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Entrevista da semana: Arnaldo Vicente

Especialista em terapia cognitiva, o psicólogo Arnaldo Vicente expõe sua visão em frente ao espelho e a conexão com o interior da alma

por Nélson Gonçalves

29/12/2013 - 05h00

Bauruense, ele exercita todos os dias, como profissão ou cidadão do mundo, o raciocínio sobre o paradigma cognitivo (de Aaron Beck) e faz deste universo da compreensão do pensamento uma forma de lidar com os ingredientes da emoção e do comportamento. Afinal, das situações da existência, reagimos de modos diferentes, e esse nexo causal entre pensamento e emoção é que implica em nossas reações, das mais sublimes às mais primitivas. Para o psicólogo Arnaldo Vicente, especialista em terapia cognitiva, esse sistema determinante do pensamento é o fator que pode mover montanhas nas relações humanas... ou provocar erupções internas que beiram a loucura!


E a psicologia, que entrou em sua trajetória profissional por acaso,  acabou se transformando no elo possível para ajudar as pessoas a compreenderem como se processam os pensamentos automáticos negativos (PAN) e, o melhor, de que forma podemos intervir, na essência, para o bem: o pessoal e do próximo.


Presidente da Associação Brasileira de Terapia Cognitiva com mandato cumprido neste ano e sob o comando da Oficina de Pensamento - projeto que busca consolidação como Organização Social (Oscip) nos próximos dois anos, Arnaldo Vicente nos conta como lida com suas próprias frustrações, qual sua relação com a refração e/ou reflexo do próprio espelho, seu interior e, sobretudo, como a vida, a percepção e “leitura” do pensamento e a busca do outro, ao invés do próprio umbigo, podem contribuir para dias melhores. Leia na entrevista a seguir:



Jornal da Cidade - Que referência você tem da sua infância em Bauru, seja do ponto de vista pessoal, de memória emocional ou como elo para sua formação na vida adulta?


Arnaldo Vicente - A referência mais marcante são os almoços em família, sempre com muita gente. Isso reforçou para mim os laços afetivos, as relações em família, a compreensão do outro, das diferenças entre as pessoas. Isso também promove ao patamar de que a gente sente que nunca está sozinho, você olha do lado e sempre conta com alguém e nesse processo sente que sempre pode contar com alguém. E isso vira uma rede afetiva que ajuda a gente a enfrentar as dificuldades ao longo da vida.


JC - E, agora como psicólogo, essas conexões da infância atuam sobre fatores emocionais na vida?


Arnaldo - Sim, porque dentro dessa realidade eu convivi com pessoas com tipos psicológicos dos mais diferentes possíveis e isso foi fazendo com que eu desenvolvesse naturalmente a flexibilidade e a prestar atenção no jeito de ser, na maneira de reagir de cada um, no que cada um passou a esperar de mim e também a disponibilidade de cada um em relação a mim e em relação aos outros irmãos e parentes. Essa integração toda é um movimento interno que me ajudou bastante.


JC - Qual o caminho até a escolha por psicologia, e por que psicologia?


Arnaldo - A psicologia entrou em minha vida por acaso. Eu passei minha infância até os cinco anos em São Paulo. E lá eu fiz teatro escolar, o que me desenvolveu gosto por escrever, dirigir e atuar em teatro. Na época cheguei a fazer um curso de cinema, mas meus pais já estavam em Bauru e eu os acompanhei aqui. Na Fundação Educacional eu fiz curso ligado a redação e lá verifiquei que não era jornalismo minha área. Ai fui para o teatro amador e tive contato com o Paulo Neves, com o pessoal do Ricardo Landi. Tive participações com ele em algumas ações e aí comecei a me interessar pelo teatro infantil. Em determinado momento tinha uma vaga em arte dramática e dai consegui fazer um trabalho para pacientes e o grupo que teve contato com isso me referendou ao Tio Gastão (José Alberto de Souza Freitas). Em 1994 eu fui ao Centrinho, fiz o concurso e fui admitido na cadeira de orientação dramática para pacientes na área hospitalar. E lá encontrei pessoas bastante sensíveis em razão da relação dos pais buscando tratamento para os filhos com lábioleporino, as questões relacionadas à estética, autoestima. Enfim, comecei a desenvolver uma forma de trabalhar para tentar eliminar desinibição através do teatro e fiz uma orientação vocacional e deu humanas. Nisso uma colega me sugeriu fazer psicologia na USC e eu, ainda em dúvida, fui lá ver como era. Passei mal, mas o número de vagas era grande e foram abertas mais 100 vagas. Vendi meu carro, peguei dinheiro de poupança e fui estudar. Minha família me apoiou e fiz graduação em psicologia.


