Bauru e grande região

Geral

Entrevista da Semana: Paula Lamberti e Fernando Mendes

Costa brasileira, Ilhas do Caribe, Miami e travessia oceânica da América para a Europa fizeram o roteiro do casal bauruense

por Ricardo Santana

03/03/2013 - 00h00

Reprodução

Foi a sensação mais palpável de liberdade que eu já tive até hoje ', diz Paula

Paula observa até pegar confiança para falar de si e de como lida com a vida. Fernando é mais atirado. É uma metralhadora. Fala primeiro e depois conserta seu pensamento. Assim foram as 4 horas de entrevista em que o casal de velejadores bauruenses detalharam parte de sua travessia de um ano e meio em um veleiro (Andante) navegando no Atlântico Norte. Eles acabam de desembarcar em Bauru. Fernando Mendes e Paula Lamberti comandam um dos bares mais bem frequentados de Bauru. O famoso Bar do Português, no Higienópolis. Ele adquiriu o estabelecimento em 26 de junho 2003 do seo Alberto, que havia comprado o Bar e Empório Higienópolis do avô de Fernando, no dia 1 de agosto de 1973, há 30 anos. “Está tudo entrelaçado”, pontua Fernando.

O casal levantou velas no dia 1 de agosto de 2011 e retornou a Paraty (RJ) no dia 24 de fevereiro deste ano, exatamente às 15h. Velejando em alto mar a uma velocidade média de 12 km/h (6 nós) o tempo era deles. Modificados pela experiência, eles contam como foi conviver com pessoas de todo o planeta, como o personagem “No Problem”, que garfou 30 dólares do casal como pedágio para liberá-los na República Dominicana.

“É muito bom. É uma vida totalmente diferente. Sem compromisso. Foi a sensação mais palpável de liberdade que eu já tive até hoje”, define Paula.

O leitor pode acompanhar o roteiro de Paula e Fernando no mapa ilustrado com fotos na página ao lado. Os velejadores criaram uma página na internet em forma de diário de bordo, o blog Do Bar ao Mar: http://dobarpromar.blogspot.com.br. Boa viagem!


Jornal da Cidade – A travessia mexeu como com a maneira que vocês encaram a vida?

Fernando – A Paula tinha muita dúvida. Quando você pega uma tempestade à noite você não vê o tamanho do problema. São coisas que você vai se acostumando. Na travessia das Bermudas para os Açores ficamos quatro dias fechados por causa da tempestade e só olhando nos equipamentos eletrônicos. Sai para arrumar uma vela e volta. Na semana retrasada vindo de Ilha Grande para uma ilha chamada Cedro foram 4 horas. E mais 2 horas do Cedro a Paraty. Baixamos um programa de meteorologia com zero de vento e com pouquinho de vento à tarde. E era de sudeste de 5 nós, para o outro dia, e é previsão com 95% de chance de acerto. Pegamos outra direção com 25 nós. De um dia para o outro mudou tudo porque é a natureza. Mesmo você tendo a tecnologia você tem que ter intuição e definir algumas coisas. No quinto dia acordei e a Paula estava com uma cara estranha e disse que tinha ido ao banheiro umas quatro vezes. De Miami para Bermudas uma amiga nossa do Canadá mandou uma mensagem. Me deu o telefone e a mensagem era mais ou menos: “Vocês estão na posição rumo norte. Tormenta se aproximando pela popa. Cuidado e boa sorte!” Passou uma meia hora e a gente estava no motor. Eu abri a vela e desliguei o motor. Mudei o rumo. A Paula disse que era hora de acelerar e eu respondi que olhei para todo lado e nada. Mas o que adianta acelerar nessa velocidade. Você acha que vai fugir de uma tormenta? A velocidade dela é bem outra. Se a velocidade da onda é o dobro da do barco. Não apareceu nada. Mas é boa a previsão. E tudo sempre foi resolvido. Sem querer ser arrogante.

