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Entrevista da semana: Pedro Motta Popoff

Com apenas 9 anos, Pedro é um menino apaixonado por baião, cangaço, cordel, Luiz Gonzaga...

por Aline Mendes

14/06/2015 - 07h00

João Rosan

Com apenas 9 anos, Pedro Popoff se destaca pela paixão à cultura de raíz e já põe o pé na vida de cantor e ator.

Não teria muita graça perguntar a Pedro Motta Popoff, de 9 anos, o que ele quer ser quando crescer. Às vezes diz aos pais, Carla e Marcelo, que vai fazer biologia. Pode ser que, lá na frente, escolha essa carreira, ou talvez outra. Mas é difícil não pensar que ele deveria ser artista - e que seria uma pena se não fosse. Alguns podem achar que as referências ao Nordeste são por conta da época junina. Mas não é. Ele é um apaixonado pela cultura nordestina.

Aos 3 anos já era fascinado por sertanejo de raiz. “Em qualquer época do ano era chapéu, bigode pintado e corda na mão dizendo que era cowboy... E ele só cantava modão, principalmente Tião Carrero e Pardinho”, relembra Carla, que faz mais a linha rock’n roll.

Depois de uma viagem a Salvador, meses antes de Pedro completar 4 anos, começou a cantar Luiz Gonzaga, se interessou por baião e não parou mais. “Chama a atenção porque ele é do Interior de São Paulo e neto de russos! Para falar a verdade, tinha um pouco de preconceito com esse tipo de música. Hoje a gente adora, ouve direto; no som do carro só rola baião!”, confessa a mãe.

Diante da paixão de Pedro pela cultura nordestina, os amigos da família começaram a presenteá-lo com chapéus, camisetas, coletes, bonecos, cordel, embornal... “É sempre presente, não é a gente que compra. Não se força uma criança a gostar disso, é fora do que a mídia coloca, é raro e escasso no Interior de São Paulo”, ressalta a mãe. “A gente tem obrigação de prestar a atenção nisso e apoiar, porque é algo muito natural e verdadeiro nele... O que a gente faz é viabilizar a informação cultural, dentro das nossas possibilidades, esse é nosso apoio”, completa.

Carla diz que, em um Natal, ele ganhou um videogame e uma vitrola. Os jogos ficaram lá parados por um ano, já a vitrola...

Apesar desse lado artístico, Pedro não deixa de ser criança, lotar cadernos com desenhos, brincar e criar histórias com seus bonecos. A diferença está apenas na temática. “O quarto dele é todo trabalhado no cangaço. O Pedro pega os brinquedos, os cangaceiros, brinca e canta em cordel, tudo com rima. E lá fica horas. A gente não sabe de onde veio isso”, garante a mães, comentando que as outras crianças que frequentam casa entram na brincadeira, de forma lúdica e divertida.

“Ele vai na escola de embornal (bolsa típica nordestina), e não se preocupa, é superquerido e comunicativo”, avalia. E o que Pedro pensa sobre seu gosto inusitado? “As pessoas acham estranho. Eu não acho estranho. Meus amigos não gostam tanto, mas gostam por minha causa”, conta com tranquilidade.

Nesse período do ano, os convites para cantar baião e xaxado em festas juninas de escolas e entidades aumentam. Nos fim das apresentações, Pedro faz questão de pedir - com toda a naturalidade do mundo - que as pessoas o ajudem a não deixar de lado essa parte tão importante da cultura brasileira. “Gostaria muito que as pessoas conhecessem esse ritmo nordestino. E acho que eu ajudo a divulgar o baião”, diz, com humildade e sem qualquer deslumbre.

Nesta Entrevista da Semana, saiba mais sobre o Menino Pedro do Cordel e do Baião, nome dado pelo jornalista Nelson Gonçalves do Jornal da Cidade, em uma reportagem há um ano, e adotado pelo jovem cantor e dançarino nas suas apresentações.


Jornal da Cidade - Como é sua relação com a música?

