Bauru e grande região

Geral

Entrevista da Semana: Paulo Roberto Lopes Ricci

O bauruense forte do Banco do Brasil

por Ana Paula Pessoto

28/07/2013 - 05h00

Ele cresceu em um bairro simples de Bauru (Nova Esperança) quando ainda não havia asfalto e as crianças podiam correr soltas pelas ruas e apanhar frutas nas chácaras e fazendas vizinhas. Hoje, com pouco mais de 40 anos de idade, Paulo Roberto Lopes Ricci vive em Brasília com a esposa e dois filhos, onde ocupa o posto de vice-presidente de varejo, distribuição e operações do Banco do Brasil.


Mas até chegar aqui, a trajetória de Paulo foi longa. Tudo começou com a chance de ser aprendiz no banco, aos 15 anos de idade. De lá para cá, ele assumiu e encarou muitos desafios e responsabilidades. Teve muitas oportunidades, agarrou todas elas e aprendeu muito Brasil afora.  


“Às vezes eu me pergunto: caramba, como foi que isso tudo aconteceu?”, indaga, com humildade. Aliás, humildade é uma das principais impressões que o personagem de hoje transmite na entrevista que segue. Confira.   


 

Jornal da Cidade - Você cresceu no bairro Nova Esperança. Quais são as lembranças daquela época?  

Paulo Roberto Lopes Ricci - Era um bairro ainda em formação, portanto, com muito espaço para as brincadeiras. A gente vivia em chácaras e fazendas ao redor, onde pegávamos laranjas, mangas... (risos). A diversão era muito grande e os amigos estavam sempre presentes. Lembro-me da primeira vez que o asfalto chegou ao bairro. A criançada toda entusiasmada com as máquinas e, depois, eu todo machucado, ralado e arranhado, porque era peralta e caía muito. Como dizia a minha irmã, eu era o moleque mais perebento da face da terra (risos).


JC - O seu irmão, padre Ricci, é uma pessoa muito querida em Bauru. Qual é o espaço que a religião tem em sua vida?

Paulo Ricci - Perto dele, a minha religiosidade é minúscula. Ele é um abençoado. Eu digo que sou a traquinagem da família e ele, a sabedoria. Não tenho a mesma sabedoria e vocação dele, mas os princípios como humildade e simplicidade são parecidos por causa da nossa formação que vem, principalmente, da nossa mãe. Eu seria um cara abençoado se tivesse 5% do dom que o meu irmão tem.


Jornal da Cidade - Você entrou no Banco do Brasil ainda na adolescência. Como surgiu a oportunidade?

Paulo Ricci - Eu estudava na Salvador Filardi, aliás, tenho muito orgulho em dizer que a minha formação básica vem toda de colégio público. Enfim, eu fazia a oitava série quando o Banco do Brasil pediu à escola que escolhesse dois ou três alunos de destaque para participar de um processo de seleção. Eu nem imaginava o que era um banco, mas estava à procura de um trabalho com a ajuda do meu pai quando fui surpreendido com tal oportunidade. Fiquei muito feliz, fiz a prova e fiquei esperando. Ah, eu não me esqueço de um fato que ocorreu no dia da prova.  


JC - O que chamou a sua atenção?

Paulo Ricci - Em frente à agência do Banco do Brasil, muita gente deve se lembrar disso, havia um fliperama. Eu não tinha dinheiro para jogar, mas entrei antes da prova e vi um homem de terno e gravata jogando no meio da garotada. Aquilo chamou a minha atenção. Eu quis ser como ele (risos). E, na hora da prova, aquele senhor passou perto de mim. Perguntei quem era e, para a minha surpresa, ele era o gerente geral da loja.     


JC - A espera pela vaga foi longa?

