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Menino Pedro, do cordel e do baião

Estimulado pelos pais a ler livros, garoto de oito anos devorou Chico Bento, adora versos do cordel e se diz um grande fã de Luiz Gonzaga

por Nélson Gonçalves

23/03/2014 - 05h00

Seus roteiros contêm emboscadas, retratam com fidelidade os perrengues do sertão entre a volante (polícia do tempo do cangaço) e o grupo de Virgulino Lampião, tudo regado a espontaneidade, mas sem descuido da ambientação e do figurino. O toque pessoal na trama começa com o fim determinando o começo, onde a morte do cangaceiro-protagonista é lançada, logo na primeira cena, para sustentar a dinâmica de interrogação ao longo de toda a enquete. Quem quiser saber o desfecho da cilada inicial tem de acompanhar o confronto até a última cena.

A descrição acima é de um roteiro de enquete teatral de autoria de Pedro Motta Popoff, um menino de oito anos, filho de pais comerciantes. Para contar sua historinha, o garoto simulou as cenas, cantarolou a sonoplastia e consumiu vários minutos para que seus desenhos, em sequência, fossem compreendidos do jeito que ele pensou a encenação.

O computador existe na vida de Pedro, mas para baixar músicas do baião ou para pesquisar sobre personagens do cangaço, Anastácia, Luiz Gonzaga, Tião Carrero... A ‘arma virtual’ que hipnotiza a molecada, para o pequeno Pedro, é apenas ferramenta. O que realmente rouba sua atenção é o mundo do cangaço, a literatura de cordel e uma variedade de canções de bom gosto que causa surpresa até no mais experiente apreciador de gêneros nacionais.

Os pais, Marcelo Motta e Carla Popoff, apresentam referências da mediação que foi feita com o filho desde seu nascimento. “O pai tem parente com fazenda, então isso pode ter despertado o amor que ele tem por animais. Ele ama bichos e, em especial, cavalos”, conta a mãe. Marcelo menciona que Pedro sempre foi convidado a ler, desde menino e, ainda durante a gestação, “convidado” a ouvir música fora do circuito comercial, sobretudo MPB, um prato sonoro recheado de autores na casa da família. “Ele lia revistinhas do Chico Bento e a partir de um DVD  se apaixonou pelo Chico. Ele troca muito presente de brinquedo por livro”, cita. 

Pergunte a Pedro o que ele acha do sertanejo universitário e saberá se a “receita” de apresentação de estímulos, pelos pais, ajudou: “Sertanejo universitário não é música!”.

No ano passado, Pedro pediu de presente uma vitrola. “Fomos à feira do rolo e compramos um aparelho que toca vinil. Ele não desgruda do aparelho”, contam. O garoto ganhou um Xbox, mas o game perde feio para os livrinhos de cordel e os discos na disputa pelo seu tempo para brincar.

O detalhe nos estímulos culturais apresentados pelos pais ao garoto: “Colocávamos MPB para ele ouvir ainda na minha barriga e vamos lhe oferecendo livros e autores tanto de música como de literatura. Mas ele escolhe. É uma apresentação democrática”, esclarece a mãe.

Pedro fica pela manhã com os pais, em uma loja na região central, quase na esquina entre a avenida Duque de Caxias e a rua 13 de Maio. Após o almoço, vai para a escola. Quem circula pela rua 13 já não mais se surpreende com um garoto, por vezes, pendurado em galho de uma das árvores na frente do terreno da loja dos pais. De chapéu do cangaço na cabeça (Pedro tem uns 20 tipos de chapéu e quer ir a todo lugar com a indumentária), o menino recita trechos de cordel e canta baião e xaxado. O xaxado foi difundido pelo grupo de Lampião como uma dança de guerra e entretenimento.

“Os cangaceiros eram corajosos e Lampião formou o bando para matar o coronel e enfrentar a volante, que era a polícia lá do sertão. A mulher mais valente do cangaço foi Dadá, mulher do Curisco, vingador de Lampião. Ela era corajosa também. Já a Maria era a mais Bonita, por isso casou com Lampião. O tenente Bezerra, da volante, é quem matou Lampião, mas foi em uma emboscada na fazenda Angicos em Sergipe. Ele foi pego pelos macacos. Macaco e volante é a mesma coisa viu!”, descreve Pedro Motta Popoff ao ser perguntado sobre o que é o cangaço.

A resposta é absolutamente espontânea, sem consultar livro algum. Em sua coleção pessoal, o garoto tem “Lampião, o rei dos cangaceiros”, de Billy Jaymes Chandler, entre outros.

Talvez do gosto do pai, o menino também adora música raiz, em específico os ponteados na viola de Tião Carrero, e também Raul Seixas. “Eu assisti ao filme ‘De Pai para filho’, que fala da história do rei do baião, o Luiz Gonzaga. Mas o Gonzaguinha no filme parece mais com o Raul do que com o filho do rei do baião”, opina o menino.

Quando bati palmas na chegada à sua casa, do portão era possível ouvir o pequeno cantando baião rasgado enquanto tomava banho.

“É todo dia assim. Tomar banho é uma cantoria. E ele vai cantando e algumas vezes parte para inventar letras ou canções. Um dia percebi que ele cantava algo triste e me aproximei sem ele perceber. Anotei o que ele cantava e era uma música que falava da tristeza pelo fim da infância. Anotei o que entendi à mão. Mas interrompi porque ele passou a chorar muito e não me aguentei e o abracei embaixo do chuveiro”, lembra Carla Motta.

Brincar de baião

Pedro não desgruda de uma costureira (ele mesmo explica que é o nome que o cangaceiro dava à metralhadora) feita em papel machê e, ao criar seus roteiros do mundo de Lampião, nunca deixa de usar botina, camisa xadrez, o porta cartucho de couro feito pela mãe enfeitando o peito e, claro, o chapéu do sertão.

Foi um pouco mais de uma hora, ao lado da vitrola, para conhecer apenas as 10 canções que Pedro Motta Popoff mais gosta. A lista ia crescendo, com apontamentos de autores também de fora do mundo do baião. E ele, com um dó danado, tentou insistir em não ter de cortar nenhuma das “melhores” de sua coleção (veja a lista acima).

Ele não só conhece as letras, como tenta interpretar o estilo típico do sertanejo cantar. Pedro também arrisca passos do xaxado. Ao final de cada canção lança comentários sobre o que ouviu.

No início, a mãe teve preocupação com sua convivência na escola. “Fiquei preocupada com algum tipo de discriminação, porque ele quer ir de chapéu na aula e não gosta de brincar de jogo eletrônico com os meninos. Mas ele é bem resolvido com isso. Nós sempre dissemos a ele que contasse aos amigos que é isso que ele gosta, de chapéu e botina. Ele fala para os meninos que eles precisam conhecer a cultura do nosso País”, sorri a mãe.

Na TV e no computador, Pedro usa seu tempo para assistir a documentários. “Ele ama a Inesita Barroso e insistiu tanto que eu tive de levá-lo para assistir à gravação do Viola Minha Viola na TV Cultura em São Paulo”, acrescenta a mãe. Uma particularidade: Pedro não odeia, mas não liga para o mestre dos causos Rolando Boldrin. “Eu gosto de ponteio de viola do Tião Carrero”, finaliza.