. Mas, de novo, após oito décadas, Tóquio se vê obrigada a mudar os planos na preparação para receber uma edição das Olimpíadas. Em 2020, a quatro meses da data inicialmente prevista para o início dos Jogos, o problema é uma pandemia que precisa ser controlada e provocou o adiamento do evento em um ano.

Na edição de 1940, antes mesmo de o cenário geopolítico europeu ter deixado desenhada a Segunda Guerra Mundial (1939-45), era a expansão colonialista do Japão que punha o evento em risco.

O quadro atual é, embora grave, simples de entender: há um vírus que se impõe e dita interrupções, adiamentos, até que sua propagação seja freada. No período anterior ao que seria a primeira Olimpíada realizada na Ásia, a indefinição envolvia apenas humanos, o que tornava tudo mais imprevisível.

Os Jogos de 1940 jamais ocorreram. A Segunda Guerra tornou inviável também a disputa em 1944, e as tradicionais competições quadrienais só voltaram em 1948. É incorreto, porém, dizer que a programação não tenha ido adiante no Japão em 1940 por causa da Segunda Guerra -o conflito entre os países chamados de "Aliados" e aqueles que integravam o "Eixo", do qual fazia parte o Japão do imperador Hirohito.

O processo de cancelamento das Olimpíadas de Tóquio-40 é quase concomitante à sua concepção. O Japão brigou pelos Jogos como parte de uma estratégia imperialista e deles abriu mão pela mesma estratégia.

A candidatura da cidade a sede olímpica tomou forma em 1932. Em 1931, o exército japonês já havia invadido a Manchúria. Os fatos não são desconexos: a ideia era dominar a Ásia Oriental e, no aniversário de 2.600 anos do império japonês, em 1940, exibir-se ao mundo como a referência de modernidade na região.

"A apresentação de Tóquio como uma cidade moderna era certamente importante, mas, mais do que se projetar como um líder regional, segundo argumenta o filósofo Karatani Kojin, o Japão queria que a Olimpíada fosse uma vitrine para o modelo de civilização que pretensamente promoveria no Oriente com seu projeto imperialista", afirma Edelson Geraldo Gonçalves.

De acordo com o historiador, que tem vários trabalhos ligados ao Japão moderno, via-se uma oportunidade valiosa na possibilidade de receber os Jogos, até então realizados apenas na Europa e nos Estados Unidos. Era a chance, diz ele, de "fazer da Olimpíada uma propaganda e dar ao projeto imperialista uma roupagem de missão civilizadora".

Foi nesse contexto que os japoneses batalharam e conquistaram o direito de sediar o prestigiado evento esportivo -esforço do qual participou ativamente Jigoro Kano, patrono do judô moderno. A articulação teve uma negociação com Benito Mussolini, líder da Itália fascista, que abençoou a candidatura de Tóquio em troca de apoio a Roma na edição de 1944.

A definição acabou ocorrendo em 1936, em Berlim, palco dos Jogos daquele ano. Ao fim da disputa entre as cidades, estavam no páreo Tóquio e Helsinque. E, com a aprovação do presidente do COI, o belga Henri de Baillet-Latour, a cidade japonesa venceu a votação por 37 a 26.

Começaram, então, os preparativos. Após alguma indefinição, decidiu-se que um novo estádio seria construído para as competições. Foi estabelecido também um calendário, e a cerimônia de abertura ficou marcada para 21 de setembro de 1940.

Nem isso, porém, fez Hirohito pôr em pausa seus planos bélicos. Como relatou o historiador britânico Eric Hobsbawm, "em 1937, sem surpreender ninguém, o Japão invadiu a China e partiu para uma guerra aberta que só cessou em 1945".

O que se viu em seguida foi uma situação semelhante à das últimas semanas no que se refere a promessas de pouca credibilidade. O presidente do COI insistiu: "Os Jogos de Tóquio devem e vão continuar". Ele recebeu uma mensagem da prefeitura de Tóquio, que dizia: "Os cidadãos estão fazendo o máximo para fazer dos Jogos de 1940 um sucesso".

