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Uso exagerado de computadores pode "apagar" impressões digitais

Atrito dos dedos com o teclado pode contribuir para desgaste das polpas digitais, cada vez mais requeridas pela difusão de sistemas de biometria

por Tisa Moraes

27/06/2015 - 07h00

Alex Mita

Digitais finas: Loyce Policastro teve dificuldades para renovar a CNH

A universitária Loyce Policastro, 23 anos, nunca teve problemas para utilizar leitores eletrônicos de digitais. Mas, recentemente, enfrentou dificuldades para renovar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) devido a falhas nas impressões dos dedos das mãos.

O problema não é incomum, mas a explicação dada pelo médico que realizou o exame para obtenção do documento surpreendeu: até mesmo o uso constante do teclado do computador poderia estar provocando o desgaste das digitais da jovem.

“Eu jamais imaginava que isso pudesse gerar qualquer tipo de dano. Mas, infelizmente, é algo que eu não vou poder deixar de fazer. Eu uso computador o tempo todo”, conta ela, que é estagiária em uma agência de comunicação.

Segundo a dermatologista Roberta Nunes Paccola, o atrito dos dedos com o teclado pode, de fato, contribuir para agravar o quadro de quem já possui as impressões desgastadas, levando a dificuldades para utilização de sistemas de biometria, cada vez mais comuns nos dias atuais. “Nestes casos, a pele da polpa digital pode tanto afinar como engrossar”, pontua.

A médica, contudo,  destaca que o uso contínuo do computador pode ser uma das causas do “apagamento” das impressões digitais, mas não é a única. “A  causa mais comum é a dermatite de contato por produtos de limpeza, como detergentes, água sanitária, sabão em pó e alvejantes. Também é comum entre mecânicos e profissionais da construção civil, que manuseiam cimento e produto que contenha substâncias químicas irritantes e sensibilizantes”.

Hiperidrose

Quem tem sudorese excessiva das mãos, a chamada de hiperidrose palmar, também pode enfrentar transtornos para a leitura das digitais. Até mesmo nadadores podem sofrer deformidade temporária da polpa digital por conta do contato prolongado e contínuo com a água. Alterações permanentes podem ocorrer, segundo a dermatologista, caso os atletas tenham alergia a substâncias utilizadas para tratar as piscinas.

Ainda de acordo com Roberta, que é especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, existem até mesmo pessoas que nascem sem as digitais. A deficiência genética, conhecida como síndrome de Nagali, afeta um em cada 3 milhões de indivíduos e faz com que a pele dos dedos, da palma das mãos e planta dos pés seja muito fina e lisa.

“Além disso, também costumam ter unhas, dentes e cabelos mais frágeis e a pele pode apresentar manchas marrons irregulares pelo corpo”, completa. Neste caso, não há tratamento possível para reverter o problema, mas a dermatologista explica que, quase sempre, há medidas que podem ser adotadas para minimizar o desgaste.

“O mais importante é afastar o fator predisponente, como diminuir a digitação e afastar produtos químicos causadores das dermatites. O tratamento é feito com produtos  e medicamentos para tratar os sintomas das dermatites ou hiperidrose, sendo necessário consultar um dermatologista”, observa.


Biometria ganha força para dar mais segurança

Em casas noturnas, agências bancárias, repartições públicas, hospitais. O uso de sistemas de biometria ganhou força e se difundiu com a promessa de garantir mais segurança para os estabelecimentos e seus usuários.

A novidade, é claro, oferece muitas vantagens, mas surge como um grande obstáculo para quem possui digitais desgastadas e precisa fazer até mesmo operações simples, como sacar dinheiro no caixa eletrônico. Com diversas agências em Bauru, um dos principais bancos públicos do País tem como meta implantar leitores de digitais em todas as suas unidades até 2017.

Para os donos de dedos com impressões apagadas, a alternativa é solicitar à empresa a retirada de sua conta corrente do sistema. “Hoje, temos cerca de 10,4 mil terminais com o template biométrico, de um total de 45 mil. E pretendemos fechar o ano de 2015 com 17 mil terminais”, comenta Luiz Fernando Ferreira Martins, gerente executivo responsável pela segurança em canais de autoatendimento do banco.

Segundo ele, cerca de 2,1 milhões de operações bancárias são autenticadas a cada dia por meio do dispositivo. O cadastramento para início do uso do sistema é feito em qualquer caixa eletrônico que possua biometria e, caso o usuário tenha dificuldade constante para validar a leitura da digital, pode solicitar sua exclusão.

“Assim, mesmo no terminal com sistema biométrico, ele poderá continuar fazendo suas transações financeiras da maneira convencional, com uso de código de acesso. Vale destacar que pedir para ser retirado do sistema é a melhor solução para este público, já que, como medida de segurança, o banco limita o número de tentativas consecutivas para leitura da digital”, alerta.


A repórter sem digital: ‘quase um excluído social’

“Eu, Tisa Moraes, sofro do mesmo problema. Um “sem-digital” é quase um excluído social, nos dias de hoje. É como canhoto que nunca vai conseguir usar o abridor de latas com habilidade.

E quanto mais a tecnologia avança, mais excluídas pessoas com digitais desgastadas, como esta repórter, se sentem. Lembro quando uma das primeiras casas noturnas de Bauru, há cerca de cinco ou seis anos, implantou a leitura biométrica em sua portaria. Na fila, senti meu coração acelerar, com medo do que pensariam as pessoas sobre o transtorno que eu causaria.

De lá para cá, os apuros se multiplicaram. Recentemente, em pelo menos duas situações a minha condição me impôs limitações. Uma delas ocorreu quando fui renovar minha CNH. Fui atendida por uma simpática e paciente funcionária, que fez, por cinco vezes, a leitura de cada um dos meus dez dedos das mãos – sem, contudo, obter êxito.

Resultado: depois de esperar por uma hora para fazer o exame médico – momento em que deveria me identificar novamente por meio da digital, fui orientada a voltar para casa. Só consegui obter a CNH dias depois, após o Detran em São Paulo emitir um pedido de exceção para o meu caso.

O último aperto por conta das minhas digitais quase inexistentes ocorreu há poucas semanas, quando fui sacar dinheiro em um caixa eletrônico, onde a leitura biométrica era obrigatória. Acabei conseguindo fazer o cadastro do indicador, mas, dias depois, voltei à mesma agência e, como diria Galvão Bueno, “eu já sabia” o que estava por vir.

Diante da possibilidade de continuar utilizando terminais de autoatendimento tradicionais em outras unidades, simplesmente não recorri mais aos serviços daquela agência. E assim tem sido. Um “sem-digital”, como todo excluído irreparável, aprende a criar mecanismos de “sobrevivência”. E a lidar, com boa dose de bom humor, com a permanente sensação de impotência’.


Carteira de identidade

Quem possui digitais apagadas ou com falhas não fica impedido de ter RG. Segundo o delegado Emilio Antônio Paschoal, da Delegacia de Polícia do Instituto de Identificação Ricardo Gumbleton Daunt (IIRGD), nos casos em que o indivíduo perdeu as digitais ou, por alguma eventualidade, teve as papilas das mãos desgastadas, o procedimento de datiloscopia pode ser feito pelas digitais da palma das mãos, dos pés e até de fragmentos ou partes que restaram das papilas remanescentes.

Outras características

“Caso, ainda assim, não seja possível o recolhimento de digitais, a carteira de identidade pode ser expedida com cadastro de outras características da pessoa”, observa.