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Entrevista da semana: Cleide Queiroz

Passando alguns dias em Bauru, a atriz contou sobre os quase 50 anos de carreira no teatro e comentou a homenagem que recebeu do Grupo Ato

por Ana Beatriz Garcia

21/01/2018 - 07h00

Malavolta Jr.
Cleide Queiroz na biblioteca agora batizada com seu nome

A talentosa e bem-humorada, Cleide Queiroz, de 77 anos, fez das experiências difíceis de sua vida, arte. Sempre aberta ao aprendizado, a atriz teve uma infância feliz, mas curiosa. Aos 29 anos, iniciou a carreira na companhia de um dos maiores atores do Brasil, Paulo Autran. Em São Paulo, fez seu nome entre os grandes do teatro, além de trabalhos na televisão e no cinema.

Nas proximidades de seus 50 anos de carreira - sem somar 14 anos de teatro amador - Cleide protagoniza o monólogo sobre Stela do Patrocínio (1941-1997). Uma personagem real que, diagnosticada como esquizofrênica, passou a maior parte da vida internada em manicômios. "Já levamos psiquiatras para ver, conseguimos que membros da associação de psiquiatria fossem assistir. No mês de julho, o pessoal da USP fazia debates após as sessões. Fico muito feliz em abordar esse tema", afirma.

Com sorriso no rosto, vestido laranja e um abraço apertado, a atriz recebeu a reportagem no Ponto de Cultura Gente Legal, em Bauru, do Grupo Ato, onde foi homenageada com uma biblioteca com o seu nome.

Leve, apaixonada pela vida e pela liberdade, Cleide se casou por duas vezes e não teve filhos, mas fez dos encontros proporcionados pelo teatro, sua casa.

"Eu faço brincadeira em cima da vida. Costumo dizer que eu não tenho uma carreira, eu tenho uma corrida. E o pessoal diz que a felicidade não existe e que eu levo tudo na brincadeira. Se eu levasse a sério tudo que eu passei na minha vida, eu já estaria internada", revela. Leia mais.

Divulgação
Cleide Queiroz no musical "Erêndira", em Viena, na Áustria 

Jornal da Cidade - Como e onde foi a sua infância?

Cleide Queiroz - Foi muito engraçada - bem, tudo eu acho engraçado -, mas foi peculiar. Cresci em Santos. Eu tinha meus pais e uma madrinha que ia me visitar. Depois, descobri que essa madrinha era, na verdade, minha mãe biológica e o casal, meus padrinhos de batismo. Eu era bem pequena quando fui embora com a minha mãe, mas ela era muito jovem e me deixava sozinha para ir a alguns bailes. Certo dia, uma portuguesa amiga dela, que morava nos fundos, pediu para ficar comigo e eu fui 'roubada' novamente. Ela tinha oito filhos biológicos e cinco adotivos, eu era uma delas.

JC - E como se deu sua relação com essas duas mulheres?

Cleide Queiroz - Eu tive mais contato com a minha mãe biológica quando eu já estava adulta. Mas cuidei das minhas duas mãezinhas até elas irem embora. Eu conciliava o teatro em São Paulo com as idas a Santos para cuidar da portuguesa. Sou muito grata a ela. Foi ela quem me ensinou tudo que eu sei. Aprendi a trabalhar, fazer bordado, cozinhar, lavar, passar, encerar. Fui criada por mulheres incríveis.

JC - Em qual momento o teatro passa a fazer parte da sua vida?

Cleide Queiroz - Foi quando comecei a estudar no Senac. O diretor de lá perguntou quem gostaria de fazer parte do teatro amador e eu fui a primeira - e única - a levantar a mão. Foi em 1954 que eu comecei e não parei mais. Participei de vários festivais, que tinha uma força muito grande no Interior, naquela época.

JC - E a estreia no teatro profissional?

Cleide Queiroz - Foi em 1969, quando me mudei para São Paulo, sem conhecer ninguém, com a minha amiga Lizette Negreiros. Eu era apaixonada por "Morte e Vida Severina". Quando soube do teste para a peça, eu fiz e passei direto. Sabia todas as músicas e os textos. Rodamos o Brasil com ela, com a companhia do Paulo Autran. Foi uma experiência incrível.

