Bauru e grande região

Geral

Mal explorado, lixo reciclável é cobiçado por coleta clandestina

‘Atravessadores’ fazem despencar volume recolhido pela Emdurb

por Vinicius Lousada

12/06/2016 - 07h00

Samantha Ciuffa
Diminuiu a quantidade de material reciclado pelas cooperativas

Lixo é dinheiro. Pelos menos 34% de todos os resíduos domésticos gerados em Bauru e levados ao aterro sanitário têm potencial para reciclagem e, consequentemente, para fomentar uma virtuosa e sustentável cadeia econômica. Ela garante comida na mesa e melhores condições de vida para dezenas de famílias de integrantes das três cooperativas de triagem credenciadas e comercialização desses materiais na cidade. Sem adesão da maior parte da população e políticas mais incisivas do poder público, esses grupos organizados passam por dificuldades, agravadas com o surgimento de empresas que, de olho na riqueza do lixo, estão recolhendo clandestinamente (de modo informal) os materiais passíveis de reaproveitamento.

Não se tratam de pequenos coletores que reviram as lixeiras das ruas para sobreviver e são vistos cada vez em maior número como consequência da crise econômica e do aumento do desemprego.

São carros e até caminhões, cujos responsáveis sabem dos dias e horários da coleta seletiva oficial em cada bairro, que passam pelas vias minutos antes das equipes da Emdurb para recolher os materiais de interesse.

A consequência é a brusca queda no volume de recicláveis apanhado regularmente pelo município. Foram 262,8 toneladas em janeiro, 230,2 em fevereiro, 220 em março, 118,8 em abril, e R$ 187,6 em maio; menos da metade.

Como as cooperativas de recicláveis dependem, em grande parte, da destinação de resíduos pela coleta seletiva, elas sentiram a redução.

Cortes

Líder da Cooperativa Ecologicamente Correta de Materiais Recicláveis de Bauru (Coopeco), instalada no Ferradura, Gisele Moretti conta que o grupo recebia, em média, 80 toneladas de lixo por mês. Em maio, foram 50.

“A gente continua trabalhando por conta de algumas parcerias com empresas e associações privadas, que encaminham para nosso galpão volume considerável de resíduos”, conta. A cooperativa não fechou as portas, mas desligou nove de seus 26 integrantes, que, agora, são 17.

“Foi necessário para garantir que cada um recebesse pelo menos 1 salário mínimo no fim do mês. Ainda assim, tivemos que fazer algumas manobras. Por falta de material, em dois dias, dispensamos o pessoal”, afirma Gisele.

Cofres públicos

Em média, 7.500 toneladas de lixo são levadas todos os meses ao aterro sanitário. O Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos estima que, de todo esse volume, 2.500 correspondam a materiais passíveis de reciclagem. Se todos esses resíduos fossem destinados adequadamente, a Prefeitura de Bauru deixaria de gastar, em um ano, mais de R$ 2,5 milhões, já que paga R$ 83,50 por cada mil quilos enterrados em Piratininga.

Por outro lado, a coleta de materiais recicláveis custa bem mais à prefeitura do que a do lixo orgânico. No primeiro caso, a Semma paga à Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) R$ 459,90 por cada mil quilos recolhidos. No segundo, R$ 135,90. Por sua vez, a Emdurb conduz o material ao destino adequado – Piratininga ou às cooperativas.

A explicação para a discrepância de valores é o grande volume e o baixo peso desses resíduos recicláveis. “São os mesmos gastos com combustível e funcionários para transportar menor quantidade de lixo nos caminhões”, explica Luiz Henrique Facin, diretor da Divisão de Controle e Projetos Ambientais.

Placa de fora

Tanto a Emdurb quanto a Prefeitura de Bauru têm conhecimento sobre a atuação dos caminhões ‘atravessadores’ que passam pelos bairros antes da coleta seletiva. A assessoria de imprensa da empresa pública que executa formalmente o serviço, inclusive, disponibilizou à reportagem imagens de um caminhão-gaiola com placa de Jaú recolhendo recicláveis pelas ruas da cidade.

A titular da Secretaria do Meio Ambiente (Semma), Lázara Gazzetta, confirma a prática que, em seu entendimento, é irregular. O governo, contudo, ainda não tomou providências efetivas para barrá-la. “Há uma série de implicações nisso. Umas delas é a destinação dada aos rejeitos desses materiais recolhidos. Os que saem das cooperativas regularizadas vão para o aterro. Só que o problema vai além da questão ambiental e pode envolver, inclusive, a exploração de trabalho”, pontua a gestora.

Valor ‘esquecido’ em fundo expandirá coleta seletiva para 100% da cidade

Hoje, a coleta seletiva atende a 80% da zona urbana de Bauru. Antiga promessa do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), a ampliação da abrangência do serviço para toda a cidade parece, agora, próxima de se tornar realidade, graças a R$ 3 milhões do Fundo Municipal do Meio Ambiente, “esquecidos” pelo governo municipal até fevereiro deste ano.

