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Entrevista da Semana: Cleiton José Senem - 'É tempo de renovar-se e de celebrar a vida'

O psicólogo afirma que a Páscoa é uma boa oportunidade para entender que todos nós passamos por momentos de crise, mas a vida não termina

por Giselle Hilário

21/04/2019 - 07h00

Malavolta Jr.
Cleiton José Senem: "O ideal seria que a gente pudesse compreender a psicologia como uma área de conhecimento, uma ciência, uma profissão que nos ajuda a nos conhecer, a desenvolver nossas potencialidades"
 Nos últimos tempos, tem crescido a necessidade da psicologia para ajudar as pessoas a lidar com os próprios conflitos, diz Cleiton José Senem
Arquivo pessoal
Cleiton com a esposa Dieniffer e os filhos Fernando e Marcelo

A Páscoa, para os cristãos, é tempo de renovação. É a celebração de passagem da morte para uma vida nova. É momento ideal para redescobrir-se e celebrar a vida, diz Cleiton José Senem, 39 anos e 11 meses (apaga velinhas dos 40 amanhã, 22). Natural de Ituporanga (SC), Senem está na região de Bauru desde 2007. Veio para essas bandas aos 28 anos, para trabalhar e estudar. E fala com propriedade sobre o tema. Por quê? Aos 12 anos, entrou para o seminário, em Ituporanga. Foi diretor da Escola do Seminário de Agudos durante 3 anos. Nesse tempo, começou a fazer psicologia na Universidade do Sagrado Coração (USC), onde hoje é coordenador do curso. Antes de vir para Agudos, fez filosofia, em Curitiba (PR), e teologia, em Petrópolis (RJ). Em 2010, quando deixou a direção da Escola do Seminário de Agudos, foi convidado pela irmã Ilda Basso, vice-reitora e pró-reitora acadêmica da USC, a dar aulas de ética e cultura religiosa na instituição. Enquanto terminava o curso de psicologia, fez especialização em antropologia cultural, na USC. Quando concluiu a graduação em psicologia, foi convidado assumir a área de psicologia escolar. Senem ainda tem mestrado em psicologia do desenvolvimento e é doutorando na mesma área. Atualmente, é professor de ética e cultura religiosa e atua na área da psicologia escolar. Também dá aulas de ensino religioso no Colégio São José para os oitavos e nonos anos e é coordenador do curso de Psicologia da USC. 

JC - A maior parte do seu trabalho, hoje, é voltada para a área da psicologia que, entre outras coisas, trata do comportamento humano, do indivíduo. Diante das agruras da vida moderna, é um profissional indispensável, hoje?

Cleiton José Senem - Temos percebido que, nos últimos tempos, a necessidade da psicologia para ajudar as pessoas a lidar com os próprios conflitos, dificuldades, crises, tem se tornado cada vez mais uma urgência. Claro que a psicologia não é utilizada apenas quando a pessoa está em crise. O ideal seria que a gente pudesse compreender a psicologia como uma área de conhecimento, uma ciência, uma profissão que nos ajuda a nos conhecer, a desenvolver nossas potencialidades, capacidades, mas também nos ajuda a lidar com nossos conflitos e dificuldades, sejam elas comportamentais, emocionais, afetivas, e assim por diante.

JC - Mas não é bem assim que as pessoas veem. 

Senem - Não. A psicologia é relativamente recente no Brasil, do início da década de 1960. E uma das grandes representações da psicologia ainda é o psicólogo clínico. Eu tenho uns 30 alunos, no mínimo, espalhados pelas escolas de Bauru fazendo estágio em psicologia escolar. E quando os alunos chegam para falar com os adolescentes eles dizem: "Eu não preciso de psicólogo. Eu não sou louco". Então, é um trabalho de psicoeducação ajudar a sociedade a perceber que o profissional de psicologia não apenas trabalha com pessoas com doenças mentais, depressão etc., mas está aí para ajudar as pessoas a se conhecerem e a desenvolverem suas potencialidades.

JC - Hoje, vemos que boa parte dos jovens tem dificuldades para lidar com a pressão, por exemplo.

Senem - E isso em todos os níveis, do ensino fundamental ao universitário.

JC - É por conta da carga forte demais que muitos pais jogam sobre as crianças?

Senem - Há vários fatores envolvidos. A gente percebe que muitos pais não conseguem dizer "não" para seus filhos, por exemplo. Uma criança que cresce sem ouvir "não", que não percebe que não se pode fazer tudo do jeito que quer e na hora que quer, não consegue viver em sociedade. Quando chega na sala de aula e o professor diz "não", como é que ela lida com essa frustração? É necessário que os pais entendam que dizer "não" é necessário. Que as crianças e jovens precisam de limites. Em sociedade, não podemos fazer tudo o que queremos e do jeito que queremos.