Malavolta Jr.
A atriz feliz com a homenagem prestada pelo Grupo Ato

JC - Como foi a relação com esse nome de peso, Paulo Autran?

Cleide Queiroz - Ele estava em férias e só entrava no final da peça. Nos ensaios, a gente usava um caixote no lugar dele e o pessoal falava 'Olha! É o Paulo Autran quem vai estar aí' e eu levava com tranquilidade, na brincadeira. No dia que ele chegou, começamos a ensaiar e, quando dei de cara com ele, eu fiquei muda e comecei a chorar. Era o Paulo Autran, já era o grande ator do teatro. Ele começou a brincar comigo. Aí voltei e fizemos de novo. Ele era um mestre, ensinava teatro para gente.

JC - Depois da turnê pelo Brasil, como se consolidou sua relação com o teatro, morando em São Paulo?

Cleide Queiroz - Como eu tinha feito um curso técnico de secretariado, comecei a trabalhar nessa área para me manter na Capital. Sempre de olho nos anúncios de testes e sem parar com o teatro. Quando percebi que os empregadores de secretariado circulavam a minha idade - na época com uns 36 anos -, comecei a me dedicar só ao teatro. Entrei para uma companhia de teatro. Fazíamos muito teatro político, mas fiz muitos musicais - a maioria. Com o Gabriel Vilella, por exemplo, tive a oportunidade de fazer cinco trabalhos, inclusive, "Gota dÁgua", de Chico Buarque e Paulo Pontes. Aprendi muito com todos, cada diretor é um professor.

JC - Você também fez trabalhos na televisão com em "A Favorita", da Rede Globo e "Carandiru", por exemplo, no cinema. Como foram essas experiências?

Cleide Queiroz - Por conta da forma como os diretores sempre nos encaminharam, minha cabeça nunca foi feita para televisão, mas aí você vai trabalhando, as pessoas te conhecem e começam a te chamar. Eu morro de medo de fazer televisão, fico tensa. Mas coloco minha verdade e faço. Cinema eu gosto mais. Mas meu grande amor é o teatro.

João Caldas/Divulgação
"Palavras de Stela" é o trabalho mais recente de Cleide

JC - Você também fez peças fora do Brasil, certo? Onde se apresentou?

Cleide Queiroz - Com o Ismael Ivo foram duas vezes, com o espetáculo de dança "Erêndira". A primeira nós abrimos a bienal de Veneza, em 2005. Fizemos em Viena, na Áustria, e apresentamos em São Paulo, no Sesc Pinheiros. Eram 35 bailarinos e eu.

JC - Seu mais recente trabalho é 'Palavras de Stela', peça inspirada na vida e obra de Stela do Patrocínio. Como é sua ligação com essa mulher?

Cleide Queiroz - Assim como a Stela, minha mãe biológica e outras oito pessoas da minha família tiveram esquizofrenia. Por isso, pensei em não fazer o papel. Mas o Elias Andreato, que é o diretor, e o Carlos Moreno me deram a maior força e eu resolvi encarar. Nos ensaios, elementos da minha experiência também foram sendo incluídos com a maior delicadeza na peça, como os surtos que a minha mãe tinha.

JC - A turnê continua neste ano ou chegou a aposentadoria?

Cleide Queiroz - Sim, a produção já me avisou que não posso cortar o cabelo (risos). Mesmo tratando de um tema tão pesado e difícil, saio feliz e leve das apresentações. Não vamos colocar em cartaz, por que está difícil em São Paulo, mas vamos vender por cidades do Interior. Depois de Stela, não tenho planos. Deixo rolar.

JC - Com toda essa carreira, como deu seu encontro com a cidade de Bauru?

Cleide Queiroz - Bauru é minha casa (risos). Eu conheço a Beth e o Carlos Batista, do Ponto de Cultura Gente Legal, desde 1985, quando eles moravam em São Paulo. Eles vieram para cá e eu também.

JC - Qual é a sensação de receber essa homenagem, agora tendo uma biblioteca com o seu nome?

Cleide Queiroz - Estou muito feliz. Ainda mais porque vi, estou aqui na biblioteca. Tenho muitas coisas em casa que ganhei de grandes diretores. A gente lê muito quando estuda teatro. Precisava doar esses livros e eles virão todos para cá, para ajudar esse trabalho lindo que eles realizam aqui.