Bauru e grande região

Geral

Check-up anual de saúde: não esqueça o seu

Idade, hábitos, genética e histórico de doenças integram pontos de monitoramento

por Nélson Gonçalves

10/09/2017 - 07h00

Douglas Reis
Carlos Alberto Giafferi analisa protocolos de exames

Fazer ckeck-up médico anual por meio de exame laboratorial é, ou deveria ser, algo tão corriqueiro quanto comer e dormir. Entre os brasileiros, entretanto, a prevenção não é associada, na média, a um hábito cultural de saúde. Ao contrário, o 'tabu' sobrevive, em maior escala entre homens, que 'fogem' dos laboratórios. Também incomoda outra parcela da população o receio de ir ao médico e "descobrir algum problema". Mas, afinal, quais são os exames essenciais para a checagem anual do estado de saúde? De cara, quatro são indispensáveis: glicemia, hemograma, triglicerídeo e colesterol.

Mas há outras indagações que devem ser feitas para completar o check-up: quais informações devem ser levadas em conta para os exames? Qual a importância do histórico pessoal e familiar sobre a investigação da saúde por um médico de sua confiança?

Segundo o patologista clínico Carlos Alberto Giafferi, o indivíduo precisa ter dimensão da importância da escolha e da convivência com o médico de confiança ao longo de sua vida. "Nós, os patologistas, somos peça importante no diagnóstico. Mas atuamos em paralelo. Nessa relação, o papel do médico de confiança do paciente é primordial. O paciente vai e faz um raio X e aparece um cálculo no rim. Possivelmente, a causa é o rim.

Mas este paciente pode ter este cálculo há um tempo e a dor que ele apresenta hoje não ter nada a ver com esse cálculo. Ou seja, a análise clínica sobre o paciente é soberana. E por isso, a visão do médico sobre o paciente vai continuar sendo soberana sempre", enfatiza.

Acostumado a discutir protocolos para realização de exames laboratoriais de saúde e especialista no Sistema de Avaliação Diagnóstica Terapêutica (SADT), Giafferi enfatiza que o histórico de vida de cada um sempre será fator primordial. "O eletrocardiograma é uma ferramenta importante. Mas não adianta apontar infarto do miocárdio em paciente com dor no peito por si só. Porque se ele foi à academia e ingeriu dose significativa de creatina, isso interfere. O histórico do paciente colocado frente ao seu médico de confiança é peça-chave", acrescenta.

Mas, considerando que o cidadão já conta com seu médico pessoal, qual, então, o check-up ideal? "O Hospital do Coração (HCor), que hoje cuida muito mais especificamente de doenças ligadas ao problema cardiocirculatório, ou seja, a hipertensão, o infarto, o diabetes, fez uma avaliação em três faixas etárias que eu considero a mais completa para esses quadros (ver nesta página). Você tem uma lista de exames iguais para homens e mulheres de até 39 anos e 11 meses e outra de 40 a 50 anos. E uma terceira para idade a partir de 50 anos, com diferenciações específicas para ver em homem e mulher para a segunda e terceira faixas", defende.

Com o aumento da idade, a lista de exames é ampliada. A partir de 40 anos, o pacote inclui o PSA (próstata) e o 25 hidróxido vitamina D para homens. Para mulheres, devem ser acrescentados a mamografia e o hidróxido vitamina D.

GLICEMIA E TRIGLICÉRIDES

A partir da identificação básica dos indicadores de saúde apontados e levando em conta o histórico do paciente, sexo e idade, o leque de checagem pode ser ampliado. O patologista Carlos Alberto Giafferi considera que, com pacote de exames ou não, glicemia e triglicérides são os “vilões principais” a serem considerados. “Colesterol, ureia, creatinina e ácido úrico completam esse pacote básico usado como protocolo pelo HCor, um perfil de exames que considero essenciais.

Mas se verificar a realidade dos laboratórios, não há como deixar de apontar a glicemia e triglicérides como fundamentais na lista”, pontua. Giafferi cita, como exemplo, a mudança comportamental da sociedade como fator de checagem. “O aumento de doenças ligadas à vida sexual, como sífilis, ampliou o protocolo básico. A hepatite entrou nesse pacote. Mas o exame de tireoide, depende do caso. Tem protocolo que não inclui urina 1 para algumas situações, por exemplo. Mas outros pedem muito a pesquisa de sangue oculto nas fezes para diagnosticar patologia do trato digestivo e o parasitoló- gico de fezes. Então, o pacote principal é coberto pela lista do HCor. Mas os vilões hoje apontam muito para o triglicérides e a glicemia”, menciona.

'80% DOS APARELHOS ESTÃO DESCALIBRADOS'

O presidente do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia), Carlos Augusto de Azevedo, fez uma advertência em Brasília, recentemente, durante audiência pública na Câmara dos Deputados, que discutiu normatização na área de saúde. "Se o equipamento de medir pressão fica descalibrado com o tempo, o que é normal pelo uso, você tem de agir para a calibragem periódica. E isso é muito preocupante no Brasil. Não há essa preocupação nos cursos universitários de medicina e saúde. E no País, nós não levamos isso em conta. O dado é de que 80% dos equipamentos no Brasil estão descalibrados", afirmou na audiência.

Carlos Augusto utilizou o indicador apontado pelo Inmetro para defender a importância da revisão na legislação para a exigência de protocolos seguros de aferição do funcionamento correto de equipamentos na área de saúde. A proposta de projeto de lei passa por audiência pública para a solução do problema. "É imprescindível essa regulação para que se assegure a verificação não só do material de fabricação como também a calibragem dos equipamentos. Isso é ação fundamental para a política de segurança na saúde no País", disse.

"O fator de risco em checagens comuns, como o equipamento de pressão, está presente já no desespero. Se a pessoa colocar na cabeça que está hipertenso, é bem difícil tirar isso dele. Se dava muito valor aos aparelhos de pressão de pulso e eles estão sendo muito execrados. E a aferição da pressão, se for levada a ferro e fogo, a pessoa tem que ir descansada, relaxada, deve ser medida deitada. Por isso é que o ideal é conversar. E uma só medida não oferece o elemento necessário para muitos casos. Por isso é que a forma de coleta, a condição do paciente e a calibragem do equipamento são elementos fundamentais nessa discussão. A questão não é um ponto só a ser levado em conta".

O médico e secretário municipal de Saúde, José Eduardo Fogolin, comenta sobre a informação do Inmetro. "É um instituto de referência que detém todos os instrumentos e profissionais, junto com a Anvisa, para ação de eficácia na área de equipamentos de saúde. Não chegou nada formal para os secretários de Saúde do Estado de São Paulo referente à audiência pública ocorrida em Brasília. É notório que todo o equipamento que tenha processo de calibragem, seja métrico ou numérico, passe por revisão periodicamente. Os equipamentos da rede têm um processo periódico nesse sentido. Já os digitais exigem outra adequação. Há necessidade de avaliar o apontamento de 80% trazido pelo Inmetro. E isso certamente virá via Ministério da Saúde, por ser uma questão nacional".