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Entrevista da Semana: Alberto Consolaro

Vida profissional do professor da USP se concentrou em tornar a ciência acessível a um número cada vez maior de pessoas

por Karla Beraldo

29/08/2010 - 07h00

Uma vida dedicada a pesquisa e ensino

Para o pesquisador Alberto Consolaro, ensinar é a melhor forma de se comunicar com o mundo. Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) há 15 anos, o bauruense de coração é um apaixonado pelo trabalho, tido por ele como a maneira mais simples e verdadeira de mostrar seu amor ao próximo.

Assim, foi com o falar calmo e a paciência que todo bom professor aprende a cultivar ao longo da carreira, que Consolaro revelou à reportagem do Jornal da Cidade a sua paixão pelo ensino, falou sobre sua dedicação à pesquisa e seus projetos para tornar a ciência acessível a um número cada vez maior de pessoas.

Natural de Araçatuba, Consolaro formou-se em odontologia pela Universidade Júlio de Mesquita Filho (Unesp), em 1977. Bauru passou a fazer parte da história do professor quando ele iniciou o doutorado na USP, dez anos depois. “Jamais pensei que eu fosse chegar um dia a ser doutor, mas eu tinha isso como um sonho a ser perseguido ao longo da vida”, resume sobre uma de suas muitas conquistas.

Consolaro é autor de seis publicações, tem mais de 300 artigos publicados e escreve, periodicamente, para quatro revistas nacionais. Contribuiu com a descoberta de uma técnica inédita na área da odontologia e está longe de abandonar as salas de aula. Sua mais nova realização é uma coluna semanal que passa a assumir no JC.

Por meio dela, o professor pretende ensinar os leitores a descobrir a ciência no seu dia a dia. “Essa é uma forma que eu tenho de devolver tudo o que eu ganhei do ensino público”, afirma. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade – O senhor construiu uma trajetória de sucesso na academia. Como tudo isso começou?

Alberto Consolaro – Desde que eu me entendo por gente, eu queria ser professor. Como em Araçatuba, cidade onde eu nasci, só tinha a Faculdade de Odontologia da Unesp como opção de estudo público, eu prestei o vestibular. Meus pais, ambos filhos de imigrantes italianos, tiveram quatro filhos, uma família de origem bem humilde. Então toda a minha trajetória foi feita dentro da escola pública. Meus amigos me perguntavam, “mas você não queria ser professor?”. Eu respondia, “vou ser, só que de odontologia”. Sentia que atuar na área da docência era minha vocação primeira.

JC – Pelo jeito o senhor estava certo?

Consolaro - Sempre fui muito esforçado, estudioso, trabalhava durante o dia e estudava à noite. Na faculdade, eu encontrei um professor que se interessou pelo meu trabalho, então comecei a fazer iniciação científica e, ao terminar o curso, já saí com a ideia de fazer mestrado, doutorado, dar aula, construir uma carreira na academia. Hoje, sou professor titular da Universidade de São Paulo (USP) em Bauru e dou aulas na pós-graduação da USP de Ribeirão Preto. Já são 33 anos de carreira docente, sendo 15 deles como professor titular desta universidade. Tenho também seis livros publicados, todos com várias edições, nas áreas da odontologia, medicina e do ensino, que é a que eu adoro.

JC - No decorrer de toda essa trajetória, em que momento veio para Bauru?

Consolaro – Foi quando eu decidi fazer doutorado na USP aqui. Primeiro, depois de me formar, eu fui dar aula em uma faculdade particular em Presidente Prudente. Foi lá que eu tive que aprender a ser professor, porque as salas tinham 100 alunos, eu tinha 21 anos e todos os meus alunos eram mais velhos do que eu. Eu tive que me virar porque, além da vocação, não tinha mais nada. Mas como eu gostava muito, acabei conseguindo descobrir os caminhos.

JC – E o mestrado?

Consolaro - Depois, eu fui para a Universidade Federal de Uberlândia. Lá eu pesquisei junto com a faculdade de medicina e isso alargou muito meus horizontes. Ter contato com várias áreas do conhecimento te abre muito a visão da vida, da universidade da pesquisa. Simultaneamente às aulas, eu fui fazer o mestrado na Unicamp. Foi 1986 que eu resolvi fazer o doutorado e, logo no primeiro ano, fui convidado a fazer parte do quadro de professores da USP.

JC - Para o senhor que sempre quis ser professor, deve sentir-se realizado, não?

Consolaro - É uma satisfação muito grande. Na verdade, eu jamais pensei que eu fosse chegar um dia a ser doutor, mas eu tinha isso como um sonho a ser perseguido ao longo da vida. Também jamais havia imaginado que eu seria professor na USP. Naquele momento eu pensei “cheguei onde planejei”, a partir de agora vou estar no lucro. Tudo que eu realizei, fiz com muito prazer, satisfação e com muita alegria, porque sempre achei que eu estava sendo premiado, que eu estava indo além das minhas expectativas iniciais.

JC - O que significa ser professor para o senhor?

