Bauru e grande região

Geral

Abundantes em Bauru, folhas do cerrado agem contra câncer e úlcera

por Ana Paula Pessoto

15/05/2011 - 03h00

Bioma abundante na região, por muito tempo o cerrado foi pouco admirado e até negligenciado em virtude de sua aparência: vegetação rasteira e torta. Aos olhos leigos, ela pode até não ser tão exuberante quanto a Mata Atlântica ou a selva amazônica, porém, ganha cada vez mais destaque e eleva seu valor quando o assunto são as plantas medicinais. Segundo pesquisa desenvolvida na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, a Vochysia tucanorum e a Miconia albicans, plantas conhecidas popularmente como pau-de-tucano e folha-branca, respectivamente, contêm substâncias com propriedades capazes de prevenir e até tratar doenças como o câncer e a úlcera gástrica.

Anne Lígia Dokkedal Bosqueiro, pesquisadora e professora do Departamento de Ciências Biológicas da Unesp, ressalta que estudos científicos profundos sobre o cerrado e sua preservação são imprescindíveis no que diz respeito à medicina, alimentação e a manutenção do equilíbrio do meio ambiente, já que o solo fica pobre sem a vegetação nativa. "É importante ressaltar que esse nosso bioma é tão importante quanto a Mata Atlântica e Amazônia e deve ser preservado. Algumas espécies de plantas só ocorrem nessa vegetação. Quanto mais conhecemos, mais provamos seu valor", acrescenta a pesquisadora.

Em franca expansão em todo o Estado de São Paulo, as pesquisas sugerem substâncias preventivas e até curativas para males que afligem a saúde humana. No câmpus de Bauru, ao menos dois estudos prontos e publicados compravam que o cerrado também é berço de plantas medicinais.

Segundo Bosqueiro, o trabalho de pesquisa realizado com o pau-de-tucano teve origem, principalmente, devido à abundância da espécie na região, além de não haver, até então, conhecimento sobre o seu potencial medicinal. "Eu trabalhava na Serra do Cipó, em Minas Gerais e, quando cheguei em Bauru, fiquei encantada com a maravilha de vegetação que temos aqui. Assim, trouxe minha pesquisa para o cerrado. Começamos com o estudo químico das folhas da Vochysia e outros colegas se interessaram em fazer testes para saber sobre o seu potencial medicinal".

Os primeiros estudos revelaram que os extratos das folhas do pau-de-tucano protegem a mucosa gástrica por meio de atividade anti-inflamatória bastante eficiente. Realizado em ratinhos de laboratório, os testes apontaram que, induzidos à úlcera, os animais tratados com a planta não desenvolveram a doença, resultado contrário ao obtido com os ratos não tratados.


Estudo


A pesquisadora explica que, em um primeiro momento, as folhas do pau-de-tucano passam por processo de secagem em estufa e são moídas para se extrair seus componentes por meio de solventes orgânicos. Depois, são feitos vários procedimentos cromatográficos que separam as diferentes moléculas que compõem as folhas.

"Após isolado, o material é levado para a cidade de Araraquara, onde tenho parceria com um instituto de química. Lá, são realizadas experiências de ressonância magnética nuclear para saber exatamente quem é quem em cada molécula. Uma colega de Botucatu pega esses extratos, trata ratinhos com eles e faz as análises", esclarece Bosqueiro.

As folhas das plantas são a base dos estudos dos pesquisadores do Departamento de Ciências Biológicas da Unesp, isso porque elas são a parte mais renovável das plantas, ao contrário das raízes ou cascas que, se retiradas em larga escala, corre-se o risco de matar a planta.

"Se você trabalha com a raiz de uma árvore, corre o risco de matá-la. A casca também pode ser arriscado, embora muita coisa seja feita com a casca, principalmente na produção caseira de medicamentos. Porém, nesses casos, a quantidade é pequena. Agora, pensar em um medicamento que vai para o mercado é uma coisa mais complicada", alerta a pesquisadora.

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Folha-branca protege célula de danos


O flavonoide, substância conhecida e valorizada por ser um poderoso antioxidante capaz de reduzir os radicais livres que causam danos à saúde, foi encontrado por pesquisadores do Departamento de Ciências Biológicas da Unesp de Bauru na Miconia albicans, planta do cerrado conhecido popularmente como folha-branca.

Também presente em alimentos como as frutas vermelhas e até mesmo no vinho, uma das principais funções dos flavonoides é prevenir ou retardar o desenvolvimento de alguns tipos de câncer. "Também testada em um instituto de química de Araraquara, a Miconia mostrou ter propriedades antimutagênicas, ou seja, a planta é capaz de proteger as células contra danos no DNA, o que previne doenças como o câncer e má formação no desenvolvimento do organismo, por exemplo", aponta Anne Lígia Dokkedal Bosqueiro, pesquisadora e professora do Departamento de Ciências Biológicas da Unesp de Bauru.

Ao contrário da pesquisa realizada com a Vochysia tucanorum ou pau-de-tucano, feita com ratos de laboratório, o trabalho com a folha-branca foi desenvolvido "in vitro" por meio do isolamento de células para saber se o DNA é danificado ou não na presença dos componentes presentes no vegetal.

Bosqueiro também destaca que há outros trabalhos que seguem a mesma linha dos publicados, como os do professor Osmar Cavassan. Um desses estudos é com a Vochysia tucanorum e tem mostrado resultados positivos na melhora do estado caquético de pacientes com câncer, quando o doente perde peso e apresenta quadro de saúde geral negativo.

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Produção de medicamentos esbarra
em obstáculos como falta de apoio


Embora os estudos se intensifiquem e os resultados sejam positivos e animadores, ainda não existem no mercado medicamentos feitos com substâncias extraídas de plantas do cerrado.

"As pesquisas estão a todo vapor e já há pesquisadores buscando produzir medicamentos junto a laboratórios, mas esbarram nos difíceis processos existentes até a produção final dos remédios", conta Anne Lígia Dokkedal Bosqueiro, pesquisadora e professora do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

A pesquisadora relata que optou pela pesquisa básica na Universidade porque a parte prática encontra muitos obstáculos, como a falta de apoio e autorização federal. "Isso desestimula a produção, o que é uma pena porque ter uma planta nossa usada como medicamento acessível à população é um sonho ideal".

Outro desafio a ser vencido quando o assunto é produção de medicamento em larga escala diz respeito ao cultivo das plantas do cerrado, difíceis de serem cultivadas tanto por reprodução vegetativa quanto por semente, por conta de suas especificações.