Bauru e grande região

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Entrevista da semana: Alberto Dines

Aos 83 anos, sendo 63 dedicados ao jornalismo, Alberto Dines observa, sem censura, os erros e caminhos do jornalismo no Brasil

por Nélson Gonçalves

22/11/2015 - 07h00

Alex Mita
Aos 83 anos, 63 de jornalismo, ele analisa, durante visita a Bauru, os erros e caminhos da imprensa no Brasil.

Ele é carioca, mora na Vila Madalena, em São Paulo, e aos 83 anos não se recorda de ter feito outra coisa na vida a não ser jornalismo. Com 63 anos de carreira, Alberto Dines mantém, com obstinação, a difícil e nobre tarefa de observar e criticar a própria profissão, ou melhor, seus conteúdos, o que inclui, sobretudo, falhas, erros, submissão e omissões. Faz isso na Internet e na TV, com seu Observatório da Imprensa, cujo bordão é: ‘Você nunca mais vai ler jornal do mesmno jeito’. Em conversa com alunos, professores, jornalistas e cidadãos de outras tantas profissões, na última quinta-feira, em um dos auditórios do campus da Unesp de Bauru, Dines disse que não escolheu o jornalismo, mas este o escolheu.

“Aprendi a ler jornal aos oito anos porque sou filho da 2ª Guerra e, sem Internet naquele tempo, era a única forma de tentar saber o que estava acontecendo na rua. De lá para cá, não fiz outra coisa a não ser tentar continuar a entender o mundo da notícia e trabalhando com ela todo dia”, contou na abertura do encontro na Unesp. Alberto Dines contou que quis fazer cinema e se apaixonou pelos roteiros chilenos. “Virei crítico de cinema aos 21 anos. Mas fiquei no jornalismo. Cinema e jornalismo para mim não há diferença, são apenas plataformas diferentes, mas tudo é abordar o mundo, a vida”, simplifica.

A experiência do profissional mostra, infelizmente, que no negócio de comunicação a história repete o rito. “Um comércio terrível para a democracia foi a negociação no Jornal do Brasil onde os censores saíram da redação em troca da autocensura em relação aos jornalistas. Em 1973, dei manchete da queda do Salvador Allende, mas na hora de rodar, mandaram tirar a manchete. Eu voltei ao jornal, tirei a manchete, mas deixei o texto. Em três meses fui demitido”, reconta.

Para Alberto Dines, o “problema” central do jornalismo persiste. “Hoje a questão está estabelecida sobre outro eixo. O dono diz: eu o contrato, mas você tem de fazer o que eu penso. É o escambo terrível de hoje, que não é bom para os donos dos jornais, não é bom para os jornalistas, não é bom para a sociedade e nem para a democracia. É o antijornalismo”, diz.

Para os estudantes de jornalismo, maioria na plateia do auditório no colóquio com Dines, ele fez suas observações: “A faculdade precisa dar História da imprensa no currículo, para que se aprenda com os erros nas coberturas. Outra necessidade é discutir a imprensa na sala de aula. Se jornalista não faz a crítica das coberturas, se não se discute o fazer jornalismo no dia a dia, este aluno não desenvolve sua matéria-prima, a informação”.

Dines deu um puxão de orelhas em uma prática comum nas redações, publicar releases (textos enviados por assessorias de imprensa sobre fato que interessa ao cliente): “Copiar e publicar release é aberração. Isso não é notícia, é um texto que interessa ao autor e traz o seu ponto de vista. O bom release faz seu papel, de tentar divulgar algo que interessa à empresa, instituição ou autor. Mas é a visão dele e tem de servir apenas de aviso de pauta á redação”.

E qual o desafio para o jornalismo impresso professor? “o desafio é sobreviver, da mesma forma que o jornalismo impresso o faz há 400 anos. E isso se faz surpreendendo o leitor. E isso inclui não só ser criativo, claro com um visual gráfico mais moderno, convidativo à leitura, mas sobretudo com matérias que traga ao leitor uma reflexão, um ponto de vista que ele não tinha ou não percebeu”.