Paulo Ricci - Cheguei a pensar que não me chamariam, por isso fui procurar outro emprego. Antes de ser padre, meu irmão trabalhava em uma loja de calçados e, vez ou outra, eu fazia uns bicos por lá. Na época, o banco gostava de chamar os menores estagiários, como os aprendizes eram chamados até os 15 anos de idade, para trabalhar até os 17 anos e dez meses. Como eu já estava com 15 anos e quatro ou cinco meses, eu já não esperava ser chamado. Até que, certo dia, tranquilo em casa, recebi uma carta do banco me chamando para trabalhar. Isso em abril de 1984. Peguei o dinheiro dos bicos na loja, fiz os exames necessários e entrei para o Banco do Brasil, meu primeiro e único emprego com carteira assinada.    


JC - E a estrada se abriu...     

Paulo Ricci - Pois é. Na época era possível fazer concursos internos e, aos 16 anos de idade, eu fiz o meu primeiro. Tornei-me escriturário aos 18 anos. O Banco do Brasil é uma escola de vida. Além de ter uma base familiar muito boa, eu também aprendi sobre valores éticos e confiança com os profissionais do banco. Isso marcou a minha vida.   


JC - Ainda em Bauru, quais foram os degraus escalados?

Paulo Ricci - Bom, de escriturário eu passei a caixa. Depois eu tive a oportunidade de trabalhar em Postos de Atendimento Bancário (PAB), primeiro dentro do Sesi, depois no INSS. Em seguida, passei a ser o coordenador de um PAB da Rede Ferroviária Federal. Ainda na Agência Bauru, eu fui gerente de contas e, em 1995, passei a gerente de negócios na Superintendência Regional do Banco do Brasil, recém-criada na cidade, onde fiquei até 1998. Neste ano, conquistei a minha primeira gerência. Tornei-me gerente geral de uma unidade, um sonho que eu tinha. Até achei que minha trajetória pararia por ali.     


JC - Mas não parou.

Paulo Ricci - Não. Depois de um forte processo de reestruturação, em que o banco ficou um tempo sem abrir agências, foi aberta uma em São Paulo e outra em Bauru, na Getúlio Vargas. Foi ali que eu fui gerente por um ano. Eu precisava decidir se ficava em Bauru ou se saía. O crescimento profissional exige que você abra mão de algumas coisas. Foi quando surgiu o convite para eu atuar dentro de uma superintendência em São Paulo. Ela conduzia todos os negócios de uma boa parte do Interior. Fui para a capital do Estado e, como gerente de divisão, eu cuidava dos negócios voltados para o agronegócio e para o governo.     


JC - Foi difícil sair do aconchego do lar para “se lançar” na vida?

Paulo Ricci - Eu brinco que sou um pé rachado, e entrei em crise existencial nos primeiros meses em São Paulo. Eu saía do trabalho, olhava para a cidade e perguntava o que estava fazendo lá. Pensei em abandonar tudo e voltar para Bauru. Isso já estava certo quando houve uma troca do meu superior e foi para lá um profissional que se tornou um amigo muito forte. Ele dizia para eu aproveitar o que São Paulo tem de melhor. Aceitei o desafio, apaixonei-me pela cidade e vivi lá por quatro anos. Acredito que aquele foi o período em que eu mais cresci profissionalmente. Foi também quando eu conheci a minha esposa, Priscilla.     


JC - Um grande amor que surgiu do trabalho?

Paulo Ricci - (Risos) Posso dizer que sim, porque ela também é do banco. Por algum motivo os nossos caminhos se cruzaram. Quando recebi um convite para trabalhar em Brasília, propus casamento a ela e nos casamos em 2004. Temos dois filhos lindos, o Lucas e a Isabela. Com ela eu pude sentir as duas coisas que transformam a sua vida: uma é o casamento e a outra é a paternidade. Minha esposa é uma pessoa formidável que veio de Araçatuba, e começamos a namorar quando eu passei em um processo de seleção para superintendente regional, um degrau maior onde eu poderia correr o mundo.  


JC - De São Paulo para Brasília?

Paulo Ricci - Sim. Em 2003, eu fui convidado para ser gerente executivo do Banco do Brasil em uma diretoria de Brasília. Um senhor passo na minha carreira. Fiquei na Capital do País até o final de 2005. E quando vim para Brasília, eu já tinha um novo sonho. A gente sempre vai tentando batalhar pelas conquistas, e nunca persegui-las. Eu nunca falo que preciso ser isso ou aquilo.  


