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Entrevista da Semana: Marcia Regina Negrisoli Fernandez Polettini

Primeira mulher eleita à presidência da OAB Bauru, ela fala de sua chegada na cidade, dos detalhes da trajetória profissional e de sua afinidade pela temática de igualdade

por Ana Beatriz Garcia

09/12/2018 - 07h00

TALENTO FEMININO NO DIREITO DE BAURU

Fotos: Arquivo Pessoal
Marcia Negrisoli acredita que sua gestão na OAB Bauru possa ajudar no processo de empoderamento feminino

Marcia com o marido Ricardo Polettini, que conheceu em Bauru

Nascida na Capital, a advogada Marcia Negrisoli aprendeu desde cedo a importância de correr atrás de seus objetivos com muito trabalho e determinação. A jovem que chegou aos 17 anos em Bauru nem imaginava que faria história na cidade.

Aos 39 anos, Marcia conquistou um posto que, em 86 anos, nenhuma outra mulher ocupou. A emoção e a responsabilidade de ser a primeira representante feminina eleita presidente da subseção de Bauru da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) revelam força e garra que ela garante ter herdado da mãe, sua grande inspiradora.

Em sua carreira profissional, a advogada foi presidente das Comissões de Direito Empresarial, da Mulher Advogada e da Escola Superior de Advocacia da OAB-Bauru, onde atualmente está como vice-presidente. Assumirá a presidência da entidade no próximo ano. Nessa entrevista, Marcia ainda revela que em seu mestrado em direito constitucional aproximou-se da temática dos direitos humanos, área que defende fortemente.

A mãe Lourdes, que a inspirou, e a filha Gabriela, de 4 anos

Nos 25 anos do escritório, Marcia e o sócio, o advogado Luiz Fernando Maia, recebem Moção de Aplauso na Câmara

Caio Augusto Silva dos Santos, Marcia e Alessandro Biem

Delicada e simpática, Marcia recebeu a reportagem no escritório de advocacia em que começou a trabalhar como estagiária e hoje é sócia. E, nada disso seria possível caso ela não tivesse optado pelo direito quando ainda cursava o segundo ano de engenharia civil, na Unesp, curso que a trouxe à cidade. Leia mais:

Jornal da Cidade - Como são as lembranças da sua infância?

Marcia Negrisoli - Eu nasci em São Paulo e morei lá até os 17 anos. Meus pais se separaram quando eu tinha 5 anos e eu fui criada pela minha mãe junto com a minha irmã, Raquel, porque meu pai mudou de cidade. Minha mãe sempre trabalhou fora. Ela sempre foi um grande exemplo para mim de mulher batalhadora. Eu via todo o esforço, o trabalho e a determinação dela para nos criar sozinha. Lembro-me dela acordando às 5h30 para deixar o almoço pronto. O barulho da panela de pressão cozinhando o feijão ficou na minha memória. Meu pai também sempre foi muito trabalhador. Então, eu tenho essa referência de pessoas que lutaram muito na vida para terem uma estabilidade econômica.

JC - Você disse que saiu de São Paulo aos 17 anos. Foi para vir a Bauru?

Marcia Negrisoli - Sim, vim parar em Bauru para fazer engenharia civil, na Unesp. Fiz um ano, não gostei e comecei a fazer direito junto. Depois tranquei engenharia na metade do quarto semestre e segui com o direito.

JC - E como surgiu esse interesse pela engenharia civil?

Marcia Negrisoli - Eu ia muito bem em exatas e meu pai tinha uma construtora. Então, fui um pouco influenciada. Na verdade, quando eu prestei vestibular eu já tinha prestado outras áreas, inclusive, direito. Com 17 anos, não sabia muito bem o que eu queria. Como passei em engenharia em uma universidade pública, resolvi vir.

JC - Como o direito reapareceu na sua vida?

Marcia Negrisoli - Embora eu fosse bem em exatas, eu sempre pendi para a área de humanas. Eu realmente não me familiarizei com a engenharia e já estava em Bauru, morando com amigas, não queria voltar para São Paulo. Na época, só tinha o direito na ITE, era referência e tradicional. Então, resolvi prestar. Gostei muito do curso e me formei em 2001.

JC - Quando você se formou, não quis sair da cidade?

Marcia Negrisoli - Não, eu já estava trabalhando na área. Fiz estágio na Delegacia de Defesa da Mulher, onde fiquei por aproximadamente um ano. Logo depois, comecei a estagiar neste escritório (Maia Sociedade de Advogados), onde eu sou sócia, desde 2002, do doutor Luiz Fernando Maia, que foi meu professor na faculdade.