E como se surpreende professor? “O leitor não pode abrir o jornal para o que ele já sabe. O impresso não tem de ter edição quente, do factual em si, mas algo reflexivo, complementar. Hoje, o leitor que compra a Veja já sabe que vai ter pau no governo. Surpreender, portanto, significa ser crítico e o jornal inteligente traz também matérias contra sua própria postura editorial, para dizer ao leitor que também sabe ser plural de fato”.

A seguir, leia a entrevista exclusiva concedida ao JC:

Jornal da Cidade - Os empresários do mundo da comunicação abordam o medo do chamado “negócio disruptivo”. O que o senhor pensa do receio da “mudança radical” a partir das novas tecnologias?
Alberto Dines -
Penso um monte de coisa. Primeiro acho que admitir uma atitude disruptiva já é muito ruim. Você tem de pensar em termos construtivos. Se você admite que as novas tecnologias estão entrando para entrar, matar, desempregar, para eliminar as tradições, acho muito ruim. Não dou passos adiante dizendo que vou acabar com o passado. Acho uma atitude errada.

O negócio que tem a notícia como matéria prima não tem fórmula pronta?
Dines -
E essa é a segunda coisa que me incomoda. É que o empresariado de mídia do mundo inteiro quer um modelo de negócio como se fosse uma poção milagrosa, como Papai Noel, em que se entrega um pacote prontinho, você aplica e vai dar certo. Isso nunca existiu em comunicação. O Gutemberg não estava pensando em fazer uma máquina, com tinta e papel, que seria infalível. Ele queria é simplificar o trabalho dos copistas e multiplicar a distribuição do conteúdo. Ele não pensou em um modelo de negócio, tanto que morreu na miséria. Então, o empresário pensar uma fórmula acabada, pronta, para o negócio de comunicação é uma preguiça, uma indolência. Tem de correr riscos. Tem que testar e arriscar. Agora, por causa da tecnologia, empresários decidem demitir os mais experientes para contratar mais novos, mais baratos, e partir para um jornalismo com notícias mais leves por causa da Internet. E esse negócio não funciona assim. Cada plataforma tem um produto, enfim. O desafio é justamente compensar a pulverização da Internet. Estão fazendo errado.

Boa parte das plataformas de comunicação da Internet serve ao modelo de confessionário online. Nesse sentido, a Internet não aprofunda, mas pulveriza e, com isso, não serve para reforçar a necessidade das grandes reportagens no jornal impresso?
Dines -
Ainda não vi o jornalismo digital florescer, ter densidade. São exceções algumas páginas ou blogs que aprofundam, formam reflexão em seus conteúdos. Agora o jornalismo impresso precisa entender que não é mais dele a missão de ser quente com a notícia factual na manhã seguinte. Ele tem de ser complementar, reflexivo sobre o mesmo fato que mereça ampliação da abordagem. As redações definharam e se você não discute a manchete, a abordagem, você erra mais na edição.

JC - O que os jovens vão querer ler? Os jornais vão conseguir atrair o jovem para ler?
Dines -
Já me perguntei isso. O que me levou a ler jornal aos oito anos? No meu caso é porque, em 1939, era a única forma de saber as razões da Segunda Guerra Mundial. Eu queria saber das batalhas, das disputas. As pessoas têm de ser motivadas para saber o que está acontecendo no mundo. Para não serem carregadas para cá e para lá sem seu arbítrio. E isso é uma questão de família, de educação. Os pais precisam entender isso, que devem oferecer leitura aos filhos desde criança. A escola deveria fazer seu jornalzinho na sala de aula desde pequeno. É toda uma questão de família, do colégio.

JC - Então a crise é do modelo de negócio, do modelo de informação?
Dines -
A crise é da busca do modelo de negócio infalível. Não existe infalibilidade, senão não é negócio. Se é negócio, tem de arriscar. Então tem de levar em conta, claro, as novas plataformas, mas não descuidar dos conteúdos conforme os modelos. Hoje se o empresário tem um jornal impresso, evidente que ele tem de ter uma boa plataforma digital para ancorar seu público. Mas a coexistência não significa produtos iguais. A ânsia é que as entidades corporativas são muito burras e pensam em oferece um modelo pronto. Não! Está oferecendo é um modelo com grande possibilidade de fracassar, ao tirar do jornalismo, no modelo engessado, o arbítrio, a sutileza, a profundidade, a reflexão, as circunstâncias regionais. É evidente que o pacote de notícias de agências que vem para o Paraná não cabe igual para Bauru.

