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Estresse no trabalho causa até ?colapso? no apetite

por Ana Paula Pessoto

08/07/2012 - 00h01

Desentendimento com a chefia, falta de cooperação entre colegas, sobrecarga de tarefas, prazos, metas a bater, insatisfação salarial, pouca expectativa de ascensão profissional, promessas não cumpridas, falta de interesse pelas atividades...

Se os estímulos estressores presentes no ambiente de trabalho são muitos, suas consequências também são. E a alteração da rotina alimentar é uma das mais comuns e menos reconhecidas pelos profissionais, segundo especialistas.

De acordo Edward Goulart Júnior, que é professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e especialista em psicologia organizacional e do trabalho, hoje, o lado profissional tem lugar de destaque na vida das pessoas e pode se configurar como a principal fonte de estresse, principalmente com os espaços cada vez mais competitivos e com acentuadas mudanças tecnológicas.

“Estar estressado é apresentar um conjunto de sintomas, tanto físicos quanto psicológicos, que atrapalham e minimizam a qualidade de vida do indivíduo. E vale lembrar que o que se caracteriza como estressor para uma pessoa, pode não ser para outra”, acrescenta.

Mas não é somente nas atividades profissionais que estão as fontes estressoras. Segundo o especialista, um acontecimento positivo ou negativo, frustrações, morte de um ente querido, a chegada de um filho ou mesmo questões ambientais como poluição, excesso de ruídos e temperatura podem ser fontes estressoras.

 

Quando afeta o prato

Maria Elisa Gisbert Cury é psicóloga e membro do Programa de Atenção aos Transtornos Alimentares (Proata) da Escola Paulista de Medicina (Unifesp). Ela aponta que a literatura científica mostra que o hábito de comer é um dos fatores que mais sofre alterações em decorrência do estresse.

Segundo a especialista, entre os profissionais mais propensos ao “colapso” de apetite estão os que trabalham no período noturno e os que trabalham sem horários ou rotina regulares. Entretanto, tal alteração varia de acordo com elementos como a personalidade da pessoa, a intensidade do evento estressor, além de fatores culturais.

As consequências do estresse podem ser de ordem física, emocional e comportamental. Segundo Cury, as alterações do apetite, fazem parte das alterações comportamentais, assim como a mudança no padrão de sono. E o problema não está apenas em comer demais, mas também em deixar de comer.

E comer de menos é o caso, por exemplo, da bacharel em direito Ana Carolina Borges. Administrar o trabalho durante todo o dia e os estudos à noite até que é tarefa fácil para a moça. Difícil mesmo é cuidar da alimentação durante essa “correria”.

“Sinto-me estressada e cansada física e mentalmente. Nos dias mais tensos eu como muito rápido ou nem almoço, isso porque eu acabo não sentindo fome mesmo. No trabalho, temos um tempo de descanso, mas os lanches que levo acabam voltando na bolsa”, diz.

Mesmo sabendo que deve olhar melhor para a alimentação, a estudante confessa que emagreceu dois quilos em poucos meses por se preocupar demais com as atividades diárias e muitas vezes esquecer de comer.

Uma sondagem feita com mil profissionais em 2010 pela International Stress Management Association (Isma-Br), associação que estuda o estresse, aponta que 21% deles se alimentavam compulsivamente em momentos de estresse e 11% reduziam a quantidade de comida.

Confirmando os números, Cury explica que é comum o relato de pacientes que passaram a ingerir grandes quantidades de alimentos com a sensação de falta de controle após terem enfrentado situações de estresse. “A compulsão alimentar oferece uma sensação de alívio momentâneo. Em seguida vem a culpa, a autorrecriminação e, obviamente, o conflito no trabalho não é resolvido. A necessidade aqui é emocional e não física”.


Direto na fonte

De acordo com Cury, é preciso encontrar a fonte geradora do conflito para, assim, encontrar formas de tolerar as emoções sem “descontar” na alimentação. Esse é o primeiro passo.

A psicóloga salienta que também há estratégias práticas para aliviar a tensão e o estresse, como exercícios físicos e técnicas de relaxamento.

Entretanto, quando a pessoa não consegue chegar a uma resolução sozinha, o ideal é mesmo procurar um profissional qualificado.

 

 

Segredo é saber administrar

 

“Uma vida sem estresse é humanamente impossível e até indesejável. Isso se aplica também sobre o estresse ocupacional. Conflitos e situações disfuncionais no trabalho são inevitáveis. A questão não é evitar essas condições e sim, saber administrá-las”, afirma o especialista em psicologia organizacional e do trabalho Edward Goulart Junior.

 

Para o psicólogo, as políticas e práticas de gestão, sobretudo de pessoas, podem favorecer um ambiente de trabalho mais produtivo e saudável. Ele aponta que o problema se instala quando os valores econômicos se sobrepõem aos valores humanos.

 

O grande desafio desses espaços é equilibrar os interesses individuas com os interesses organizacionais. De acordo com Edward, os profissionais responsáveis por desenvolver e gerir as políticas e práticas de gestão de pessoas precisam, além de estarem bem preparados e formados, atuarem efetivamente em ações promotoras de saúde, desenvolvimento e respeito humano.

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