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Lavrador vai de bicicleta a Brasília

Homem de 62 anos que trabalhou na roça desde os 8 vai percorrer 1.500km para reivindicar direito à aposentadoria

por Tisa Moraes

27/03/2012 - 01h20

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Neide Carlos

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Na companhia da cadela Princesa, Nilson usa a própria bicicleta para dormir nas rodovias

“Não tenho dinheiro, mas me considero um homem muito rico. A estrada é minha, cada viaduto, cada beira de acostamento é meu”, diz o destemido ex-lavrador Nilson Francisco dos Santos, 62 anos. É assim, dono do mundo, mas sem nenhum tostão no bolso, que ele segue em sua bicicleta na companhia da cadela Princesa, com destino a Brasília (DF). 

 

O homem simples - que trabalhou na roça dos 8 aos 59 anos - passou ontem por Bauru e quer chegar à capital federal para reivindicar sua aposentadoria. Ele vem batalhando pelo benefício há três anos, mas, por nunca ter contribuído com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), foi desacreditado até mesmo por advogados. 

 

“Todos dizem que eu não tenho chance. Mas quero mostrar que não sou covarde, quero levar ao conhecimento das pessoas a minha condição. Índio também não paga INSS e tem o direito de se aposentar. Por que eu, que trabalhei na lavoura a vida inteira, não posso?”, questiona.

 

Nilson sabe que pode não encontrar uma resposta em Brasília. Mas afirma que, até completar 65 anos - a idade mínima para receber o benefício - não irá sossegar. Manterá os cabelos e a barba compridos em sinal de protesto e continuará viajando pelo Brasil a bordo de sua “ciclovela”, nome dado à bicicleta de três rodas que ele mesmo construiu para concretizar sua empreitada.

 

Mais do que um meio de transporte, o veículo é também sua morada durante a noite e abrigo para Princesa nas longas jornadas diurnas. Nilson não possui residência fixa, embora tenha partido de Londrina (PR), onde vivem alguns conhecidos, para a viagem que deve totalizar cerca de 1.5

quilômetros.

 

O trajeto, que começou há 25 dias, passará primeiro por São Paulo para, depois, seguir até Brasília. A expectativa é de o ponto de chegada só seja alcançado dentro de mais dois meses. A cada parada, o ex-lavrador conta com a solidariedade de desconhecidos em propriedades rurais, postos de combustíveis e hotéis às margens da estrada. 

 

“Água e prato de comida, quase ninguém nega. E, se não tem chuveiro, a gente toma banho nos riachos que encontra pelo caminho”, afirma o homem, trazendo praticidade a qualquer dificuldade que a maioria das pessoas poderia encarar como obstáculo. 

 

 

 

Trabalho pesado

 

Coisa de quem foi empurrado desde cedo para o trabalho pesado para ajudar no orçamento da família, após a morte precoce do pai. “Nem velho ele era. Fui pra lavoura criança e fiz de tudo, plantei café, rocei pasto, fiz cerca. Trabalhei no Paraná, Mato Grosso e Pará. Só que a vida foi passando, eu envelheci e, hoje, não tenho renda nenhuma. Dependo da ajuda dos outros”, lamenta. 

 

Nilson nunca se casou e nem teve filhos. Os pais e irmãos, segundo ele, já são todos falecidos. “Não tive tempo de construir família. Meu bem mais precioso e minha única família é a Princesa, de quem eu cuido melhor do que a mim mesmo”, comenta. 

 

De fato, a cadela, bem nutrida e com pelagem impecável, parece receber todos os cuidados de seu dono. Cada dia de viagem, inclusive, começa nas primeiras horas da manhã e termina logo que a tarde se inicia para não castigar demasiadamente a cadelinha.

 

Ao 62 anos, o viajante diz que consegue percorrer de 3

a 35 quilômetros por dia, dependendo das condições do dia, da estrada e da quantidade de subidas. “E pensar que eu odiava andar de bicicleta. Mas, graças a Deus, tenho saúde. Mesmo debaixo do sol forte, com todo esse desgaste, nunca fico doente. Então, vou seguindo meu caminho”, observa.

 

Mesmo diante de todos os percalços, Nilson demonstra extrema consciência sobre sua trajetória de vida, que ultrapassa as pedaladas que separam Londrina de Brasília. Exatamente por isso, ele diz que não faz planos de longo prazo: depois de completar sua meta, não sabe qual será seu próximo destino. 

 

“Prefiro viver assim. É uma vida incerta, solitária, mas de liberdade. Você reparou que eu não tenho cara de tristeza? Não tenho bem nenhum, mas não preciso pagar aluguel, água e luz. Não devo nada a ninguém e sou muito feliz por isso”, conclui.

 

 

 

E o vento leva...

 

A bicicleta peculiar de seo Nilson recebeu o nome de ciclovela porque conta com mastro e vela que ajudam a impulsionar o veículo quando o vento sopra a favor.  O mecanismo representa uma grande ajuda para movimentar mais de 5

quilos, somados a estrutura bicicleta, todos os pertences do viajante e a cadela Princesa.

 

O meio de transporte foi construído há três anos a partir de peças de ferro velho e material reciclável e passa por pequenas reformas de tempos em tempos. Na última delas, a cobertura que serve de abrigo para Nilson e a cachorrinha ganhou dizeres de protesto contra a cobrança excessiva de impostos e a corrupção.

 

“Fiz esta bicicleta em três dias e, hoje, é a minha casa. Ela é minha cama, minha cozinha, minha sala. Tudo o que eu tenho - comida, panelas e roupas - está dentro dela”, enumera.

 

 

 

Princesa de carruagem

 

É só seo Nilson começar a pedalar que sua cadelinha posta-se diante da “janela” da cobertura da bicicleta para acompanhar toda a movimentação na estrada. Foi este comportamento que rendeu a ela o nome de Princesa. 

 

“Encontrei ela abandonada na estrada, ainda pequenininha. Quando coloquei dentro da minha ciclovela, ficou toda empolgada. Pensei: “quer dizer que ela gosta de andar de carruagem? Então vai se chamar Princesa”, relembra.

 

Por mais que não tenha uma casa de verdade para morar, Princesa está longe de ser uma cadela maltratada. Ela, inclusive, sabe fazer alguns truques de adestração, como dar a pata e ficar em pé, apenas com o apoio das patas traseiras. 

 

A cada comando de Nilson, ela entra e sai de sua caminha na ciclovela. E, sem receber nenhuma ordem, desocupa o interior do veículo para dar lugar ao dono ao final de cada jornada diária.

 

 

 

Idas e vindas

 

Não é a primeira vez que Nilson viaja longas distâncias de bicicleta. Há cerca de três anos, ele já havia feito o caminho de ida e volta entre Londrina (PR) e São Paulo. No ano passado, morou por oito meses em Brasília, onde trabalhou como catador de recicláveis, mas decidiu retornar à sua cidade de origem. 

 

“Não gostei de lá. É um lugar que não recomendo a ninguém”, comenta. A viagem de volta a Londrina, de bicicleta, demorou cerca de 4

dias. “Já estava protestando naquela época. Na verdade, comecei há três anos, desde que construí a ciclovela. Espero que, um dia, a presidente Dilma me receba. Senão, só paro quando completar 65 anos e me aposentar”, adianta.