Pedro Motta Popoff: Gosto bastante de ouvir música, todo dia, e de cantar. Gosto muito de vinil, preciso comprar mais.

JC - Que estilo?

Pedro: Baião e xaxado, gosto das letras e do ritmo. Gosto de rock também, de Raul Seixas.

JC - E os instrumentos?

Pedro: Estou aprendendo triângulo e acordeom... Triângulo, é fácil, tem que saber mexer o dedo na batida. Asa Branca comecei a tirar de ouvido. Agora quero tocar zabumba também. Tenho viola e pandeiro, mas só brinco. Não sei tocar viola, mas gosto porque é usada para fazer repente.

JC - Você compõe?

Pedro: No improviso, crio as músicas. Depois, não lembro, aí invento outras.

JC - De onde surgiu o gosto por cultura nordestina?

Pedro: Não sei como começou, é uma coisa que vem de dentro, do coração. Sempre gostei do Luiz Gonzaga. Gosto da cultura nordestina, da música, da história...

JC - O que mais chama sua atenção nessa cultura?

Pedro: A cultura nordestina tem conteúdo e histórias interessantes, como a dos cangaceiros. Não existe mais cangaceiro, o último morreu no ano passado. Não sei se as pessoas lá valorizam essa história; aqui, muitas têm preconceito.

JC - E todos deveriam conhecer essa cultura?

Pedro: Quero que conheçam a cultura do Nordeste Acho importante que as pessoas conheçam todas as culturas, senão, daqui a pouco, não vai ter mais a cultura no Brasil. As pessoas não parecem preocupadas com a cultura, escutam funk! Sinceramente, não gosto das letras nem do ritmo.

JC - Qual sua dica para quem quer conhecer esse lado da cultura nordestina?

Pedro: Minha dica é começar pelo cordel, depois passar para o repente e ficar ali pelo baião. Cordel é um tipo de poesia em folhetos, pendurados em cordões com prendedores. Ah... e tem gravuras.

JC - Por que você se interessa tanto por cangaceiros?

Pedro: Gosto de saber a história da vida deles. Um cangaceiro não tinha moradia fixa, quase nunca andava a cavalo, saqueava as cidades, atacava os policiais, que eram os volantes naquela época... Sabia que os civis apanhavam mais da polícia que dos cangaceiros? Não sei bem, acho que eles ficavam com muita coisa, mas davam para os pobres também. O cangaço era um movimento. Alguns entraram como um meio de vida, por profissão; outros por vingança.

JC - E o que acha de Lampião e Maria Bonita?

Pedro: Acho muito legal a história deles. Você sabe por que ele entrou para o cangaço? Porque mataram o pai dele. Tinha um motivo. A Maria Bonita, não era tão bonita... A mais bonita era a Lídia!”.

JC - E sua coleção de livros sobre cangaço?

Pedro: Minha mãe lê pra mim. Acho um pouco difícil, é pra adulto, né? Um amigo me deu um livro que parece gibi, chama ‘Lampião... Era o cavalo do tempo atrás da besta da vida’. Aí eu leio.

JC - Você já escreveu histórias de cangaceiros?

Pedro: Sim, duas. ‘O massacre de Angicos’ e uma que ainda estou fazendo, que chama Lampião. É mais com desenhos. Gosto de desenhar, mas não muito de pintar.

JC - Já pensou em publicar para outras crianças?

Pedro: Quero que outras pessoas leiam. Não tem como escrever pra criança, porque a história é muito pesada, tem cabeça cortada, essas coisas...

JC - Mas você é criança!

Pedro: Sim, mas já estou acostumado, porque desde pequeno gosto dessas histórias. Não fico com medo.

JC - Como vai na escola?

Pedro: Estou no 4.º ano, vou bem, só tirei nota vermelha uma vez. Gosto de todas as matérias, um pouco mais de ciências...

JC - E nas horas vagas?

Pedro: Brincar! Fiz um forte com bonecos, cangaceiros, soldados e cowboys, coisas do presépio e animais. Não tem muro, parece mais uma fazenda.

JC - Curte videogame?