JC - Da procura pela carreira você mergulhou na psicologia e hoje é especialista em terapia cognitiva?


Arnaldo - Já me efetivei como psicólogo hospitalar, fui convidado para dar aulas na USC e, depois, convidado a abrir clínica com a supervisora de psicologia da USC. E tudo se encaixou. Mas com os anos isso foi ficando pesado, porque tinha de trabalhar das 8h da manhã até às 22 horas e eu tive de escolher. Foi natural eu me concentrar no consultório. Fiquei oito anos como psicólogo hospitalar no Centrinho e também atuava como psicólogo clínico no consultório. A partir dai eu comecei a participar mais de cursos e congressos e no momento certo me apareceu a terapia cognitiva com o pessoal do Instituto, o ITC de São Paulo, e passei a fazer cursos de formação e de especialização. E já no primeiro curso eu fui convidado a atuar como professor. De lá eu fui referendado para assumir a presidência da Associação da Terapia Cognitiva no Brasil, função que exerci até o início deste ano. O leque estava formado e daí eu tive a ideia de montar a Oficina do Pensamento, que é candidata a Oscip. Esse é o projeto para 2014-2015, consolidar isso, a partir dos ciclos de palestras já realizados.


JC - O que é cuidar da “cabeça” das pessoas?


Arnaldo - Em primeiro lugar é ter respeito. É ter clareza do individual de cada um, ter clareza de que o outro tem muitas qualidades e muito valor, nem sempre percebidos por quem está vivendo. E entender que se você se especializar, se dedicar, através dos conhecimentos e da prática no tempo você vai conseguir auxiliar essa pessoa a desenvolver essas potencialidades que muitas vezes ainda estão inconscientes, ou estão bloqueadas ou travadas pelo modo como você está conduzindo sua vida hoje. Quem vai cuidar da “cabeça” das pessoas precisa valorizar que cada um contém qualidades e de que isso jamais pode ser uma dúvida profissional. O trabalho é exatamente acender essas luzes e atuar para identificar porque elas apagaram.


JC - A terapia em si, como cuidado de vida, deveria ser visita periódica a um profissional como a checagem rotineira com um médico, ou isso é utópico?


Arnaldo - Acho um tanto utópico, porque na verdade a gente encontra muitas pessoas com simplicidade, sabedoria, objetividade e clareza nos desejos e metas que nessas pessoas a harmonia psicológica, emocional, orgânica e social já se faz presente e elas não precisam de terapia para autoconhecimento. E essas pessoas existem. Não há necessidade nesses casos de prevenção porque as pessoas harmônicas em si dão conta dos principais obstáculos a que a vida lhes submete. São pessoas bem integradas na sociedade e na família e encontram caminhos por si ou por seus elos. Agora o que eu entendo é que é preciso propagar em escala conceitos da psicologia para que a população em geral tenha acesso a formas mais práticas de executar conceitos e técnicas, de tal forma que esse contingente possa se beneficiar e beneficiar os que estão à volta delas. Isso é possível em um plano de intervenção conseguir sem que a pessoa venha a ter terapia. A não ser que essa pessoa venha a ter um problema mais comprometedor.  


JC - Como você lida com as frustrações?


Arnaldo - A primeira coisa que faço é me perguntar se aquilo que está me esperando era razoável, se eu estava preparado para alcançar o que desejei. Depois me pergunto se eu fiz minha parte e verifico se não deu certo porque o externo não permitiu. O externo são pessoas, empresas. Vejo se há como eu ingressar nesse universo externo e dar algum auxílio, se eu sou merecedor da colaboração para aquilo que eu quero alcançar. Vejo saída para todas as dificuldades. Mas se houver alguma dificuldade que parece não ter saída eu penso que isso faz parte da limitação natural humana e é preciso então se direcionar e rever as estratégias, realinhar os desejos, para seguir em frente. Não está escrito, e nem deve estar, que a gente deve sofrer.


JC - Como você se olha em relação ao futuro e o que você quer encontrar ao olhar para o espelho lá na frente?


Arnaldo - Pretendo estar olhando para mim, para meu espelho, me observando como alguém que conseguiu autovalorizar e como alguém que está valorizando e colaborando para o ambiente das outras pessoas e do lugar onde eu vivo. É isso que eu quero encontrar em mim quando olhar para mim no tempo. Se isso ocorrer, está de bom tamanho.