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Ernesto Monte: da excelência à inclusão

Escola, que acaba de completar 79 anos, é considerada hoje referência no atendimento a estudantes com deficiência

por Marcele Tonelli

31/08/2013 - 05h00

Fotos/Éder Azevedo

Doado na época em que a escola foi fundada, o piano inglês da Ernesto Monte continua ativo no anfiteatro

As portas de madeira maciça ainda são as mesmas, assim como as estantes da biblioteca, as cadeiras, o piso e o piano do anfiteatro. Apesar disso, durante os 79 anos de existência, poucas foram as coisas que não mudaram na Escola Estadual Ernesto Monte.

Considerada um centro de excelência educacional nas décadas iniciais de sua fundação, a escola passou por transformações que culminaram em certa precarização do ensino. Hoje, mesmo em meio a tantas dificuldades, o “Ernestão”, como é chamado por muitos alunos, está entre as escolas estaduais da cidade consideradas referência na inclusão de alunos com algum tipo de deficiência.

“Pessoas de todas as classes estudavam lá. Havia muito respeito com os professores e a escola era cheia de regras. Não havia tantas grades e os muros eram mais baixos. No momento da aula, o silêncio era absoluto e não se via correria pelos pátios”, lembra o ex-aluno e atual promotor da Infância e Juventude de Bauru, Lucas Pimentel, sobre os “anos dourados” da escola.

A Escola Estadual Ernesto Monte é descrita assim por pessoas que passaram por lá entre as décadas de 1960 e 1970, período que, segundo a diretora Heloise Helena Cerqueira de Souza, integrou um processo gerado pela chamada democratização do ensino.


Transição

O fato resultou no fim das provas de seleção para o ingresso ao então Instituto de Educação Ernesto Monte, o que ajudou a quadruplicar o número de alunos em salas de aula.

As aulas separadas por sexo, os uniformes impecáveis, o culto à bandeira e ao Hino Nacional todos os dias. Tudo isso foi se perdendo em meio ao tempo e às transformações curriculares. 

“No início a escola era um centro de excelência, mas com acesso elitizado. A abertura representou uma mudança radical e proporcionou acesso aos menos favorecidos, mas os investimentos para qualidade não aconteceram na mesma velocidade”, aponta Heloise.

De fato, em um rápido passeio pela Ernesto Monte, a afirmação acima é fácil de ser notada em meio aos jovens que perambulavam para fora da sala e desobedeciam as ordens de entrada da diretora durante a entrevista.

“Temos consciência que a escola não tem mais aquela qualidade de antes. Por alguns anos, tivemos problemas com preconceito. Depois, tudo foi se acertando e hoje estamos nos tornando um modelo de inclusão”, completa a diretora da unidade, que adiou a aposentadoria em quase 15 anos para ver de perto a Escola Estadual Ernesto Monte se transformar.

No ano que vem, Heloise completará 25 anos no cargo. É a sexta gestão e a que mais durou em 79 anos.

“Sinto-me contemplada. Temos alunos de todas as classes sociais e deficientes em um mesmo ambiente em que são compartilhadas, de igual para igual, as mesmas experiências. Agora, sinto que posso me aposentar tranquila”, suspira a diretora.

 

Ernesto Monte formou alunos que se transformaram

em profissionais altamente qualificados

Destaques

Fundado em agosto de 1935, o Ginásio de Bauru teve as primeiras aulas ministradas em uma sala emprestada na praça Rui Barbosa, anos mais tarde no prédio da praça Dom Pedro II e, por fim, no imóvel construído com terreno doado em frente ao Palácio das Cerejeiras.

Ao longo das décadas, acabou se transformando em escola dos ensinos fundamental e médio.

Em seus 79 anos de história, a escola se orgulha de ter em seu currículo a formação de alunos que, mais tarde, se transformariam em profissionais altamente qualificados como o engenheiro aeronáutico, ex-presidente da Petrobras, ex-ministro da Infra-Estrutura e um dos criadores da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), Ozires Silva.

Pelas salas de aula do Ernesto Monte também passaram figuras que se destacariam na vida da cidade e do País, como os ex-prefeitos Tuga Angerami, Tidei de Lima, o arquiteto e urbanista Jurandyr Bueno Filho, o ex-técnico da Seleção Brasileira de basquete feminino Antônio Carlos Barbosa, além de muitos engenheiros, médicos, procuradores da Justiça, desembargadores, juízes de direito, entre outras profissões de prestígio na sociedade.

Jantar

O aniversário de 79 anos da Escola Estadual Ernesto Monte foi comemorado ontem à noite durante um jantar tradicional que reuniu ex-alunos, funcionários, professores, diretores e autoridades no anfiteatro da escola.


Quem foi?

Filho de portugueses, Ernesto Monte nasceu em Jundiaí em 1899. Começou a trabalhar com 12 anos nos escritórios da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Em 1916 mudou-se para Bauru, quando foi incorporado à antiga Noroeste do Brasil (NOB). Foi vendedor, empresário, prefeito de Bauru e deputado estadual.

Em sua gestão como prefeito, inaugurou a primeira Estação de Tratamento de Água (ETA), existente ao final da avenida Comendador José da Silva Martha, e o Ginásio do Estado, em frente à prefeitura, hoje escola estadual Ernesto Monte.

Casou-se com Flordaliza Meira Monte, que também trabalhava no escritório da NOB, e teve sete filhos.

É descrito pelo historiador e jornalista Luciano Dias Pires como um homem carismático e adorado pela população da época. “Foi um grande prefeito de Bauru na época da ditadura. Quando ele deixou a prefeitura, ganhou uma casa do povo como presente”, lembra.