JC - Esse é o seu segredo?

Paulo Ricci - Eu tenho a percepção de que, quando você trabalha, as coisas acontecem naturalmente. Esse é o meu segredo, sim. O trabalho te credencia. Eu estou vivendo a minha melhor questão profissional e pessoal. O banco tem 115 mil funcionários, um presidente e nove vices. Poxa, dos 115 mil eu sou um dos dez. Então, eu só tenho a agradecer a Deus por tudo. Eu costumo dizer que não existe sorte para algumas coisas. A sorte para mim é o cruzamento da competência com a oportunidade.


JC - Você também viveu em Tocantins, certo?

Paulo Ricci - Fui em 2005, quando meu filho tinha meses de vida, para ser superintendente do Banco do Brasil no Estado, um cargo que me ensinou a lidar com pessoas influentes, no sentido do cargo que ocupam, como governadores, lideranças, empresários e entidades. Também pude aprimorar aquilo que é mais útil ao Banco do Brasil, que é a liderança. Eu procuro liderar pelo exemplo. Foi uma experiência pessoal e profissional violenta. Um momento ímpar. Fui muito bem recebido em Palmas, o melhor lugar que eu já morei na vida, depois de Bauru. O povo é muito acolhedor, alegre e receptivo. Fizemos grandes amizades durante os quase dois anos que moramos lá. E de Tocantins eu fui para Santa Catarina, onde assumi a superintendência do banco e também cresci profissionalmente por causa da incorporação do Banco do Estado de Santa Catarina S.A. (Besc). Ficamos no Sul por um ano e meio.          


JC - Rumo ao próximo desafio?

Paulo Ricci - Sim. No início de 2009, por conta da experiência com o Besc, eu fui convidado a integrar uma diretoria de transição da Nossa Caixa, também adquirida pelo banco. Lá eu fiquei como diretor de rede de abril a novembro de 2009, outro aspecto formidável na minha carreira. Depois da reintegração, eu voltei a ser superintendente do Banco do Brasil, desta vez, em São Paulo. Fiquei um ano lá e, no final de 2010, veio um convite que superou todas as minhas expectativas: ser diretor do banco na área de governo, onde fiquei até agosto de 2012. Assim, recentemente, veio uma nova e grande oportunidade: passei a ser vice-presidente do Banco do Brasil, conduzindo a rede de varejo, distribuição e operações.


JC - O menino aprendiz um dia imaginou chegar à vice-presidência do Banco do Brasil?

Paulo Ricci - Nunca! Às vezes eu me pergunto: caramba, como foi que isso tudo aconteceu? Quando eu tinha 12 anos, um tio meu, que infelizmente já faleceu, tinha um bar no Nova Esperança e, quando eu não estava estudando, eu o ajudava. Acho que foi naquela época que eu despertei para a matemática, raciocínio lógico, números... No boteco a gente convivia com tudo, mas eu tinha a oportunidade de fazer contas e ele me ensinou a jogar damas, o que abriu o meu raciocínio. Enfim, se eu estou nesse cargo hoje, eu devo tudo às pessoas que me ensinaram, puxaram as minhas orelhas e me ajudaram a crescer.

Perfil

Nome: Paulo Roberto Lopes Ricci


Idade: 44 anos


Cidade: Bauru


Esposa: Priscilla Gonçalves Machado Ricci


Filhos: Lucas e Isabela


Hobby: Curtir a família


Livro de cabeceira: Não tenho. O que marca é a vida como ela é. Prefiro aprender com as experiências vividas


Filme preferido: Gosto de filmes de ação e comédia e, ultimamente, animações por causa dos filhos  


Estilo musical predileto: MPB


Time: Noroeste e São Paulo


Para quem dá nota 10: Para a minha família


Para quem dá nota 0: Para a desonestidade


E-mail: [email protected]