Paula – Lisboa na proa. Rimou! Na entrada de Lisboa o Fernando vestiu a camisa do pai dele numa singela homenagem. Já era o Rio Tejo. A gente estava numa euforia. Porque olhava um para o outro e falava: “Não acredito que nós dois atravessamos um oceano sozinhos”. A gente tinha que se beliscar. Isso é liberdade. Por mais que eu queria que ele acelerasse o negócio a gente está junto. A gente sempre acaba chegando a um consenso. E temos combinado que temos que resolver as coisas e não adianta ficar de bico. E isso desde sempre. Então está com problema, temos que resolver antes de dormir. Tem uma coisa que pesa muito pra mim. Tem casais que têm veleiro e a mulher não confia de ir. Eu confio muito no Fernando. Um dos fatores de eu ter enfrentado a segunda tempestade (Bermudas-Açores) é confiar muito nele. Eu também já tinha passado por uma. Quando a gente passa por um perrengue vem na minha cabeça coisas de mulher: “Poxa vida precisava passar por tudo isso. Não podia tomar um avião. Não precisa passar por isso.” Isso é marear e uma depre. Quando ele fala comigo e eu estou falando em sofrimento é marear. Faço sempre essas perguntas. É uma experiência de vida maravilhosa. Mas não é para qualquer um. Principalmente para mulher, eu acho que é mais difícil. Mulher tem essa coisa de organizar. Você faz uma faxina no barco, troca roupa de cama e organiza tudo. O barco está um brinco. Daí fala assim: “Deu um problema no tanque de diesel”. O tanque de diesel fica embaixo da cama. Você quer se enfiar em um lugar. Eu falo: “Meu, eu quero uma cama que não tenha tanque de diesel debaixo. Quero uma gaveta só de tampa de panelas” (risos). Acho que não é qualquer um que passa por isso e consegue finalizar. A gente está um ano e meio de tênis e chinelo. Essa frase não é minha: “Pior do que a maior tempestade é soltar as amarras”. Deixar a família, o bar, os negócios é muito difícil pra mim. E o mais difícil é ficar longe da família.


JC – Quando surgiu a ideia de cruzar o Atlântico Norte em um veleiro?

Fernando – Em 1993, éramos só conhecidos. E conhecemos o mundo da vela com um primo de uma ex-namorada minha. Ela fazia balé com a Paula. O tio dela tinha um veleiro em Paraty (litoral do Rio de Janeiro) e alugava. Alugar veleiro é fazer charter. Fomos velejar durante três dias. Eu a Paula, a ex-namorada, minha irmã e meu cunhado (Marcão). Lá em Paraty e Ilha Grande. A partir daí o mundo da vela foi sempre um fascínio. Como a gente está distante do mar, começamos no mundo da vela na represa do Rio Tietê, em Pederneiras, no Clube Náutico do Bauru Tênis Clube (BTC). Só em 2006 a gente foi comprar nosso primeiro veleiro. Pequenininho de 19 pés. Um ano depois trouxe um de 25 pés de Paraty. Um ano depois o terceiro barco que foi esse que a gente fez a viagem. Foram três barcos na nossa história. De 1993 até a compra desse terceiro barco, (o Refúgio), a gente fez três charteres. Um de um dia, outro de cinco e outro de dez dias. Sempre tinha que achar mais duas a quatro pessoas para rachar as despesas porque não era barato. Em 2007, para ganhar experiência fiz uma viagem de Santo André, do lado de Porto Seguro (BA), a Búzios (RJ) com um amigo meu. A única experiência em mar e eu não fui capitão eu só fui para ajudar. Ela ficou tomando conta do bar. Era fazer até Paraty mas atrasou e em Búzios eu tive que sair porque já faziam 15 dias e ela estava sozinha no bar. Não estava difícil ficar lá não (risos). Mas já estava de consciência pesada.


JC - Os veleiros têm nome?

Paula – O primeiro é Refúgio. O segundo é o Naiviv que é Vivian ao contrário. Que é o nome da filha do cara que a gente comprou o barco. E o terceiro é o veleiro Andante.