Conforme o JC publicou na época, a revelação do recurso surgiu em audiência pública de prestação de contas, quando a Semma confirmou a “descoberta” do saldo e que a verba ficou por bom tempo sem ser utilizada.

Com autorização do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Bauru (Comdema), a administração utilizará o dinheiro para comprar dois caminhões compactadores que serão utilizados para a coleta seletiva. Os veículos ainda serão licitados e são diferentes dos cinco que operam atualmente o serviço, chamados de caminhões-gaiola.

“Eles dão uma prensada nos materiais, aumentando a capacidade de armazenamento, mas sem danificá-los. Além disso, com eles, precisaremos apenas de três servidores. Os tradicionais exigem cinco porque são necessários dois para acomodar os resíduos nas gaiolas”, explica Lázara Gazzetta.

Condomínios

Samantha Ciuffa
Lázara Gazzetta pretende utilizar a verba para comprar caminhões

Com o intuito de ampliar a coleta seletiva, a Prefeitura de Bauru vai encaminhar aoLegislativo projeto de lei para obrigar todos os condomínios horizontais, edifícios verticais residenciais e loteamentos fechados da cidade a implantar a separação dos resíduos.

O texto foi construído em conjunto pela administração e pela Comissão de Meio Ambiente da Câmara e atinge apenas os empreendimentos com pelo menos 10 unidades habitacionais.

Aqueles que não cumprirem as regras previstas serão alvo de multa inicial de R$ 1.000,00, que será dobrada em caso de reincidência. Depois, triplicada e assim por diante.

Educação

Para que a coleta seletiva alcance bons resultados nas regiões em que ainda não foi implantada, a Prefeitura aposta em trabalho de educação ambiental desenvolvido por equipe multidisciplinar de estudantes da USC, coordenada pelo professor e biólogo Dorival José Coral.

Lázara Gazzetta conta que o grupo já preparou material de áudio para divulgar o serviço com o auxílio de um caminhão de som. A iniciativa abrange ainda as cooperativas de reciclagem da cidade, auxiliadas pelo professor em seu gerenciamento.

Cooperativas podem assumir ecopontos

Com a proposta, funcionários da Semma seriam realocados para outras funções; dúvidas legais e problemas com documentação são dificuldades

A Secretaria do Meio Ambiente (Semma) pretende que as cooperativas de reciclagem de lixo credenciadas junto ao poder público passem a cuidar dos ecopontos de Bauru. São sete deles em funcionamento que ficam abertos, de segunda a sexta-feira, para que a população descarte, além de eletrônicos, entulho e afins, resíduos secos comercializados por esses grupos, como papel, plástico, metal e vidro.

Malavolta Jr.
Ecoponto da Bernardino de Campos está entre os sete em funcionamento no município

“A ideia é que esse pessoal cuide dos ecopontos, que continuariam sendo mantidos pela prefeitura. Lá, poderiam fazer a triagem e separar o que é de interesse para comercialização”, afirma Lázara Gazzetta.

Segundo a secretária, o papel dos ecopontos seria impulsionado, já que o olhar dos cooperados sobre os materiais deixados pela população nesses locais é diferente. “Para eles, o lixo é dinheiro”. Além disso, funcionários da Semma seriam realocados para outras funções, o que seria positivo diante do déficit de servidores da pasta em relação a suas demandas.

A proposta esbarra, contudo, em dois impasses. “Um deles é que, para firmar parcerias com o poder público, as cooperativas precisam ter toda a documentação em dia. Acredito que esta não seja uma realidade hoje”.

O segundo gira em torno de dúvidas legais, especialmente relativas a eventuais vínculos empregatícios gerados entre os cooperados e a Prefeitura de Bauru. “Não são pessoas concursadas na administração. Como ficariam as responsabilidades? E se um deles sofre um acidente?”, questiona Lázara, retoricamente.

A coleta

Líder da Coopeco, Gisele Moretti vai além e pleiteia, junto à administração municipal, que as cooperativas possam assumir a coleta seletiva, com um caminhão para cada uma delas. “A gente tem o interesse de impulsionar o serviço porque é isso que garante o almoço e o jantar de muita gente. A legislação permite que esse tipo de convênio seja firmado com a prefeitura sem licitação. O município cede o motorista, o veículo e o combustível. Renderia mais e custaria menos, com certeza”.

A secretária Lázara Gazzetta confirma que a possibilidade existe e sua equipe está debruçada sobre o assunto para buscar meios de viabilizá-la. Ela pondera, no entanto, que este deve ser um passo seguinte à proposta relativa aos Ecopontos.