Pedro: Nem todos os vídeogames eu gosto. Este ano estou jogando melhor. Já decorei os botões, ajuda na coordenação motora.

JC - Que tipo de filme costuma ver?

Pedro: Gosto de ver filme de cangaço Faustão, o Cangaceiro do Rei (1971), Lampião, o Rei do Cangaço (1964) e Corisco, o diabo loiro (1969), eu adoro esse filme. Assisti o Auto da Compadecida, que é uma versão atual, e a antiga, que chama A Compadecida.

JC - E o filme sobre Luiz Gonzaga?

Pedro: Claro, ele é meu ídolo! O Chambinho do Acordeom, que faz o Luiz Gonzaga adulto, é meu amigo, já cantei com ele em São Paulo, para 3 mil pessoas. Ele foi o que mais apareceu no filme.

JC - Você faz muitas apresentações?

Pedro: Ah, teve várias do Circuito Sertanejo. Canto baião com o sanfoneiro Mirró. Senti um pouco de pressão na primeira apresentação, porque é tudo sem ensaio, de improviso. Cantei com outras pessoas também e fui chamado para ir em escolas.

JC - Como é depois?

Pedro: As pessoas vêm conversar comigo. Eu fico com um pouco de vergonha quando elogiam, mas fico grato.

JC - Fica tímido?

Pedro: Eu me acho mais ou menos tímido. Na hora da apresentação, esqueço a timidez e me solto. Às vezes canto duas, seis ou dez músicas, como Asa Branca, Baião nº 1, Pé de Serra.

JC - Você se considera um artista?

Pedro: Mais ou menos, porque tenho que aprender muito ainda... Ninguém nasce sabendo e estou aprendendo.

JC - Como é sua rotina?

Pedro: Tenho a escola, faço aula de canto e de teatro... Ah, e de inglês! Às vezes têm as apresentações... Brinco muito com meus bonecos, subo em árvore, jogo videogame... E brinco com meus primos e meus amigos....

JC - Como consegue dar conta de tantas coisas?

Pedro: Eu falo assim: “Pedro, não explode!”. Só tenho quarta e segunda pra descansar, mas eu gosto de fazer essas coisas. No domingo, eu ensaio a peça de teatro “O sonho de Caetaninho”, que fala sobre ecologia e cuidar do planeta, não gastar água... Eu faço um caracol que é um retirante nordestino e dança xaxado!

JC - Como faz para decorar sua parte?

Pedro: Já está quase tudo decorado... É porque eu leio bastante. É difícil, mas eu gosto, já estou acostumado!


Perfil

Nome: Pedro Motta Popoff

Idade: 9 anos

Local de nascimento: Bauru, no dia 2 de fevereiro de 2006

Signo: Aquário

Pais: Carla Motta Popoff e Marcelo Popoff

Livro: “Da história do Brasil, que tenha bastante figura”.

Disco: “Hum, agora você me apertou sem me abraçar...! Escolho ‘50 anos de chão’, do Luiz Gonzaga, que ganhei do Nelson Itaberá”

Música preferida: “Gosto de várias... do Luiz Gonzaga... Se for só uma, Baião de São Sebastião”

Banda: Xaxado Novo

Hobby: “Pesquisar tudo sobre a cultura nordestina”

Filme: Corisco, o diabo loiro, de 1969

Time de futebol: Palmeiras

Esporte: “Sou perna de pau, o esporte que mais gosto é queima, nesse sou bom!”

Outras atividades: Protagonizou o curta-metragem “Muito além das Estrelas”, inspirado em O Pequeno Príncipe, já inscrito em festivais; tem sobre ele o filme de Luciano Karraro “Pedro - um garoto com imaginação sem limites”, da produtora Olhar aberto, já participou da Via-sacra na USC, de comerciais e peças de teatro

Para quem dá nota 10: Luiz Gonzaga e Raul Seixas

Para quem dá nota 0: Os funkeiros e as funkeiras

Contatos: www.facebook.com/meninopedrodocordeledobaiao