JC – Deixa eu entrar na intimidade do casal porque no meio desse caminho de amigos vocês passaram a marido e mulher e estão casados há 11 anos?

Paula – Namoramos seis anos. Casamos em 2001.


JC – O barco ajudou na relação amorosa?

Fernando – Antes de ser namorados, a gente era amigo. A gente sempre frequentava as mesmas coisas. Ela frequentava minha casa e eu a dela. A história do barco já tinha acontecido. No meio do caminho teve um trailer que a gente sempre gostou. Mas infelizmente usamos um ano e fomos quatro vezes para Brotas. Vai arrastando, demora duas horas para chegar, gasta combustível e não dava tempo para ficar. É aquela ideia de pegar um trailer e sair, mas nunca rolou. O barco você não precisa nem sair do lugar. Já era outra visão. É como se fosse um apartamento. O trailer tinha que fixar.  O barco não. Mas para comprar o primeiro foi um parto porque a força de todo mundo era que “você vai jogar dinheiro fora”. “Não vai conseguir vender.” “Não sabe o que está fazendo.” Pessoas da família e amigos davam força.


JC – Como despertou a ideia da viagem?

Fernando – A gente queria fazer uma viagem. Mas qual? Pela costa do Brasil há várias. A Paula me deu o livro Passageiros do Vento, do Edson de Deus. Um baiano que saiu em 1990, com a esposa e duas filhas, lá de Salvador para fazer a travessia do Atlântico Norte. 


JC – Na relação de vocês quem é levado pela razão e quem se deixa levar pela paixão?

Paula – Ele funciona mais na paixão. Eu seguro mais as coisas. Ele tem um equilíbrio e não é “vai com a paixão custe o que custar”. Mas eu acho que eu funciono mais na razão.

Fernando – Ela vai com a razão porque ela se apega à rotina. Família. É a zona de conforto. A mãe dela está sempre aqui. Pegar o carro, atravessar a Duque (avenida Duque de Caxias). Ver o irmão é uma quadra para direita, uma para a esquerda e já chega. Com minha família também sempre teve muito contato. Até mais do que eu. Quando a gente saiu do primeiro apartamento e veio para esse, ela chorou barbaridade. Não queria sair. Não tinha mais condição porque era só papel do bar no apartamento de 40 e poucos metros quadrados. Junta isso com a razão. E a razão torna-se uma desculpa para ter aquela rotina confortável dela (risos).


JC – O que foi definitivo para a viagem?

Fernando – Em 2010 estávamos imaginando essa viagem do Atlântico Norte. Tinha lido o livro do Edson de Deus. Começamos a se inteirar. Achávamos que tinha mais dois anos para começar formatar. Daí aconteceu aquilo no Japa Lalá (no dia 18 de junho de 2010, o pai de Fernando, José de Nazaré Mendes,72 anos, conhecido como Zé ou Português, foi morto com três tiros). Dois meses depois, a Paula teve que fazer uma cirurgia. Aí a paixão falou alto mesmo e chega de razão. Eu estava sentado aqui nessa mesa, tomando café, em um dia de manhã.

Paula – Eu ainda estava convalescente da cirurgia (feita em agosto de 2010). Tive um tumor na costela. Tinha uma dor no estômago pensando que era gastrite. Descobrimos na segunda-feira e na quarta já me internaram para fazer cirurgia. Foi uma porrada atrás da outra. E 2010 foi muito ruim.


JC – Esse tipo de situação provocou na vida de vocês um antes e um depois?

Fernando – Meu objetivo quando montei a viagem era chegar em Lisboa  pelos familiares do meu pai. Tinha ido em 1995. Meu pai era de lá. Era no meio da Copa (Mundial de Futebol, na África do Sul). Aconteceu aquilo com meu pai e, dois meses depois, com a Paula. A gente tendo que manter bar aberto. A cabeça não consegue acompanhar. Quatro horas da tarde meu bar está aberto todos os dias e sem atraso. Com disposição, sorrindo. Fazendo o papel que a gente tem que fazer. Às vezes, a gente interpreta porque a gente não tem espírito para isso. Na maior parte das vezes, a gente faz naturalmente. Estamos lá com a boa vontade. Com vontade de rir, de vender, de conversar, de fazer o ambiente, manter aquilo ativo, de ter lucro, de ter sucesso. Isso aí é o normal.

