Bauru e grande região

Geral

Enfermeiras fazem 87,7% dos partos normais na Santa Isabel

Elas são supervisionadas por obstetras, que intervém em caso de complicações

por Tisa Moraes

08/07/2015 - 07h00

Profissionais com curso superior e pós-graduação, as enfermeiras obstetrizes já são responsáveis por 87,7% dos partos normais realizados na Maternidade Santa Isabel, em Bauru. Sempre contando com a retaguarda de um médico obstetra, elas realizam partos considerados de baixo risco, uma prática já bastante difundida em países da Europa, mas ainda pouco adotada por hospitais brasileiros da rede privada.


Na cidade, somente a maternidade realiza, atualmente, cerca de 305 partos por mês - 53% deles normais (o que também difere da rede privada, na qual predominam cesarianas). Dos 817 bebês que nasceram pelo método natural entre janeiro e maio deste ano, só não vieram ao mundo pelas mãos de enfermeiras aqueles que enfrentaram complicações durante o trabalho de parto, conforme explica a gerente de enfermagem da maternidade, Andréa Carvalho.


“Muitas vezes, o bebê não entra na posição certa e é preciso o uso de fórceps, por exemplo. E isso só o médico, que fica disponível 24 horas por dia no hospital, pode fazer”, completa.


Segundo a Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp), os números só não são maiores porque a maternidade é referência para partos de alto risco para 18 municípios da microrregião de Bauru. Mesmo assim, os percentuais são consideráveis.


Para se ter uma ideia, a média do Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o País é de 60% e, por meio de planos de saúde, o índice cai para ínfimos 15,4%. O já debatido incentivo dos médicos à realização de cesarianas é apontado como o principal obstáculo para ampliar as estatísticas na rede privada.


Segundo Carlos Alberto Monte Gobbo, membro do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) em Bauru, para poder ter controle sobre a própria agenda e não perder horas do seu dia de trabalho com um processo que pode ser bastante longo, muitos obstetras acabam incentivando as mulheres a optar pela cesárea. “E isso contribui para sedimentar na cabeça das gestantes que esta opção é a mais tranquila, porque não há dor e leva menos tempo”, completa.


Mas, conforme destaca Andréa, as vantagens em dar a luz pelo método natural são inúmeras e cientificamente comprovadas. “A reabilitação da mãe é muito mais rápida, além de ser mais seguro para a gestante e o bebê, que sai da barriga da mãe no dia em que ele está realmente pronto para nascer”, pontua.


Primeira opção


Diferentemente do que ocorre na rede privada, o parto normal é sempre a primeira opção dentro do SUS. Por este motivo, segundo Andréa, já houve gestantes que procuraram a maternidade depois de realizarem todo o pré-natal por meio de convênios de saúde.


“Não é algo frequente, mas já ocorreu algumas vezes. Elas chegam relatando que, no final da gravidez, o médico se recusou a realizar o parto normal, algo que elas desejavam muito”, pontua.


Neste contexto, as enfermeiras obstetrizes vêm ganhando cada vez mais espaço na rede pública. Somente na Maternidade Santa Isabel, são nove profissionais contratadas. Para serem habilitadas, elas precisam ser formadas em enfermagem e terem concluído o curso de pós-graduação em enfermagem em obstetrícia, totalizando de seis a sete anos de estudos.


Necessariamente, conforme reforça Gobbo, as enfermeiras precisam ser supervisionadas por um médico obstetra, que avalia as condições da gestante para realizar o parto normal. “E esta equipe médica permanece no hospital, caso seja preciso intervir em uma eventual intercorrência que possa demandar, inclusive, procedimentos mais complexos para a resolução do parto”, detalha.


Na maternidade, durante todo o processo, a gestante pode ser acompanhada por um parente de sua escolha e, depois de dar a luz, permanece no mesmo quarto que o recém-nascido até receber alta, se o quadro de saúde do bebê não inspirar maiores cuidados.

Novas regras


Entre as novas regras impostas pela resolução da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), estão a obrigatoriedade de preenchimento de um partograma, documento em que o médico demonstra a evolução do trabalho de parto, além do cartão da gestante, que contém todas as informações sobre o pré-natal. Também fica estabelecido que os planos de saúde devem informar, quando a paciente solicitar, a quantidade de cesarianas realizadas por médico, operadora e hospital. A multa para as operadoras que não prestarem as informações no prazo de 15 dias é de R$ 25 mil.

Novas regras não devem alterar demanda por cesárea

Quioshi Goto

Andréa Carvalho relata que maternidade já recebeu gestantes que tiveram parto normal recusado por médicos da rede privada

Para o Cremesp, o papel das obstetrizes pode ganhar fundamental importância diante do debate sobre a necessidade de reduzir o número de cesáreas no País. Desde a última segunda-feira (6), uma nova resolução do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) passou a vigorar para pressionar as operadoras de planos de saúde a ampliar os percentuais de partos normais.


Mas, segundo o membro do conselho em Bauru, Carlos Alberto Monte Gobbo, a norma não será suficiente para mudar, sozinha, a mentalidade de médicos e pacientes. Para ele, a diminuição do número de intervenções cirúrgicas só será possível quando as operadoras passarem a incorporar, com maior ênfase, a figura da enfermeira obstetriz, ao mesmo tempo em que fizerem com que as gestantes se sintam seguras com a assistência deste tipo de profissional.


“O médico faria toda a avaliação e acompanharia a paciente a distancia, sendo chamado caso houvesse qualquer complicação. É um modelo que vem dando certo em países desenvolvidos. Temos, sim, de aumentar o número de partos normais, mas também levar em consideração a realidade do médico, que não vai deixar seu consultório para ficar um dia todo acompanhando uma única paciente”, pontua.


MUDANÇA RADICAL?


Uma mudança radical no curto prazo também parece improvável para Andréa Carvalho, já que não apenas médicos, mas muitas mulheres continuam preferindo o parto cesárea. Vale destacar que, mesmo com a nova resolução, a gestante continua tendo o direito garantido de optar pelo procedimento cirúrgico, mesmo que, tecnicamente, ele seja considerado desnecessário.


Para tanto, deverá assinar um termo de consentimento livre e esclarecido, que será anexado a um relatório médico detalhado. Segundo a ANS, dentro destes critérios, a operadora não pode recusar a cobertura do procedimento.


“As gestantes são muito influenciadas pelo meio em que vivem e também pelo médico de sua confiança. E, quase sempre, o medo da dor e de sofrer com eventuais complicações se sobrepõe ao entendimento sobre os benefícios do parto normal”, observa a gerente de enfermagem da Santa Isabel.