Bauru e grande região

Geral

Motorista estressado se desconcentra e aumenta risco de mortes no trânsito

É o que diz estudo da Unifesp junto com a Unesp de Bauru e uma Universidade da Holanda

por Tisa Moraes

18/11/2017 - 07h00

Samantha Ciuffa
Professor Sérgio Tosi Rodrigues e a aluna Gisele Chiozi Gotardi no simulador da Unesp de Bauru que foi utilizado para a pesquisa

O estresse provocado pelo trânsito carregado e condutores atormentados pelas pressões do dia a dia são um fator de risco para acidentes, conforme demonstrou estudo realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em cooperação com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru e a Universidade Livre de Amsterdã, na Holanda. A pesquisa revelou que quem pega o carro nervoso tem o nível de atenção e a capacidade motora comprometidos, resultando em menor habilidade para a tomada rápida de decisões.

Em uma sociedade em que a tolerância e o equilíbrio emocional ainda parecem estar longe do ideal, o alerta ganha maior importância, especialmente às vésperas do Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes de Trânsito, celebrado nesse domingo (19).

O estudo foi realizado para a dissertação de mestrado da aluna da Unifesp Gisele Chiozi Gotardi, graduada em educação física pela Unesp de Bauru. E foi no câmpus local que os experimentos laboratoriais da pesquisa foram realizados.

Professor doutor do departamento de educação física da Unesp, Sérgio Tosi Rodrigues explica que o estudo prático consistiu em manipular a ansiedade de 40 pessoas em laboratório durante a tarefa simulada de dirigir um automóvel. Para tanto, foram utilizados um simulador de direção conectado a um programa de computador e a um rastreador de olhar, equipamento importado dos Estados Unidos, conhecido como “eye tracker”.

“Ele é capaz de apontar, em diferentes situações, para onde a pessoa está olhando na tela do simulador, como retrovisores e a pista, por exemplo. A intenção foi analisar o padrão de uso da visão para o controle dos movimentos de braços e pernas enquanto a pessoa dirige, uma associação de habilidades que ocorre o tempo todo na vida real”, detalha Rodrigues, que já orientou outras pesquisas na área de comportamento motor vinculado ao trânsito.

“Em geral, a ansiedade reduz a absorção de informações que chegam à visão. Até um certo nível, pela filtragem de informações que nada tem a ver com a atividade de dirigir, isso pode ser benéfico. Mas se o nível de estresse se eleva muito, informações relevantes começam a ser perdidas, deteriorando a performance do motorista e aumentando os riscos”, acrescenta.

O DESAFIO

Para este estudo mais recente, foram aplicados questionários aos 40 motoristas, com a intenção de delimitar dois diferentes perfis: os chamados alto reinvestidores (AR), mais vulneráveis às condições de estresse ou ansiedade, e os baixo reinvestidores (BR), menos vulneráveis e, portanto, menos suscetíveis a perder a atenção durante a execução de uma tarefa.

E o desafio, neste caso, foi dirigir o simulador em duas situações: uma em ambiente quieto, para determinar um padrão de “controle” para cada condutor, e outra em condições adversas. “Nesta última, estabelecemos competições entre os participantes para criar um ambiente de ansiedade e colocamos barulhos de trânsito, um avaliador atrás da pessoa e uma câmera na frente, para ela sentir que estava sendo analisada. E o resultado foi que os AR, mais ansiosos, bateram mais o veículo, cometeram mais infrações e controlaram por menos tempo a velocidade previamente determinada como ideal”, observa Gisele.

O uso de um monitor cardíaco durante as provas também comprovou que os motoristas com este perfil mais “nervoso” sofreram mais alterações nos batimentos. O teste também dividiu os participantes entre condutores experientes e novatos, demonstrando que os que possuem menos tempo de CNH tendem a ser menos atentos em situações de estresse.

‘De corpo e alma’

Na rotina do trabalho da Polícia Militar, a associação entre acidentes de trânsito e estresse são sempre percebidas. Comandante do Pelotão de Trânsito da PM, o tenente José Sérgio de Souza relata que não são raros os casos em que a pressa e a intolerância resultam em colisões e até mesmo brigas entre motoristas.

"A pessoa estressada tem uma tendência maior a cometer infrações de trânsito, como exceder o limite de velocidade e atravessar o semáforo vermelho ou uma via preferencial, além de ficar mais desatenta, podendo provocar acidentes graves. Um outro aspecto é que ela tende a buzinar e discutir mais, podendo deixar, inclusive, outros condutores sob estresse, atrapalhando o trânsito", ressalta.

Como "remédio" para evitar tensões e situações de risco, o tenente recomenda que os motoristas, ao tomarem a decisão de assumir o volante, executem esta atividade "de corpo e alma". "Assim, eles conseguem reagir a tempo, por exemplo, diante de uma situação inesperada. É preciso dirigir com consciência e prudência, lembrando que os veículos maiores devem zelar pelos menores e todos pelo pedestre", completa.