Bauru e grande região

Geral

Qualidade do ar já foi bem melhor

Segundo a Cetesb, Bauru já não respira como antigamente; quadro está longe de ser alarmante, mas requer cuidados

por Luiz Beltramin

02/09/2012 - 03h00

Bauru respira, literalmente, outros ares. Em tempos de estiagem, já se passam quase 50 dias sem uma gota de chuva na cidade e região, a poeira acumulada, a poluição de queimadas ou emissão de fumaça veicular e a baixa umidade relativa - que ontem bateu novo recorde em 13% - tornam o ar desagradável, ainda mais para quem sofre de males respiratórios. Quem tem o problema conhece os incômodos do ardor na garganta e olhos ou tosse acentuada. E o problema não está restrito ao tempo seco


Os ares são outros em Bauru. Crescimento da frota, fumaça tóxica originada por queimadas - muitas delas criminosas - dentro e fora da cidade, deixam a atmosfera mais carregada de poluentes. O conhecido “ar puro” do interior, já não é mais o mesmo. “A qualidade do ar é boa em Bauru, mas, em questão de vinte anos para mais, já foi melhor, totalmente livre de poluentes”, avalia o engenheiro Alcides Tadeu Braga, gerente da agência local da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).


Segundo ele, a emissão veicular de dióxido de carbono, aliada aos poluentes das queimadas urbanas e rurais, já influenciam na qualidade do ar em Bauru. “Há uma certa influência, mas nem tanto”, ressalva. A maior preocupação para se manter a boa qualidade do ar na cidade e região, diferencia o gerente da agência da Cetesb na cidade, está no percentual de ozônio no ar que respiramos.


O engenheiro explica: em grande quantidade, o mesmo gás que envolve a atmosfera terrestre, bloqueando os efeitos nocivos dos raios ultravioleta, quando misturado em excesso ao ar que respiramos, pode ser prejudicial e é considerado um poluente. O excesso de ozônio, acrescenta, é considerado como um tipo de poluição de nível secundário, ou seja, originado pelo acúmulo de outros poluentes lançados na atmosfera.


A baixa umidade - que, no último dia de agosto chegou ao índice de 18% e ontem bateu novo recorde em 13%, de acordo com os medidores do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Unesp/Bauru - aliada a esses fatores, acentua as dificuldades respiratórias no período de estiagem.


Semana passada, observa o gerente da Cetesb na cidade, o índice de ozônio no ar em Bauru deixou os indicadores da qualidade do ar na cidade em estado regular.


“No dia 28 (terça-feira passada), por volta das 14h, ficou no regular”, especifica o engenheiro, citando monitoramentos nas estações medidoras de Bauru, situada na região do Jardim Botânico, e Jaú. Segundo ele, o monitoramento é feito em terminais fixados estrategicamente para receber a maior quantidade de ventos. “A preocupação é o ozônio, mas a nossa situação ainda é boa”, reforça.


Em Araçatuba, por exemplo, de acordo com aferição diária publicada no site da Cetesb (www.cetesb.sp.gov.br), a situação na sexta-feira (dia de fechamento desta reportagem) era apontada como “regular”.



Poluição


As emissões veiculares ainda não engrossam, consideravelmente, os fatores que prejudicaram a qualidade do ar na cidade nas últimas duas décadas. Mas já entram na contagem de agentes causadores de poluição, ao lado da fumaça das queimadas. Bauru, diretamente, não possui grande área de cultura sucroalcooleira, ressalva.


Contudo, nos municípios num raio de 100 quilômetros, a presença de canaviais e, consequentemente, queima, é maciça. E os efeitos, salienta, são sentidos justamente nessa zona de alcance. Por outro lado, pondera, as lavouras de cana têm diminuição nas queimadas em grau acelerado. Por exigência da própria Cetesb, a queima da cana somente pode ocorrer à noite. “Em 2014, não poderá haver fogo em plantações mecanizadas,  com a extinção total em 2017.”

 

O que fazer?

Se o ar ainda é bom, apesar de não ser totalmente puro, justamente, pelo estágio de desenvolvimento - e nessa esteira o aumento da frota de veículos - o que fazer para minimizar ou compensar a emissão de poluentes na atmosfera, especificamente na cidade?


Em Bauru, atualmente, de acordo com dados da Circunscrição Regional da Trânsito (Ciretran), a frota beira a casa dos 230 mil veículos para, aproximadamente 198 mil condutores contabilizados. Em recente reportagem publicada pelo Jornal da Cidade, as projeções para a quantidade de veículos e número de habitantes, de acordo com o economista Reinaldo Cafeo, são as mesmas, ou seja, um carro para cada morador. Por dia, atualmente, a aquisição de carros é maior que a taxa de natalidade.

Conforme números oficiais do Detran-SP, Bauru possuía, em julho passado, exatos 229.770 veículos cadastrados. Dez anos atrás, eram 133.238, um crescimento estimado de 41% da frota em dez anos. Em determinados horários, parte da população já reclamada incômodos pelo cheiro de fumaça veicular, principalmente quem precisa ou costuma andar a pé ao lado de avenidas com grande fluxo de veículos em determinados horários, caso da Getúlio Vargas

 

Regeneração vegetal: aposta otimista

Se não há como frear o desenvolvimento e, consequentemente, emissão de poluentes, a saída é apostar na regeneração e preservação da cobertura vegetal. Quando se trata de área urbana com presença de mata nativa, Bauru, que é cercada por Cerrado, inclusive dentro do perímetro urbano, é exemplo de que a presença de vegetação é fator preponderante também para maior umidade do ar. No quesito cobertura vegetal, a cidade encara dois cenários.