Mas tem dia que o Inferno aconteceu por traz e você tem que estar lá. A razão toma conta. Nunca ninguém me viu chorando tirando chope. Mas quem disse que eu já não chorei dentro daquele bar? Nem eu nem ela... Todo mundo já passou por muita coisa. E a gente não pode transportar isso para lá nunca. Então a gente guarda. É o bastidor da história. Nesse momento a gente estava quase no limite da capacidade de manter equilíbrio. Daí eu falei que no final de 2011 a gente sairia. Dia 22 de setembro a gente sai, que é a data do nosso casamento. Daí ela começou a agir com a razão. “Não mas não dá”. “Não, mas como vai ficar. A gente não conversou com ninguém.” Falei que a gente iria conversar. Saímos aqui de casa um de bico com o outro. Ela não aceitou muito porque estava perto. Passou uma semana. O bar lotado, eu tirando chope e o meu cunhado perguntou: “E aquela viagem”. Falei: “Marcão, ano que vem a gente sai.” Ele não falou mais comigo também.


JC – Como ele convenceu você?

Paula – Para mim era muito “vamos”. Eu tenho dificuldade com mudanças e demoro a assimilar. Mas eu também curto essa história. Para mim foi difícil soltar as amarras. Se desprender de todos os compromissos que você tem a vida inteira. Mesmo com o bar e os nossos negócios. E sair. Em primeiro lugar a família. Porque você pensar em ficar longe todo esse tempo. A viagem era um ano. Acabou virando um ano e meio. Veja como vou melhorando (risos).


JC – O planejamento exigiu o quê?

Fernando – Tivemos que antecipar para agosto para poder chegar em Salvador em setembro. Daí tinha uma data importante que era 1 de agosto (aniversário de Bauru). Que a gente saiu lá de Paraty. De setembro até julho, a gente resolveu tudo. Foi procuração para todo lado. Nesse meio fomos preparando à distância o barco. Precisava botar equipamento para geração de energia. Placa solar e eólica. Trocamos as velas. Compramos mais corrente de âncora, mais cabo. Manda fazer torneira. Tirou o barco da água e fez pintura de fundo. Foi um ano preparando.

Paula – Tomamos todas as vacinas porque a gente passa por lugares que têm meningite, febre tifoide.


JC – O trecho na costa brasileira foi em que período?

Fernando – De agosto a novembro foi de Paraty a Natal (RN), incluindo Fernando de Noronha. Em Natal a Polícia Federal deu saída no passaporte. A gente passou uma noite em Luiz Correa por causa do mau tempo. Subimos com três veleiros. Fomos para o Maranhão na Ilha dos Lençóis. Não tem turismo ali e passamos uma semana. O último ponto no Brasil foi no Oiapoque (Amapá).

Paula – O primeiro porto internacional foi nas Iles du Salut, na Guiana Francesa. É a Ilha do Diabo que no livro e no filme é Papillon.


Jornal da Cidade – Em alto mar o que vocês sentiram?

Fernando – Eu passo um pouco mal principalmente quando o mar está muito mexido e principalmente quando você tem que fazer algum reparo no motor e aquele cheiro de diesel. Passar mal é uma rotina. O alto mar é muito bom. Não tenho como comparar a viagem que eu fiz de Porto Seguro a Búzios porque foi uma baita experiência mas não tinha infraestrutura nenhuma. O barco estava todo complicado. O nosso barco foi preparado e tem o conforto da casa. É comparável com uma quitinete. A geladeira funcional 24 horas. Água quente para banho. Não falta energia em nenhum momento. E tinha uma grande autonomia se precisasse do motor. E você amanhecer e anoitecer em alto mar, principalmente velejando, sem barulho nenhum de motor. E você andando com o vento e a corrente (marítima). Uma coisa é você fazer um passeio. Outra coisa é você acordar e dormir.