Consolaro - É ajudar as pessoas, somar, é orientar e participar do crescimento do outro. E isso, sem ser piegas, é uma forma de você exercer a máxima do Cristianismo, que é você ter amor ao próximo. Na verdade, é a forma mais simples e verdadeira de você exercer isso. Para mim ser professor é ver o outro se construindo e contribuir com esse desenvolvimento. Encaro a prática docente como a melhor forma de se comunicar com o mundo.

JC - E como odonto, você chegou a atuar?

Consolaro - Sim e ainda atuo. Trabalho na área de patologias bucais que significa diagnosticar as doenças da boca. Me dediquei muito a essa área e tenho um bom treinamento nisso. Até porque a carreira do professor universitário no Brasil está intimamente ligada à pesquisa e também à atividade de extensão.

JC - Me fale um pouco de suas pesquisas...

Consolaro - Escolhi para pesquisar a área de reabsorções dentárias, que significa as raízes dos dentes serem silenciosamente absorvidas pelo organismo sem que o paciente perceba. Queria esclarecer esse fenômeno, já que não se tinha muito conhecimento sobre as causas.

JC - O senhor, inclusive, é referência na área por conta das descobertas dessas pesquisas. Não é isso?

Consolaro - Realmente eu tive um bom êxito nisso, estou pesquisando a área desde 86. Uma das coisas que eu identifiquei é que é possível saber se o indivíduo tem esse problema, antes de aparecer na radiografia, através de uma gota de saliva ou da lágrima. Patenteamos essa técnica, que é inédita, e o kit necessário está em processo de industrialização. Acredito que em um ano, ela já esteja sendo utilizada nos consultórios.

JC - Como é fazer pesquisa no Brasil?

Consolaro - Há muitos anos que temos dinheiro para pesquisa no Brasil e no Estado de São Paulo mais ainda. A dificuldade que muitas pessoas têm em fazer pesquisa é porque elas não aprenderam a trabalhar com projetos. Se você apresenta um projeto de qualidade, hoje você tem agências e até empresas dispostas a financiar esses projetos. O Brasil tem muita competência para fazer pesquisa e tem dinheiro destinado a isso.

JC - Além do ensino, alguma outra paixão?

Consolaro - Quando você faz pesquisa, necessariamente, tem que aprender a fotografar, então também entrei nesse mundo e se tornou um hobby bastante interessante. Gosto de sair para fotografar, principalmente paisagens.

JC - E o que gosta de fazer no tempo livre?

Consolaro - Gosto muito de frequentar restaurantes, de praticar esportes e saio muito com os amigos. Vou muito visitar meus filhos, eles também vem para Bauru, são meus verdadeiros pilares.

JC – O senhor tem quantos filhos?

Consolaro - Eu sou divorciado e tenho dois filhos maravilhosos. A Renata é patologista bucal também, está terminando o doutorado dela e é professora da Unesp, a escola na qual me formei. Já o Sílvio é médico e trabalha em Araçatuba.

JC - É bom ver os filhos seguindo o mesmo caminho?

Consolaro - Eu acho interessante, apesar de nunca ter estimulado. Mas o exemplo, inevitavelmente, influencia. Meu filho não está na área docente, mas é médico, procura auxiliar as pessoas e é um profissional maravilhoso e ambos, assim como eu, procuram auxiliar o próximo no seu trabalho e isso é o mais importante.

JC - O senhor tem vontade de se casar de novo?

Consolaro - Tenho, acredito no amor, no casamento, mas tem que ser com a pessoa certa e encontrar a pessoa certa as vezes é um esporte um tanto difícil (risos).

JC - Tem algo que o senhor acredita que falta realizar?

Consolaro - Um sonho é eu passar a viver dos meus escritos, porque eu adoro escrever. Além dos livros, escrevo para quatro revistas nacionais sobre aspectos científicos. Esses escritos procuram traduzir os resultados científicos, fazendo com que a ciência fique mais fácil de ser consumida.

JC - A coluna que o senhor terá no jornal tem relação com esta vontade?

Consolaro - Totalmente. Vou ter a possibilidade de falar de ciência para o leigo. Mostrar para a pessoa comum o quanto ela usa a ciência e o quanto ela poderá se beneficiar se passar a usar mais ainda. Estou bastante entusiasmado. A coluna vai ainda integrar o programa “JC nas Escolas”, então vai de encontro ao que eu quero que é divulgar a ciência. É uma forma que eu tenho de devolver tudo o que eu ganhei do ensino público. E levando isso até as crianças podemos estimular aptidões.

JC – E como será essa coluna?

Consolaro – Ela sairá no Ciência, com notícias curtas e pequenas entrevistas com leitores. Na primeira edição, abordarei o significado da expressão cientificamente comprovado e falarei da aptidão da Geração Y para a ciência.

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Perfil

Nome: Alberto Consolaro

Idade: 54 anos

Local de nascimento: Araçatuba

Filhos: Renata e Sílvio

Signo: Áries

Hobby: Fotografia, ler e ouvir música

Livro de cabeceira: “O Conselheiro”, de Bob Burg e John David Mann

Filme preferido: “Sociedade dos Poetas Mortos”

Estilo musical predileto: MPB

Time: Palmeiras

Para quem dá nota 10: Lula

Para quem dá nota 0: corruptos

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