Bauru e grande região

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Falcão, uma ‘cidade’ dentro de Bauru

Nascido às margens dos trilhos da Noroeste, bairro tem história ligada à ferrovia, ao samba, à religiosidade e ao ensino

por Rodrigo Ferrari

17/05/2009 - 07h00

Surgida há mais de um século, às margens dos trilhos da Noroeste e do rio, a Vila Falcão é uma cidade encravada no coração da “Cidade Sem Limites”. Um pequeno aglomerado de casas, que cresceu e se desenvolveu ao longo do tempo e acabou convertendo-se em um dos bairros mais famosos de Bauru. Berço da primeira instituição de ensino superior e da segunda paróquia do Município, a Falcão também é considerada a vila dos sambistas, dos boêmios e dos amantes da bola.

O pesquisador Irineu Azevedo Bastos, que é nascido na Vila Falcão, conta que o bairro surgiu por volta de 1906 - ou seja, quase de maneira concomitante ao início das obras da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil -, a partir de um loteamento pertencente a Maria Falcão Machado. Daí que surgiu o nome da vila.

Até 1918, a Falcão não estava integrada ao perímetro urbano de Bauru. Era um distrito imenso - um quadrilátero que fazia divisa com a atual Vila Dutra, o rio Batalha e a fazenda Val de Palmas -, cuja “sede” era situada nas imediações de onde, hoje, estão as ruas Alfredo Maia e Bernardino de Campos.

Em 29 de julho daquele ano, finalmente o distrito foi incorporado ao perímetro urbano do Município, por meio da lei número 145. Naquela época, a Vila Falcão parecia ser um mundo à parte em Bauru.

“As pessoas quase não iam à ‘cidade’, pois o comércio da vila tinha de tudo: desde cebola e tomate até lenha e arreio para cavalos”, recorda-se o ferroviário aposentado Ricieri Trevisan, 79 anos, que vive no bairro há quase oito décadas.

Entre os estabelecimentos que se destacavam na Falcão, estavam a Padaria União do Brasil, de propriedade do português Duarte da Silva; o Açougue Brasil, pertencente ao italiano Luiz Ferrari; e a Serraria Brasil, de Oswaldo Pereira.

Inicialmente, os ferroviários dividiam espaço no bairro com imigrantes que trabalhavam nas lavouras de café da região (principalmente a Val de Palmas). “Antigamente, não havia viaduto ligando o bairro à cidade - só uma passagem em nível, próximo às oficinas da Noroeste”, explica o barbeiro Zélio Póvoa, que trabalha no bairro desde 1 de fevereiro de 1950.

Além dos imigrantes e dos ferroviários, a Vila Falcão contava com uma expressiva comunidade negra. Inclusive, foi a partir de uma irmandade fundada por afro-descendentes que surgiu a capela do bairro, dedicada a São Benedito.

Em 1929, uma nova capela teve de ser construída, para atender à crescente demanda de fiéis. Mais tarde, em 1942, a igreja receberia uma torre e, dois anos depois, seria elevada à condição de paróquia.

Por décadas, a igreja de São Benedito funcionou como uma espécie de coração do bairro. “Ali, existia uma praça muito bonita, com árvores, bancos e um coreto onde uma banda costumava se apresentar”, conta a aposentada Dalva Batalha Teixeira Grandini, 68 anos, que mora no bairro desde que nasceu.

Trevisan lembra-se das sessões de cinema que costumavam ocorrer na praça da igreja, atraindo verdadeiras multidões. “Na maioria das vezes, eram filmes educativos. Também costumavam passar fitas de ‘o Gordo e o Magro’”, afirma.

Naquela época, a Falcão era cortada por ruas de terra. “A região onde hoje está localizado o (hospital) Manoel de Abreu era um matagal”, diz Zélio. Nas décadas seguintes, a região da Vila Falcão ganharia faculdades, supermercado, estádio de futebol e escolas de samba. O comércio do bairro se expandiu e o antigo distrito tornou-se sede do Noroeste, a principal agremiação esportiva da cidade.

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Paróquia atrai fiéis de diversos bairros

Embora esteja localizada no coração da Vila Falcão, a igreja de São Benedito costuma atrair fiéis de diferentes regiões de Bauru. “Muitas pessoas de outros bairros começaram a frequentar as missas e acabaram criando raízes na comunidade”, acredita o padre Fábio Roberto Chella, responsável pela paróquia.

Nos anos 1990, importantes movimentos de leigos do catolicismo, como os Encontros de Casais com Cristo (ECC), os Cursilhos da Cristandade e a Renovação Carismática, ganharam força na paróquia, a segunda mais antiga da cidade.

“Por muito tempo, as igrejas de Santo Antônio, na Bela Vista, do Senhor Bom Jesus, na Independência, São José Trabalhador, na Vila Industrial, e São Pedro, na Vila Dutra, foram capelas de nossa paróquia”, explica padre Fábio.

Elevada à condição de paróquia em 1944, a antiga capela de São Benedito foi demolida para que um novo templo pudesse ser construído. Atualmente, existe um projeto para ampliar o salão de festas. Além disso, está prevista a construção de uma nova cozinha e de um depósito no local. Hoje em dia, costumam ser realizadas seis celebrações na paróquia, todos os domingos: quatro na matriz, uma na capela de Nossa Senhora da Lourdes, na Vila Giunta, e outra na de Nossa Senhora da Penha, na Vila Souto.

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