Bauru e grande região

Geral

Bela Vista viu o município crescer

Bairro é o terceiro mais antigo de Bauru depois do Centro; tranquilidade do local e tradição conquistam moradores

por Wanessa Ferrari

18/07/2010 - 07h00

Um bairro com ruas calmas e muito inclinadas, permeadas por casas de muros baixos e fachadas arredondadas, habitado por pessoas que há muito tempo vivem no mesmo lugar e que, todos os dias, têm a oportunidade de admirar o crescimento da cidade pelos ‘olhos’ de sua mais bela vista.

Certamente, quem conhece Bauru não custa a identificar que a descrição acima se refere a um dos bairros mais tradicionais e populosos da cidade: o Jardim Bela Vista. Formado no início da década de 20 por trabalhadores da ferrovia, inevitavelmente se tornou reduto de famílias, virou caso de paixão e se espalhou pelas adjacências, engolindo pequenos vilarejos e formando uma única comunidade.

Para os moradores, seu diferencial é o cotidiano pacato que ainda domina a maioria das ruas e cria um contraste gritante com o vizinho Centro. E, mesmo sendo o quarto bairro mais antigo da cidade, formado depois do Centro, Vila Falcão e Vila Quaggio, respectivamente, o Bela Vista não se deixou contaminar pelas mazelas do progresso. Apenas acompanhou-o, com vista privilegiada.

“Não mudo daqui por nada. Meu pai mora aqui há mais de 80 anos e eu, desde que nasci, há 42 anos. Seguindo a tradição, também estou criando meus filhos aqui. Acho que tenho raízes no Bela Vista. Não saberia viver em outro lugar. Conheço todo mundo e todos me conhecem”, justifica Guido Dotto Junior, 42 anos.

Tradição

Tão tradicional quanto o bairro é a profissão de Guido. Ele é responsável pela única barbearia do local. “Como aqui a maior parte dos moradores é dos tempos antigos, desde a formação do bairro, mantenho meu comércio aberto para atendê-los. São clientes fiéis”, explica.

Sérgio Parra Batista, 59 anos, amigo e vizinho de Guido, compartilha da mesma opinião que o barbeiro. Ele também mora no Bela Vista desde que nasceu e afirma com propriedade que só quem vivencia o cotidiano do bairro pode entender os laços entre o local e seus moradores.

“Meus pais se mudaram para cá logo que o bairro foi loteado. A princípio a escolha aconteceu porque aqui é próximo do Centro e, na época, os terrenos eram baratos. Com o tempo, o bairro se tornou uma grande família. Tanto é que mesmo as vilas ao redor, que não são exatamente parte do Bela Vista, assumiram a identidade do bairro”, afirma Sérgio, que destaca a tranquilidade e a boa vizinhança como qualidades da região.

Guido e Sérgio são apenas dois entre centenas de moradores do bairro que não hesitam em destacar as qualidades de onde vivem em uníssono. Em um pequeno passeio pelo extenso território do Bela Vista é possível conversar com pessoas que moram ali desde a sua fundação e que ainda têm vivas na memória a lembrança das ruas de terra, da linha de trem que os separava do Centro e da chegada de marcos importantes, como a Igreja Santo Antônio, a primeira estação de rádio e o Hospital Salles Gomes.

Os irmãos Fábio Rubio, 40 anos, e Kátia Rubio, 55 anos, acompanharam de perto a transformação das redondezas do Bela Vista, mas pouca coisa podem dizer a respeito de mudanças em seu próprio bairro, fator que, aliás, os mantêm morando há tanto tempo no mesmo lugar.

“Moro aqui há 40 anos e minha irmã há 55 anos. Somos expectadores privilegiados do progresso da Cidade Sem Limites e, o melhor, não sofremos as consequências. O Bela Vista continua o mesmo de quando vim para cá, com alguns avanços benéficos, como o asfalto, por exemplo. Mas ainda é calmo e sem muito trânsito. O fato de ser um bairro com comércio escasso, para nós, é um alívio. Afinal, estamos ao lado da Batista de Carvalho”, frisa Fábio.

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Tradicionalmente residencial

Para ser comerciante no Jardim Bela Vista não basta ter vontade ou dinheiro para abrir o próprio negócio. Antes de tudo é preciso ser escolhido pelo bairro. Isto porque a proximidade com a área central da cidade dificulta a sobrevivência de pequenos comércios. Somado a isso, para cair no gosto dos moradores da região, a tradição é essencial.

Vandir Costa Órfão, 58 anos, é um dos poucos comerciantes que sobreviveram à seletividade do bairro. Ele veio da cidade de São Paulo em 1981 a passeio e, a convite de outro comerciante do bairro, montou seu salão de cabeleireiro. De lá para cá já se passaram 29 anos, tempo que fortaleceu sua ligação com o Bela Vista.

“Eu era cabeleireiro em São Paulo. Daí o ex-dono do salão precisava vender o ponto e o destino se encarregou de nos encontrar. Como minha mulher era natural de Bauru, resolvemos encarar o desafio. Hoje, o salão é parte da história da vila”, explica Vandir.

Para o historiador Gabriel Ruiz Pelegrina, que passou grande parte da infância no Bela Vista, a rejeição ao comércio tem influências históricas. Uma delas seria o declive em que o bairro foi construído.

“É meio fora de mão para os outros bairros. Além disso, o Bela Vista foi construído em função do Centro da cidade e da ferrovia. Com o comércio principal localizado lado a lado com o bairro, fica realmente difícil competir”, afirma Gabriel.

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Bairro se tornou uma referência

Basta falar em Bela Vista para que algumas referências venham à cabeça. Algumas mais antigas, que já não existem mais, como Cine Bela Vista, o Hospital Salles Gomes e a rádio PRG8. Outras, mais recentes, que se tornaram marco para cidade, como o Fórum, a TV TEM e a tradicional Igreja de Santo Antônio.

De acordo com o historiador Gabriel Ruiz Pelegrina, tais pontos surgiram com o tempo, discretamente e sem alterar o cotidiano do bairro. Por conta disso, foram aceitos e sobreviveram à tradicionalidade do Bela Vista.

“Em 1935, Alcides Leite começou a lotear os terrenos do Bela Vista e, nesta época, doou um terreno de 40 metros quadrados para João Simonetti, que fundou a rádio PRG8, que depois de muita mudança de nome se tornou a TV TEM”, lembra Gabriel.

A paixão dos filhos pelo bairro também fez diferença em 1937, quando os registros apontam que já havia moradores locais doando glebas de terra para a construção de uma igreja na vila. A primeira capela foi inaugurada em 1940, mas somente em 1968 a paróquia ganhou o formato atual.

Já o Fórum, responsável pela maior parte da movimentação do bairro, só assumiu o endereço da Bela Vista, na rua Afonso Pena, em 1972. O terreno até então era vago.

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