JC - Mas apesar da discussão da queda de tiragem no jornalismo impresso no mundo, na imprensa regional isso não se reflete igual. A mistura de notícia feita na aldeia e para a aldeia e a profundidade seguram esse elo com o leitor?
Dines -
Estou apostando que não haverá perda de espaço do jornal impresso nas regiões. O instituto que pertence ao Observatório da Imprensa começou um programa chamado “Pequena grande imprensa”, justamente dedicado a desenvolver o jornalismo local, regional ou metropolitano, ou de bairro ou comunitário. A Internet não conseguirá fazer jornalismo com tanta propriedade quanto o veículo impresso nas microrregiões. Claro que o veículo impresso com versão digital integrada e reportagens reflexivas e com abordagens complementares em suas edições.

JC - O senhor fala em surpreender o leitor...
Dines -
O jornalismo moderno, do futuro, vai ser o metajornalismo. Não se assuste com a palavra. Ele vai apresentar o fato e discutir a cobertura do fato na própria cobertura. Teremos a descrição do fato e, na mesma edição, avaliações de possíveis nuances do fato. No caso de Mariana (MG), o pessoal está cobrindo a tragédia do Rio Doce e o leitor já está cobrando que a imprensa não está dando aos fatos a importância que deveria dar. O jornalismo que não ouvir o que quer o leitor não fica. A tendência é discutir junto com a notícia, as novidades, as reflexões. E isso só se dará na mídia especializada. Repórter só factual não fica.

JC - Mas a história do jornalismo sempre foi elitista e não alcança, por razões óbvias, a grande massa alienada e os milhões de analfabetos funcionais?
Dines -
O primeiro veículo periódico, um mensário alemão acho que de Estrasburgo, era a relação dos fatos memoráveis e edificantes da sociedade. Era altamente elitista. Mas estava ali preenchendo uma necessidade. Ali tinha um modelo de negócio que talvez ninguém soubesse. Mas isso era século XVII. Como estamos na era da informação e em uma sociedade hiperinformativa, tem que, ao lado da notícia, tratar de como essa notícia está sendo tratada pela sociedade.

JC - A nova lei do direito de resposta traz embutido gengibre para arder o sabor do café: repete erros do ranço do regime de exceção que o Requião (autor) usou para justificar a proposta?
Dines -
Gostei da expressão (risos). O Roberto Requião é uma espécie de Eduardo Cunha menos pior. Brigou muito com a imprensa e tem muitas brigas com jornalistas, porque não tem uma atitude decente. Então tenho pé atrás com ele. Mas o que aconteceu foi uma afobação para acabar o “lixo autoritário”. Eu escrevi: tudo bem. Mas algumas coisas não podem ficar no vácuo. E o direito de resposta ficou no vácuo após o fim da lei de imprensa em 2009. E fizeram essa lei nova agora no afogadilho e de forma incompetente. A OAB contestou, eu contesto e acho que tem problemas de legalidade e até constitucionalidade. Então, veio a nova lei do direito de resposta, mas terá de remendar, ajustar.

Perfil
Alberto Dines, 83 anos,
63 anos de jornalismo
Diretor de diversas revistas e jornais no Brasil e em Portugal
Professor de jornalismo desde 1963
Foi editor-chefe do Jornal do Brasil por 12 anos
Diretor da sucursal Folha de S. Paulo no Rio de Janeiro
Diretor do grupo Abril em Portugal
Lançou a revista Exame
Escreveu mais de 15 livros, entre eles Morte no paraíso, A tragédia de Stefan Zweig (1981) – adaptado para o cinema em Lost Zweig em 2002 - e Vínculos do fogo – Antônio José da Silva, o Judeu
Criou o site Observatório da Imprensa, o primeiro periódico de acompanhamento da mídia no Brasil

É pesquisador sênior do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp