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Mãe e filha morrem em chuva e irmã sobrevive após agarrar em galhos

Luciene do Prado Silva e Bianca Prado da Silva foram surpreendidas pela força da água na Daniel Pacífico; Franciele Prado da Silva foi resgatada

por Tisa Moraes, Márcia Duran, Francisco Brunelli e Cinthia Milanez

21/03/2019 - 00h45

Fotos: Facebook/Reprodução
Luciene Regina do Prado Silva tinha 43 anos

Era para ser mais uma volta para casa, como a de qualquer outro dia comum. Porém, dentro do Ford Fiesta, os sonhos de uma adolescente que se preparava para concluir o Ensino Médio e de uma mulher que havia sido aprovada há pouco tempo em um concurso público foram brutalmente interrompidos pela força das águas.

Bianca Prado da Silva tinha 14 anos

Luciene Regina do Prado Silva, 43 anos, e sua filha, Bianca Prado da Silva, 14 anos, perderam a vida na última quarta-feira (20) à noite após o carro em estavam ser arrastado para o Córrego da Grama, que transbordou na avenida Comendador Daniel Pacífico, na altura da favela São Manuel, com uma intensidade que surpreendeu até os moradores do local.

As vítimas haviam acabado de buscar Franciele Prado da Silva, 20 anos, filha mais velha de Luciene, na faculdade. A jovem estava no banco de trás do veículo e conseguiu se salvar ao segurar em galhos por mais de 30 minutos, até que o Corpo de Bombeiros conseguisse localizá-la. Franciele não teve ferimentos graves e recebeu alta, depois de passar por atendimento médico.

Malavolta Jr.
O Ford Fiesta onde estavam as duas vítimas ficou destruído

Amparada pelo pai, ela participou do velório da mãe e da irmã caçula, que foi marcado por grande comoção e incompreensão diante de tamanha tragédia. Os corpos das duas, encontrados ainda dentro do veículo, foram resgatados na madrugada desta quinta-feira (21) e encaminhados ao IML. A sede do instituto, inclusive, também foi inundada e precisou passar por limpeza para que os exames necroscópicos.

ADEUS

O velório começou por volta das 15h. Consternados, amigos e familiares, que preferiram não se identificar, relataram que mãe e filha viviam um período de felicidade: Luciene porque havia começado há pouco tempo em um novo emprego e Bianca pela expectativa da formatura do Ensino Fundamental no final deste ano e de completar 15 anos no início de 2019, idade que ela desejava comemorar com uma grande festa.

"Ela estava no 9.º ano, estudava no Colégio Batista e tinha o sonho de morar nos Estados Unidos para estudar. Era uma menina cheia de vida", conta uma amiga. Já Luciene trabalhava desde dezembro do ano passado como técnica de enfermagem do setor de pré-parto da Maternidade Santa Isabel.

MORADORES NOVOS

Segundo um parente, a família mudou-se de Pederneiras para Bauru há cerca de três anos e meio para Luciene fazer o curso técnico de enfermagem e também porque Franciele havia começado a namorar um jovem morador da cidade. Pai, mãe e as duas meninas moravam no Bela Vista, a cerca de um quilômetro de distância de onde a tragédia aconteceu. "A Luciene e a Bianca tinham ido na casa de amigos em Piratininga e, depois, foram buscar a Franciele na faculdade", conta o parente. Seguindo os passos da mãe, Franciele cursa enfermagem nas FIB.

Fotos: Malavolta Jr.
Interior do carro ficou destruído após ser arrastado com mulher e filhas, em córrego que inundou av. Daniel Pacífico

Segundo o tenente Victor Félix Tozi Bomfim, relações públicas do 12.º Grupamento de Bombeiros, a irmã mais velha foi localizada no córrego a cerca de 150 metros de distância da avenida, em um local próximo à margem. Ela permaneceu por mais de meia hora agarrada em galhos.

"Ela já estava bastante fraca, com água na altura da cintura. Era difícil ouvir a voz dela, porque já estava falando baixinho, mas estávamos atentos, usando lanternas, e conseguimos ouvi-la pedindo socorro, encontrá-la e resgatá-la pela margem", detalha.

O velório de Luciene e Bianca ocorre no salão nobre 1 do Centro Velatório Terra Branca, na quadra 5 da rua Gerson França, no Centro. O sepultamento será realizado às 10h de hoje, no Cemitério Jardim dos Lírios, em Bauru.

LUTA PELA VIDA

Segundo testemunhas, o veículo em que estavam Luciene, Bianca e Franciele foi arrastado para dentro do rio por volta das 23h30 da última quarta-feira (20). A única sobrevivente da tragédia relatou para familiares que elas estavam retornando para casa, quando foram surpreendidas pela inundação na parte baixa da Daniel Pacífico.

"Ela disse que a correnteza estava muito forte e que o carro virou. Todo mundo começou a gritar muito. A Franciele estava no banco traseiro, sem cinto, e relatou que tentou quebrar o vidro, mas não consegue se lembrar de como saiu do veículo", conta um parente.

Segundo uma amiga da família, Luciene e Bianca estavam no banco da frente, com cinto, o que pode ter dificultado a tentativa delas de sair do Ford Fiesta. Aos parentes, Franciele contou que, já no meio da correnteza, enquanto tentava nadar, viu o carro girando com a força da água e descendo o rio.

"Ela ficou por meia hora, quarenta minutos se segurando nos galhos, esperando o resgate. Ela engoliu muita água suja e passou mal depois, mas teve muita força para continuar viva", completa a amiga.