JC - E você se especializou em que área do direito?

Marcia Negrisoli - Logo que eu saí da faculdade, em 2002, houve a alteração do Código Civil inteiro. Então, eu busquei a atualização com a especialização em direito civil e direito processual civil. Depois, fiz mestrado em direito constitucional, quando publiquei o meu livro "O dever de amparo ao idoso". Já no escritório, minha atuação é em direito empresarial em que coordeno a área trabalhista e de compliance.

JC - Como se deu a sua aproximação com a OAB?

Marcia Negrisoli - Na OAB, nós temos um trabalho também muito voltado para a cidadania, algo que me interessou logo de cara para que eu participasse mais ativamente. Então, eu coordenei as comissões de Direito Empresarial, da Mulher Advogada e, atualmente, da Escola Superior de Advocacia da OAB-Bauru. Em 2013, eu também fui eleita como diretora secretária adjunta junto à coordenação da Comissão da Mulher Advogada. E, desde 2016, sou vice-presidente da segunda gestão do Alessandro Biem.

JC - Você já tinha pensado em ser presidente da instituição?

Marcia Negrisoli - Eu nunca pleiteei para os colegas que eu fosse a candidata, mas por esse histórico de trabalho e pelo grupo entender que a havia a necessidade de se ter uma mulher à frente da instituição pela primeira vez, foi decidido e eu aceitei o desafio.

JC - Como você disse, depois de 86 anos, você foi a primeira mulher eleita à presidência da entidade. Como é ser essa mulher?

Marcia Negrisoli - É uma responsabilidade muito grande, mas eu penso que quebramos um paradigma muito importante para nossa instituição aqui em Bauru, que está entre as 10 maiores do Estado.

JC - O que você acredita que o fato de ser mulher traz como diferencial para essa gestão?

Marcia Negrisoli - Eu vejo como um empoderamento das mulheres, não só das advogadas. Acredito que ter um cargo importante como este à frente de uma instituição de tanto peso como a OAB, ajuda o empoderamento feminino como um todo. Isso estimula outras mulheres a visarem cargos de liderança. Estamos em um caminho de construção desse empoderamento da mulher na advocacia também.

Arquivo Pessoal
A advogada na companhia da irmã Raquel Negrisoli Fernandez

JC - Hoje, sendo representante de tantas mulheres na instituição, como é sua relação com os direitos da mulher?

Marcia Negrisoli - Eu sempre tive um sentimento de justiça e de igualdade muito grandes. Isso foi aflorado, durante o mestrado, mas eu sempre tive o sentimento de que a gente tem de fazer justiça social e de que a igualdade precisa ser respeitada. Eu tive mais proximidade com as questões de gênero quando coordenei a Comissão das Mulheres, mas sempre fui muito defensora dos direitos humanos.

JC - E em casa, como esposa e mãe, como sua família vê essas atribuições? O que você gosta de fazer no tempo livre?

Marcia Negrisoli - Falando em atribuições, eu também leciono na Unip e na Anhanguera, mas vou me afastar no próximo semestre. Uma pena, porque amo dar aulas, mas será complicado já que estou com foco na presidência e no escritório. Já em casa, eu conto com um marido que me apoia muito e que compartilha as atividades domésticas comigo. O tempo que eu tenho de lazer eu dedico à minha filha - que tem 4 anos e já me cobra -, à minha mãe, que já mora em Bauru comigo há quase 10 anos e precisa dos meus cuidados e ao meu marido que, além de jornalista, é músico. Então, temos momentos musicais em casa com a pequena, além de shows aos finais de semana que eu faço questão de acompanhar. Também gosto muito de ler.

JC - Você conheceu o seu marido aqui em Bauru? Ele é bauruense?

Marcia Negrisoli - Sim, nos conhecemos aqui. A história dele é meio parecida com a minha. Ele veio para fazer jornalismo na Unesp e ficou por aqui. Já estamos juntos há 13 anos.

PERFIL

Marcia Regina Negrisoli Fernandez Polettini tem 39 anos

É filha de Lourdes Negrisoli e Manuel Fernandez e irmã de Raquel Negrisoli Fernandez

Casada com Ricardo Polettini com quem teve sua filha, Gabriela Negrisoli Fernandez Polettini

Tem como hobby ler e escutar música

No momento, está lendo Noções Básicas de Antroposofia e, neste ano, entre os preferidos está "Eu sou Malala"

Em relação à música, o estilo preferido é o rock

E o time do coração é o Palmeiras

Contato: [email protected]