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Após 10 anos, ex-moradores de rua passarão Natal com família

Adrieli e Filipe estão entre as 15 pessoas que, anualmente, em Bauru, voltam a ter vida longe das drogas e do risco nas ruas

por Marcele Tonelli

16/12/2018 - 07h00

Samantha Ciuffa
Gustavo Severino e Débora Gonçalves Sérgio: uma vida nova

O 25 de dezembro deste ano terá um sentido especial para o casal bauruense Adrieli Carla de Souza Lima e Filipe Bittencourt. Ex-moradores de rua, eles voltaram para a convivência familiar nos últimos meses, após largarem de vez o vício e estabilizarem suas vidas. Neste Natal, a rua será apenas o caminho para que eles cheguem até a ceia na casa dos familiares, que não frequentam há 10 anos.

O casal em questão integra um universo de 15 pessoas que, anualmente, deixam a vida de risco das ruas da cidade, após passarem por atendimento no Centro Pop, que integra a rede de assistência social voltada à população de rua, que registra população média de 100 pessoas.

Como forma de homenagear essas pessoas, a Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes) e a Casa do Garoto  realizaram uma confraternização de Natal no Centro Pop, em 13 de dezembro. Adrieli e Filipe e outros dois casais, além de mais duas pessoas, foram homenageados e presenteados.

"São pessoas, em sua maioria, que saíram de casa ainda jovens e entraram nas drogas por motivos diversos, entre os principais estão conflitos familiares, frustração emocional e profissional, ou ainda por esquizofrenia ou transtornos psiquiátricos", comenta Fátima Monari, diretora do Departamento de Proteção Social de Sebes.

NATAL EM FAMÍLIA

Samantha Ciuffa
Adrieli Carla de Souza Lima e Filipe Bitencourt com o pequeno Vitor

"Não vejo a hora de chegar o Natal para reunirmos com a família toda. Isso não tem preço. Na rua, vivíamos para a droga, dia e noite. Voltar à vida e ter nossa casa é maravilhoso. Foi como ressuscitar de um pesadelo", conta Adrieli, hoje com 29 anos.

Companheiro dela, Filipe, 25 anos, conta que a conheceu ainda na adolescência e que a gravidez foi o que fez com que eles decidissem largar de vez a vida do vício e das ruas. Juntos, eles passaram cerca de 6 meses internados em uma clínica de reabilitação com foco em deixar o crack.

Fruto do relacionamento, Vitor Hugo, de 5 meses, mora com o pai e a mãe em uma casa ainda mantida pelo aluguel social.

"Começamos tudo do zero. Só tínhamos cobertas. Graças a Deus muita gente nos ajudou. Hoje, tenho minha dignidade de volta, sou um cara feliz, com uma mulher e um filho maravilhosos", conta o rapaz, que ainda vive de bicos. "Infelizmente, o preconceito ainda é grande, somos taxados de vagabundos e muita gente acha que, por ter morado na rua, a gente não vai se enquadrar no mercado de trabalho. Mas não vou desistir, eu fiz curso de repositor e busco uma vaga", completa.

"E eu sonho em trabalhar em um mercado, mas preciso esperar o bebê crescer", acrescenta Adrieli.

7 MESES

O casal Débora Gonçalves Sérgio, 26 anos, e Gustavo Severino, 36 anos, também se orgulha dos sete meses que estão fora das ruas. Há dois anos, quando ela engravidou, Gustavo construiu um barraco atrás da Sebes, onde funcionava o Centro Pop. Posteriormente, eles passaram a viver em uma casa por meio do aluguel social. A guarda da criança, no entanto, foi tirada temporariamente.

"Estamos conseguindo pagar o aluguel, agora. Eu faço faxina e ele serviços de jardineiro. Não usamos mais droga nenhuma", cita Débora.

Neste Natal, o maior desejo do casal é reaver a guarda da filha de 1 ano e 2 meses. "Todo final de semana nós ficamos com ela, mas é triste ir embora e ter que deixá-la", reforça a mulher.

EMOÇÃO

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Sueli Mello se emociona com as histórias de vida no Centro Pop

O evento no Centro Pop foi marcado por emoção. Entre os 9 funcionários da unidade estava a assistente social coordenadora Sueli Mello, que atua desde 2011 na unidade. "Desde 2012, essas são nossas histórias mais marcantes. Quando a Adrieli chegou aqui ela era meio agressiva, mas tudo mudou. Eu me emociono ao ver que vencemos. Muita gente não acredita nesse serviço, mas nós sabemos o quanto essas oportunidades são importantes para essas pessoas. Tudo isso nos dá força para continuar a batalha", finaliza Sueli.

Foco em 2019

Em processo de deixar a rua, Patrícia Rodrigues de Lima, 25 anos, tem passado noites em albergues e dias no Centro Pop. Ela conta que se casou aos 16 anos e que teve quatro filhos, mas acabou entrando nas drogas após a prisão do marido, há alguns anos. Situação que ocasionou a perda da guarda dos filhos, que vivem hoje com um tio. "Eu tive uma decepção, mas consegui superar e parar. Meu problema é mais maconha e cigarro. Estou focada em sair disso. Sei que é possível. Meu sonho é voltar para minha família. Espero conseguir no ano que vem", projeta.

Serviço

O Centro Pop funciona na Nuno de Assis, 10-77, das 8h às 17h, de segunda a sexta-feira. A rede de assistência pode ser contatada pelo (14) 3234-10 90 ou pelo (14) 99147-8954, que atende das 17h até 0h.