Paula – Eu tinha medo de tempestade e de tempo ruim. Porque meteorologia é previsão e não é certo. Hoje eu curto. Porque eu passei a lidar melhor com o meu marear (passar mal). Agora eu consigo ler navegando. A gente tem uma prateleira de livros que lemos todos. Você não tem televisão. A gente tem DVD, pode assistir filme, shows. A gente pegou um gosto muito grande por leitura.


JC – Quem estabeleceu as tarefas?

Paula – Navegando a gente não dorme junto. A gente faz turnos de três em três horas.  Não foi nada predeterminado. A gente foi se encaixando no perfil de cada um.

Fernando – Quando a gente saiu não tinha essa rotina. Eu ficava na vigília até eu não aguentar mais. Isso foi um erro. Depois está passando mal ou tá dormindo, eu vou dormir. Você fica ali passando mal acordada. Mudou muito para melhor porque você dorme seis horas numa noite e está muito bom.


JC – O Natal foi emocionante?

Paula – Foi em Grenada. Nosso amigo, o Rogério, teve um problema de saúde. A gente nervoso porque não sabia o que ele tinha. A gente levou ele para o hospital mas ninguém conseguiu saber nada. O atendimento lá era precário. Liberaram ele. No dia seguinte, o médico foi até o barco e fez uma autorização para ele ter prioridade no avião. Ele chegou em Florianópolis direto para a UTI. Ele teve a síndrome de Guillain-Barré. Nunca tinha ouvido falar. Os médicos falaram que se a gente não tivesse corrido com ele tinha morrido. Agora ele já está no Caribe.

Fernando – Do dia 24 para o dia 25 estava ruim. A gente fazendo uma feijoada no barco. Rogério disse que as mãos estavam formigando. No dia 26, ele já não ficava mais em pé e não conseguia pegar um copo. Ficou hospedado em um barco maior, o Amazonas, que também era de um amigo. Mandamos ele de avião para Trinidad. E de Trinidad até São Paulo. Ele precisava de uma cadeira de rodas e autorização médica. Tivemos que achar uma clínica particular. E nisso ele piorando. O filho dele já estava esperando em São Paulo.


JC – O Caribe tem luxo e charme?

Paula – A gente chegou no dia 30. Mustique é uma ilha mega exclusiva. Mick Jagger tem casa lá. Só tem dois hotéis. Um tem nove quartos e outro tem 15 quartos. Você só vai por indicação e custa 2 mil dólares a diária. É o paraíso. O que me encantou nessa ilha é que tem um bar “pé na areia” superfamoso e só tem ele. É o Basil’s Bar Restaurante & Boutique. O dono do bar chama Basílico e é amigão do Mick Jagger. Quando o Mick Jagger está lá, ele frequenta o bar e dá uma canja. Estão por lá também o príncipe William e Kate Middleton. Só que a gente não consegue ir. O aeroporto é para pequenos aviões e só os donos. A gente queria passar o réveillon lá. Eles falaram que era 150 dólares por cabeça com jantar e bebida não estava inclusa. Falamos se tinha opção de não vir para o jantar. Era 14 dólares cada um, ganhava uma pulseira e um kit de bagunça. Banda ao vivo até 5 da manhã. Foi o melhor réveillon. Um show porque a tente conheceu gente do mundo inteiro. Engraçando que quando deu meia noite saiu só eu e o Fernando para pular as sete ondas. Voltamos e uma mulher holandesa, sei lá de onde ela era, veio perguntar se éramos brasileiros. Porque uma vez ela veio ao Brasil e as pessoas pularam as ondas.

Fernado – Eu não falo nem inglês direito. Às 5 da manhã, eu falei italiano, espanhol, alemão, francês e acho que russo também.


JC – E a natureza do Caribe?

Fernando – Fomos para Tobago Cays. A água é um gel. Coisa de maluco só para mergulho. Não tem cidade, não tem vila. O único serviço que tem é um churrasco de lagosta feito na areia. Tem um pessoal com os viveiros de lagosta. Você encomenda de um dia para o outro. A maior e melhor lagosta que eu comi na minha vida. Eu e o Marcão (amigo de outro veleiro) ficamos mergulhando e a Paula no bote.


