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Após prata, Kathleen Ledecky dos EUA se encontra com a Kathleen Ledecky do Vietnã

"Eu a agradeci. Não estaria aqui se não fosse por ela", disse Ariarne segundos após impor a primeira derrota em uma final individual

por FolhaPress

26/07/2021 - 13h11

Fernando Frazão/Agência Brasil

"Katie" Ledecky é uma nadadora norte-americana que ganhou cinco medalhas de ouro olímpicas e 14 medalhas de ouro em campeonatos mundiais, a maior marca na história de uma nadadora

A primeira coisa que a australiana Ariarne Titmus, 20, fez ao sair da piscina no centro aquático de Tóquio foi abraçar Kathleen Ledecky, 24.

"Eu a agradeci. Não estaria aqui se não fosse por ela", disse Ariarne segundos após impor a primeira derrota em uma final individual na carreira olímpica da americana. Ledecky ficou com a prata nos 400 m livre em prova disputada na noite deste domingo (25).

Usar a palavra derrota para uma segunda colocação fez Nguyen Thi Anh Vien, 24, rir oito horas depois.

"Ela ganhou a prata. Alguém realmente acha que perdeu?", questionou a vietnamita, que terminou em último a eliminatória dos 200 m livre na manhã desta segunda (26). Uma qualificatória vencida por Ledecky.

As Olimpíadas são o lugar em que os caminhos do maior nome da natação atual, dona de cinco medalhas de ouro na carreira e duas de prata (a outra segunda colocação havia sido no revezamento 4x100 m livre na Rio-2016), pode cruzar com o de Nguyen. O maior feito de sua carreira é ser uma espécie de Kathleen Ledecky dos Jogos do Sudeste Asiático, onde conquistou sete ouros, sete pratas e dois bronzes.

Com escasso tempo de descanso após ser superada por Ariarne, Ledecky caiu na piscina de novo e percorreu os 200 m em 1min55s28. Mais de dez segundos depois (2min05s30), a vietnamita também conseguiu completar a distância.

"Eu apenas fui para a batalha até o fim. Não achei que morri. Ela apenas nadou os 50 ou 75 metros finais mais rápido e chegou primeiro", deu de ombros a americana, ao comentar sobre Ariarne e a sensação estranha de não terminar em primeiro.

As declarações aconteceram em uma conferência de imprensa cheia de jornalistas. Ledecky responde a perguntas apenas em situações como essa ou para a NBC, emissora de TV do seu país dona dos direitos de transmissão das Olimpíadas de Tóquio. O comentarista do canal é Michael Phelps, o maior vencedor da história dos Jogos (28 medalhas).

Ela não vai à zona mista, espaço em que os atletas atendem os repórteres internacionais.

Quando Nguyen Thi Anh Vien passou por esse espaço após sua prova dos 200 m livre, havia apenas o repórter da Folha na sala.

"Não tenho muito o que dizer. Fico feliz de estar competindo com as melhores de novo. Tentei o que pude para conseguir o melhor resultado. Ela é um exemplo para todas as atletas da natação", disse a vietnamita, em sua terceira edição de Olimpíadas, se referindo à americana.

Apenas em contratos publicitários assinados após a Rio-2016, quando faturou quatro medalhas de ouro, estima-se que Ledecky ganhe US$ 5 milhões por ano (cerca de R$ 26 milhões). Mais vitórias podem potencializar novos acordos. Ela ainda pode ficar com o ouro nos 200, 800 e 1500 livre e no revezamento 4x200 m em Tóquio.

Eleita cinco vezes a atleta do ano no Vietnã, Nguyen recebeu como premiação pelos seus resultados em 2018, aos 18 anos, uma promoção a capitã do exército do seu país. Chamada de garota de ouro do esporte nacional, ela viajou aos 12 anos para treinar nos Estados Unidos. Aos 16, nadou em Londres-12, sua estreia nos Jogos.

A asiática fica desconfortável com perguntas. Responde-as já caminhando, com quem quer ir embora. A fama fez Ledecky, medalhista de ouro nos 800 m livre em Londres-2012 (aos 15 anos), ficar muito à vontade diante do microfone.

Mas perdeu o rebolado por alguns segundos ao ser lembrada de que, apesar de considerar ter feito uma excelente prova, a perdeu. Nguyen preferiria dizer que a colega foi medalha de prata. A americana concorda.

"É... É algo raro para mim. Eu já tive minha parcela de provas duras, mas é uma honra competir com alguém como Ariarne e nós duas conseguirmos tempos realmente muito bons. Você não pode ficar desapontada com a prata. É apenas uma emoção fazer parte disso", analisou Ledecky.

A nadadora está no caminho da história e sabe disso. Pode superar o recorde de atleta com mais ouros da história da natação olímpica. Sua compatriota Jenny Thompson venceu oito.

Estimativa do The Wall Street Journal é que no período de seis dias, ela vai nadar 6,2 km. São 124 idas e voltas na piscina de 50 metros.

Os caminhos de Nguyen e Ledecky ainda podem se cruzar em Tóquio. A vietnamita vai competir também nos 800 m livres. Nesta manhã de segunda-feira, enquanto juntava suas roupas, apressada, e ia para o vestiário, a americana começava a se preparar para voltar a cair na água na última prova do dia: a primeira eliminatória dos 1.500 m.

Venceu com o tempo de 15min35s:35. Na estreia da distância no calendário olímpico feminino, ela já tem a melhor marca.

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