Bauru e grande região

Geral

Dengue vence a batalha e há risco de nova epidemia em 2016

Guerra contra a doença continua e a principal arma é a conscientização da população

por Tisa Moraes

12/09/2015 - 07h00

Sem armas efetivas para exterminar o mosquito Aedes aegypti e impedir a transmissão da dengue, o poder público perdeu mais uma batalha contra a doença neste ano e a população segue sob ameaça de uma nova epidemia para 2016, já que diversos municípios, inclusive Bauru, apresentam índices larvários em níveis de alerta. Por este motivo, mais do que nunca, é imprescindível que cada morador comece a fazer sua “lição de casa”, mantendo residências e quintais limpos e livres de potenciais criadouros.

A constatação preocupante foi feita por autoridades de todo o Estado que participaram de encontro realizado neste mês pela Secretaria de Estado da Saúde, na Capital. Na oportunidade, um dos principais entendimentos foi de que as ações desencadeadas para combater a dengue não estão sendo suficientes para impedir sua progressão.

Em 2015, Bauru registrou recorde histórico da doença, com comunicação de seis mortes e 8.711 casos - um para cada 42 habitantes da cidade. Em todo o Estado, foram quase 600 mil notificações. 

“Ao longo das últimas décadas, estamos ‘apanhando’ feio da dengue. E os dados apontam que as epidemias estão começando a acontecer em anos sequentes. É algo que está acontecendo em muitos municípios e que não ocorria antigamente”, pontua o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti. 

Ele destaca que Bauru, até agora, continua tendo picos de casos em um ano, com intervalos de menos registros em anos seguintes. Trata-se de uma realidade, porém, que pode mudar a qualquer momento. Vale destacar que, antes de 2015, a última epidemia registrada na cidade foi apenas dois anos antes, em 2013, quando 7.442 pessoas foram infectadas pelo vírus.

Além de os níveis de infestação em Bauru estarem em patamar de alerta neste ano, o secretário lembra que o inverno mais quente - que pode se repetir em 2016 - não conseguiu interromper o ciclo de transmissão da doença. “Esta é uma realidade do Estado todo. Não tivemos temperaturas muito baixas que pudessem impedir o mosquito de continuar se multiplicando. Ao contrário, as condições do tempo continuaram propícias”, completa.

Vacina

 

Na reunião em São Paulo, uma das medidas anunciadas pela Secretaria de Estado da Saúde foi a contratação, pelo período de três meses, de 500 novos agentes da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen). Mas, considerando que o Estado conta com 645 municípios paulistas, os efeitos práticos deste reforço não devem ser muito contundentes (leia mais abaixo).

Monti também destaca que a Sucen utiliza, hoje, a última linha de inseticida que pode ser aplicado com segurança para combater a dengue. “E já há mosquitos resistentes a este defensivo. Por isso, ele precisa ser usado com muita cautela. Se utilizado intensamente, não vai restar nenhuma alternativa a que o inseto seja suscetível, nem mesmo para uma situação de emergência”, observa. 

No encontro, a Secretaria de Estado da Saúde também destacou que está em trâmite as análises para liberação da fase três de pesquisas para a produção da vacina contra a dengue, que vem sendo desenvolvida pelo Instituto Butantan. A etapa, que ainda depende de autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), incluiria testes da eficácia do imunizante em grupos de pessoas. 

“Mas, num cenário otimista, a partir da liberação desta última fase, a vacina só estaria disponível para uso somente daqui a dois anos. Ao menos durante este período, portanto, teremos de encontrar outras saídas”, comenta Monti.

Mais agentes

Autarquia vinculada à Secretaria de Estado da Saúde, a Sucen  informou que irá contratar 500 novos agentes de controle de endemias, que atuarão pelo período de três meses, considerado estratégico para execução de medidas preventivas para o próximo verão. A previsão, segundo o superintendente Dalton Pereira da Fonseca Junior, é de que cerca de 70 agentes sejam destacados para trabalhar na região de Bauru.

“Em um momento como este, é importante a intensificação das atividades de interrupção da transmissão e de eliminação de criadouros, para reduzir a infestação de mosquitos neste período de baixa e entrarmos no verão com circulação do vírus em menor nível”, pondera.

Ainda de acordo com Fonseca Junior, a pasta está investindo R$ 12 milhões em ações de combate à dengue somente em 2015. Além de adquirir novos equipamentos e viaturas, com o reforço de pessoal a Sucen duplica seu efetivo, totalizando aproximadamente mil agentes de campo para apoio em ações, como as de nebulização e visitas domiciliares. 

 

Cientistas estão céticos em relação ao uso de mosquitos transgênicos

Secretário municipal de Saúde, Fernando Monti também afirma que cientistas têm se manifestado de maneira cética quanto à possibilidade de sucesso no uso de mosquitos transgênicos para reduzir a população de Aedes Aegypti. Experimentos demonstraram que o macho geneticamente modificado, ao copular com a fêmea, gera filhotes que não conseguem chegar à fase adulta e, por isso, são incapazes de se reproduzir.

Vale destacar que a proposta é de produção e soltura em larga escala apenas do mosquito transgênico macho, já que a fêmea é a única que transmite a dengue. “Ainda não há estudos consistentes sobre os resultados, mas os cientistas questionam a possibilidade de o mosquito geneticamente modificado prevalecer sobre o selvagem. Acredita-se que natureza pode, em pouco tempo, dar conta de renovar a população de mosquito selvagem”, pontua.

Há, contudo, pesquisas sendo conduzidas pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, e por institutos em outros países para contaminar o Aedes Aegypti com a bactéria Wolbachia, que impede a transmissão do vírus da dengue. 

A ideia seria liberar estes espécimes na natureza, para que acasalassem com os mosquitos selvagens, produzindo descendentes portadores da bactéria, que não é transmitida aos seres humanos. “Mas, mais uma vez, ainda não há resultados comprovados da eficácia desta técnica”, completa Monti.

 

80% dos criadouros estão em residências

Dados da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo apontam que 80% dos criadouros do mosquito da dengue estão localizados dentro de propriedades particulares. Por este motivo, a Secretaria Municipal de Saúde reforça o pedido para que a população providencie a limpeza de seus quintais, com a eliminação de recipientes que acumulam água.

Em estudo apresentado pela Sucen durante o encontro, Bauru registrou índice larvário de 1,9, considerado nível de alerta. Conforme classificação do Ministério da Saúde, na avaliação de densidade larvária, estão em situação de risco de surto cidades com índice acima de 3,9. 

Em situação de alerta, o índice varia entre 1 e 3,9. Trata-se do Índice de Breteau, indicador entomológico calculado pelo número de recipientes com presença de larvas de Aedes aegypti em uma amostra de 100 imóveis. A cidade será submetida a nova análise quanto à proliferação do mosquito em outubro, quando será realizado o Levantamento Rápido do Índice de Infestação por Aedes Aegypti (Liraa).