Outro veículo foi levado

Além do Ford Fiesta, outro veículo também foi levado pela correnteza para dentro do rio, mas a condutora foi socorrida a tempo por populares, quando o carro ainda estava em uma parte mais rasa da enxurrada. Um terceiro veículo e um ônibus também “rodaram” no local, mas ninguém ficou ferido. “Enquanto retirávamos o motorista de dentro do ônibus, o veículo que havia sido abandonado pela condutora ajudada por populares acabou caindo, quando ocorreu o desbarrancamento da pista. Neste momento, o veículo com as vítimas fatais já tinha sido arrastado”, detalha o tenente Tozi.

‘Ela queria ser investigadora’, conta uma das melhores amigas de Bianca

Malavolta Jr.
Eduarda Mota (foto) era amiga de Bianca Prado da Silva e disse "não dá para acreditar"; elas estudaram juntas

Bastante consternada, a estudante Eduarda Mota, de 15 anos, foi uma das primeiras a chegar ao velório da sua melhor amiga, Bianca Prado da Silva, de 14, na manhã desta quinta-feira (21). "Não dá para acreditar", desabafa. 

Bianca estudava na sala de Eduarda, ou melhor, no 9.º ano do Ensino Fundamental 2 do Colégio Batista. Inclusive, a escola suspendeu as aulas e publicou a seguinte nota via Facebook: "Em meio à grande dor e imensa perda, nós, do Colégio Batista, choramos e oramos pela família da nossa querida aluna Bianca".

Uma hora antes do acidente, Eduarda conversava com a amiga pelo celular. "Ela queria ir bonita à escola para agradar o garoto de que gostava", revela.

Ainda segundo a estudante, Bianca era uma garota sociável e inteligente. "Sonhava ser investigadora de polícia", observa.

Prima de Luciene e Bianca, a dona de casa Cristina Campos, de 45 anos, conta que a família, que era de Pederneiras, se adaptou bem em Bauru. "Eles eram muito felizes por aqui", constata.

23 pessoas resgatadas

Ao todo, 23 pessoas foram socorridas pelo Corpo de Bombeiros durante as duas horas de chuva forte. Ao todo, 16 homens da corporação atuaram nas ocorrências.

O Centro de Operações do Corpo de Bombeiros atendeu 66 ligações via 193. As ligações começaram a partir das 22h30. Dentre essas 66 ligações, 40 foram reiterações de chamadas anteriores. O efetivo ainda deu apoio a seis ocorrências da Defesa Civil.

Homem tentou socorrer: 'Quando cheguei ao veículo, já era tarde'

Malavolta Jr.
Rafael Maurício Heleno tentou ajudar a vítima. "Quando cheguei ao carro, já era tarde", disse

Por pouco, o comerciante Rafael Maurício Heleno, 34 anos, não conseguiu salvar Luciene e Bianca. "Quando cheguei ao carro, já era tarde", desabafa.

No momento em que a água levava o veículo, o comerciante chegava à sua chácara, que fica em frente ao rio. Informado por testemunhas de que o Ford Fiesta transportava uma criança, Rafael não pensou duas vezes antes de enfrentar a enxurrada. "Eu conheço bem o local, porém, infelizmente, não deu tempo de salvá-las", lamenta.

Ainda de acordo com o morador, as duas vítimas estavam dentro do carro, cujo para-brisas havia quebrado, provavelmente, devido ao impacto junto às pedras. O Fiesta também abrigava muita água. "Não tinha mais o que fazer", acrescenta.

Morador de um sobrado que fica em frente ao Córrego da Grama, na avenida Daniel Pacífico, Aparecido Donizete dos Santos também viu quando tudo aconteceu. "Foi rápido, não deu tempo de socorrer. Desci correndo do sobrado onde moro, mas o carro já tinha tombado e ido embora. Foi um rio de água", relembra.

O morador, contudo, conseguiu ajudar, momentos antes, uma mulher que também tentou passar pela avenida naquele ponto. "O carro foi arrastado, as duas rodas ficaram penduradas. Ela gritava por socorro e a água continuou subindo", detalha.

Segundo ele, como o veículo foi deslocado para uma área em que a água estava com menor profundidade, os moradores conseguiram tirar a mulher do veículo. Pouco tempo depois, o carro foi levado para dentro do córrego.

Já a atendente Cislly Souza Silva, 26 anos, chegou do trabalho tarde da noite, momento em que se surpreendeu com a movimentação. "Ouvi dizer que elas passaram pela água, mas, no meio do caminho, decidiram voltar. Não deu certo".

Para a moradora, esta foi a primeira vez em que algo do tipo ocorre naquela região. "Outro carro e uma moto também foram arrastados pela enxurrada. Por sorte, mais ninguém se feriu", observa.

A dona de casa Iracy Santos de Almeida, 47 anos, vive na quadra 2 da avenida Pinheiro Machado, a poucos metros do local de onde os veículos foram arrastados. "Nunca tinha visto algo tão grave", finaliza.

João Jabbour
Situação na qual ficou a avenida Daniel Pacífico, após chuva e inundação de córrego

Reprodução Facebook
Nuno de Assis com Araújo Leite inundada
Fotos: Márcia Duran
Passarela de pedestres foi arrancada e estrutura arrastada por uns 300 metros
Guincho retira carros atingidos pela chuva, amassados e de difícil remoção devido à lama

Aceituno Jr.
4 veículos ficaram ilhados na Nuno de Assis

Veja os vídeos:

Márcia Duran
Por volta das 2h desta quinta-feira (21) o leito do Rio Bauru voltava ao seu curso normal