Fora das denominadas Áreas de Preservação Ambiental (APAs), apesar de ainda haver degradação, observa o engenheiro florestal Eliel Pacheco Júnior, diretor executivo da ONG ambiental Fórum Pró-Batalha, a perda de mata nativa é menor de alguns anos para cá, em linhas gerais. “Acredito que a perda, de 2007 para cá, não é muito considerável. Em áreas urbanas, como o Vale do Igapó ou Jardim Aviação e Manchester, ainda ocorre degradação”, pondera.


Segundo o engenheiro, que fez um levantamento – por meio de monografia acadêmica em curso de gerenciamento ambiental pela  Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ (Esalq) - da perda e recomposição das áreas de mata tanto nas áreas urbanas quanto nas cercanias protegidas por lei, entre 1996 e 2007, houve recuperação de 28 hectares (ou 28 quilômetros quadrados) de mata nas APAs. “Metade do que foi degradado regrediu. O ideal seria mais”, considera. “Por isso é importante manter”, salienta.


Essa cobertura assegura menores índices de umidade relativa do ar e é providencial em tempos de escassez de chuva, como o atravessado há quase dois meses. Em entrevista concedida nesta semana ao site de jornalismo da UNESP (www.podcastunesp.br), o meteorologista José Carlos Figueiredo, fez um alerta: quanto menos árvores, menos umidade.


“O período seco é normal, mas sofremos tanto nesta época porque o ser humano faz duas coisas gravíssimas. No tempo de chuvas, ele suja, na seca, queima. Nossa vegetação foi agredida. Não temos a umidade que as plantas poderiam passar para nós, porque mudamos o cenário. O normal é não chover mesmo nesta época”, lamentou.


Também meteorologista do IPMet, Rita Cerqueira Lopes reitera que a estiagem, nesta época, é totalmente normal. “Geralmente, as chuvas voltam em setembro, mas de forma tímida, típica de épocas transitórias. Ano passado foram três milímetros”, especifica.  Fora do normal são os efeitos sentidos pela baixa umidade relativa do ar, justamente, pela ausência de vegetação, acentuada no asfalto da cidade. “Se você tem mais vegetação, tem mais umidade”, acentua. Ainda segundo o IPMet, não há previsão de chuva para os próximos dias.

 

‘Fogo urbano’ é crime, diz delegado

A prática de atear fogo nas cidades prevê reclusão de até seis anos, mas as denúnicas deste descaso são muito baixas

Sol causticante, tempo seco, umidade lá embaixo e fumaça invadindo ruas e casas. O cenário infernal de inverno, em muitos casos, é de responsabilidade de quem quer se livrar da sujeira no terreno, mas não se importa em prejudicar a respiração alheia.


O fogo urbano, enfatiza o delegado Dinair José da Silva, titular da Delegacia de Crimes Ambientais, é crime previsto no artigo 250 do Código Penal, com reclusão de até seis anos.


Porém, apesar da fumaça ser vista quase diariamente nos dias de estiagem, poucas queixas são registradas na polícia. “Não recebemos grande volume de registros, exceto casos de grande gravidade”, avalia.


“Por medida de economia, proprietários ou vizinhos de terrenos optam pelo fogo. O resultado é a poluição, bem como o perigo, entre eles o contato com a rede elétrica”, acrescenta o policial.


A escassez de registros contrasta com a alta demanda do trabalho do Corpo de Bombeiros. Diariamente, a corporação atende entre 18 e 30 casos de queimada pela cidade nesta época do ano.


“As pessoas simplesmente resolvem queimar. Em função disso, o efetivo que estaria em horário de instrução ou até de folga acaba comprometido”, atribui o tenente Cláudio Augusto Antunes da Silva, oficial de Relações Públicas dos Bombeiros em Bauru.


“O problema é cultural, falta educação”, lamenta o colega de patente Ernani Francisco dos Santos, da Polícia Militar Ambiental, que também se desdobra no atendimento a denúncias no município.



Mais fumaça


Além dos chamados à Polícia Militar Ambiental ou Corpo de Bombeiros, ainda há mais lenha na fogueira dos males da baixa umidade do ar em Bauru. Diariamente, a prefeitura recebe, por meio das secretarias municipais de Saúde e do Meio Ambiente (Semma), 80 solicitações de intervenções em terrenos baldios, boa parte por queimadas. “São dezenas de casos, muitas vezes, com as mesmas pessoas”, diz o titular da Semma, Valcirlei Gonçalves da Silva.


Sufoco

Quem não tem, justamente pelo clima e partículas no ar, pode passar a ter. É nessa época do ano que diversos males respiratórios causados pela pouca umidade ou poluição costumam aparecer. “Os atendimentos em consultório praticamente dobram”, avalia o médico pneumologista Carlos Eduardo Sacomandi.


Crianças e idosos, geralmente, sofrem mais, observa o especialista. Por outro lado, alerta, com os efeitos da baixa umidade do ar cada vez mais acentuados, a população jovem/adulta também engrossa a fila dos consultórios.


“A baixa umidade é o problema principal, mas Bauru tem uma considerável taxa de fumaça por queimadas e o crescimento da cidade, com a frota de veículos maior, também contribui”, observa o médico, que atende, em média, de 8 a 10 pacientes por dia durante a estiagem.


Pneumonia, asma, irritação nos olhos, rinite e pele seca estão entre as principais queixas. A maior delas, observa Sacomandi, é a tosse acentuada. Segundo ele, a limpeza pulmonar é prejudicada nesta época de seca e sujeira no ar mais pesado.


“Tudo o que se fizer para aumentar a umidade é válido. Se hidratar bem durante todo o dia, sem descuidar da limpeza, lavando as mãos também com álcool em gel, são hábitos que contribuem muito para evitar a proliferação de bactérias que encontram nas mãos um dos principais caminhos”, alerta o médico, aproveitando para reprovar a automedicação.