JC – Vocês também foram a São Vincent?

Fernando – Foi o lugar que a gente mais passou medo. Pegamos uma van na estradinha. Uma estradinha na montanha, tipo Anchieta. E o cara fumado. Ele já tinha ido e estava voltando. O cara acelerou tanto. No começo a gente deu umas risadas. Daí todo mundo ficou tenso. Ele fazia curva que a van saia de lado. E ele fazia ultrapassagem. Foram 20 minutos assim. Quando ele estava chegando na cidade entrou em uma biboca e se batesse. Ele voltava rápido para pegar gente no ponto. Era disputa de lotação. Eu suava. Foi o maior medo que passei na viagem.

Paula – Não curti muito São Vincent. As pessoas não são muito receptivas. Mas isso é muito particular.


JC – O Carnaval no Caribe foi onde?

Paula – Foi na Martinica. O melhor marisco que eu comi com molho roquefort. As ilhas francesas têm a melhor comida. Nas outras é melhor cozinhar no barco. Como são ruins de música. Era um batuque que não tinha sincronia nenhuma. É Carnaval de blocos. Fomos nos mercados que a gente vai em todos. Visitamos Monte Pelée, que é um vulcão ativo. A cidade foi destruída em 5 minutos (erupção em 1902). E um cara que foi preso e, por mau comportamento, foi colocado em uma solitária e sobreviveu porque do lado tinha uma fonte de água e ajudou a resfriar.


JC – Como foi a situação de tempestade na Bahamas?

Paula – Nas Bahamas pegamos nossa primeira tempestade de responsa.

Fernando – A gente estava subindo noroeste (em direção a Miami, nos EUA) e na ilha Eleuthera a tempestade veio de frente.  Era meia noite e até 6 da manhã tentamos progredir mas não teve jeito. Achei uma ilha, Long Island, e ficamos duas noites. Na terceira noite, como não dava para dormir, a gente foi embora. O vento tinha mudado um pouco de direção e permitia uma velejada apertada. Na terceira noite você olha para aquela tempestade rolando e fala vou pegar. Essas são decisões que você chega e não tem certeza de que está fazendo a coisa certa. Mas estava ancorado em um lugar horrível. Com medo do barco entrar nos arrecifes e quebrar e subir. Quando a gente saiu o barco começou levar pancada mas deu para velejar. Depois da tempestade acaba tudo.


JC – Na travessia das Bermudas para os Açores foi a maior travessia?

Fernando – Foi  com 14 dias navegando. Tivemos a tempestade da Bahamas que foi a mais complicada. Essa foi a maior porque durou quatro dias. Veio na polpa e a gente continuou navegando e não precisamos fazer desvio. Tinha que tirar muito pano para andar menos porque senão você estoura tudo. Você vai para o norte para chegar mais ou menos na latitude 40. Passa perto do Titanic (naufrágio). Se você fizer linha reta você desce, pega uma calmaria e tem que usar o motor para voltar.

Paula – A gente via o mau tempo em volta mas não tinha chego na gente. O duro é ficar dentro. De Bermudas aos Açores fizemos uma elipse para acompanhar as correntes. Passamos a 200 milhas do Titanic (naufrágio).


Nome: Fernando Mendes

Idade: 40 anos

Formação: engenheiro agrônomo

Livro: Passageiros do Vento, do Edson de Deus

Viagem: A próxima

Comida: sardinha portuguesa

Time: São Paulo

Nota 10: Minha mãe Maria Cinira

Nota Zero: Falta de educação com o meio ambiente


Nome: Paula Lamberti

Idade: 40 anos

Formação: bailarina

Livro: “A Incrível Viagem de Shackleton”, de Alfred Lansing

Comida: cozinha italiana

Time: Corinthians

Viagem: A nossa

Nota 10: minha mãe Vani

Nota zero: cigarro