Ficava mais claro a cada dia, no entanto, que as Olimpíadas estavam se tornando impraticável. Já havia um mal-estar internacional, externado sobretudo pelos ingleses, irritados com a possibilidade de o evento ser utilizado como palanque político pelo governo japonês.

Takashi Goh, membro do Comitê Olímpico Japonês, procurou reiterar que a preparação estava em "rápido progresso". Mas, em um comunicado eufemisticamente intitulado "O Incidente Chinês", admitiu: "Tendo em vista o incidente, os planos de construção do estádio tiveram de ser modificados".

A modificação tinha um motivo simples: faltava aço, material largamente utilizado em utensílios de guerra.

O anúncio inevitável acabou ocorrendo em 15 de julho de 1938. Em uma sessão da Dieta, o parlamento japonês, o ministro da Saúde e do Bem-Estar, Koichi Kido, declarou a desistência.

"Em vista da situação atual, em que é necessária mobilização geral, mental e material, com a nação inteira unida para alcançar o objetivo nas atividades contra a China, consideramos apropriado não realizar os Jogos Olímpicos", informou.

Baillet-Latour, chefe do COI, recebeu em seguida um telegrama sobre a decisão. No comunicado, os japoneses diziam que abdicavam também da organização dos Jogos de Inverno, que seriam realizados em Sapporo, em 1942.

A tarefa de organizar e receber as competições chegou a ser transferida a Helsinque (verão) e a Saint Moritz (inverno), mas rapidamente se tornou evidente que a Europa também não poderia ser a sede. Se havia guerra na Ásia Oriental, o Velho Continente acordava para "a ascensão extraordinária e praticamente sem resistência da Alemanha nazista", como descreveu Hobsbawm.

Enfim foi deixada de lado a chamada política de "apaziguamento", que procurava evitar a Segunda Guerra a todo custo, sobretudo pelo trauma da Primeira. O conflito se mostrou inevitável e terminou apenas em 1945 -com o "Eixo", formado por Alemanha, Itália e Japão, derrotado.

As Olimpíadas voltaram a ser realizadas em 1948, em Londres, sem que Alemanha e Japão fossem convidados - embora italianos tenham participado e ganhado medalhas. E Tóquio esperou até 1964 para finalmente receber os primeiros Jogos Olímpicos na Ásia.

Ainda com o cargo de imperador, mas sem poderes de chefe de Estado, Hirohito esteve na cerimônia de abertura. A pira olímpica foi acesa por Yoshinori Sakai, um adolescente de 19 anos que havia nascido no dia da explosão da bomba atômica de Hiroshima, uma daquelas que encerraram a Segunda Guerra, em agosto de 1945.

O Japão de 1964, com a história olímpica construída naquele ano, foi lembrado no processo de candidatura para 2020. Os japoneses também recordaram toda a sua tradição milenar para reivindicar o direito de ser sede dos Jogos outra vez. O material de campanha, porém, nada mencionava sobre os planos frustrados de 1940.

"Os Jogos Olímpicos de 1964 foram a vitrine para mostrar ao mundo um novo Japão, pacífico e democrático, em substituição ao Japão militarista e autoritário que foi derrotado em 1945. É natural que um país que ainda pretenda projetar essa imagem se lembre desses Jogos, não dos de 1940, que seriam uma vitrine para os sucessos do velho Japão imperial, cuja memória é hoje repudiada pela maioria da população", diz o historiador Edelson Geraldo Gonçalves.

É a memória de 1964 que é cultivada pelos organizadores. Mas, por motivos que desta vez fogem à vontade dos governantes japoneses, a Olimpíada de 2020 exibe semelhanças com a experiência frustrada de oito décadas atrás.

Agora, é um vírus que ignora o conceito de fronteira, não um Estado.

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