JC - Você é pai de dois meninos. Como é que lida com a educação deles?

Senem - É preciso buscar o equilíbrio entre o excesso e a falta. É preciso estimular as crianças ao máximo, mas ela também precisa aprender a cair e a se levantar. Aprender que tem coisas que pode fazer e coisas que não pode. É dizer apenas não? Claro que não. É preciso dar alternativas, mas tendo claro que não é troca, mas escolha. É explicar o "não" e o "sim". Isso ajuda a criança a desenvolver a habilidade de fazer escolhas. É assim que fazemos em casa. 

JC - E a escolha nem sempre é fácil.

Senem - O filósofo Jean-Paul Sartre dizia que a gente está condenado à liberdade. E é isso. Temos a liberdade da escolha. Tudo na nossa vida tem escolhas. Às vezes, não temos controle sobre a situação, mas o que você vai fazer em decorrência disso - brigar, aceitar, conversar... - é uma escolha sua. O problema é que, hoje, temos uma cultura que nos coloca a ideia de vida light. E qualquer coisa que nos exija qualquer sacrifício, ninguém quer fazer.

JC - E nesse processo, alguns valores acabam ficando de lado.

Senem - Nós vivemos com questionamento de valores. E isso precisa existir, porque os valores não são universais ou eternos. Eles passam por um processo cultural e precisam ser repensados a cada momento. É a proposta de Nietzsche, inclusive. Só que a impressão que eu tenho é que estamos vivendo num momento em que alguns valores que são importantes. Mas quem não tem valores não sabe para onde direcionar sua vida pessoal. 

JC - Você vê luz no fim do túnel?

Senem - Especialmente como profissional da educação e psicólogo, vejo que existem modos diferentes de organizar nossa vida em sociedade. Se a gente não acreditar nisso, estamos fadados ao pessimismo. E aí, teremos dificuldade em encontrar soluções. O que talvez a gente precise pensar é que as soluções não virão prontas através das instituições, sejam religiosas ou públicas. Olhe para a realidade de Bauru, por exemplo. Está todo mundo preocupado com a dengue, o poder público está mobilizado, mas ainda há pessoas jogando lixo na rua. Quando as pessoas vão assumir a responsabilidade pela sua própria vida? Se a gente ficar esperando que outro resolva, fica complicado. Mas é mais fácil reclamar, esperar pelo outro. E a gente lava as mãos.

JC - E ainda estamos num momento de desvalorização da educação

Senem - A educação brasileira está passando por processo caótico em todos os níveis. É preciso recuperar o entusiasmo dos profissionais da educação, que estão desanimados, estressados, sem sonhos. Acredito profundamente na educação. Ela precisa ser valor fundamental para a sociedade. Não sei se ela é o futuro, mas sei que é o presente. E precisamos nos perguntar: o que podemos fazer concretamente?

JC - Hoje é domingo de Páscoa, que remete à fé, esperança, renovação, mudança...

Senem - Na tradição católica, a Páscoa é precedida pela Quaresma. Há três exercícios propostos para esse tempo: oração, jejum e esmola. E são estruturantes da nossa vida. Quando a gente fala em oração, falamos da nossa dimensão com Deus. Quando falamos na caridade, falamos da nossa relação com o próximo. Quando falamos no jejum, falamos da nossa relação conosco mesmo.  Mas estamos distantes delas. Às vezes, estou muito voltado comigo mesmo, mas esqueço o próximo. Ou muito relacionado com Deus, e esqueço do próximo. A Páscoa é a celebração de passagem da morte para uma vida nova. Nós, a cada dia, temos a necessidade de ritualizar esse processo. Existe o processo de morte, momento de dor, mas não tem sentido celebrar a morte se ele não tiver em vista a vida nova. É um processo pessoal, existe a Páscoa de cada um. Todos nós passamos por momento de morte, de crises, mas a vida não termina. 

JC - Como cada um pode se redescobrir?

Senem - Acho que existem várias fases da nossa vida. Quando estamos construindo a nossa carreira, a nossa vida, diz Jung, nossas energias psíquicas estão voltadas para a conquista. Chega o momento, diz Jung que é em torno dos 40, que a gente começa a parar de olhar para fora, para o que os outros dizem, para as imposições que a gente sofre, e começa a olhar mais para nós. O que eu gosto? O que é importante para mim? A data é subjetiva. Uma boa oportunidade para se questionar, se redescobrir. E se em algum momento da vida a gente não fizer essa análise, corremos o risco de não viver uma vida autêntica.

Perfil

Idade: 39 anos e 11 meses. "Faço 40 nesta segunda"

Esposa: Dieniffer

Filhos: Fernando, 5 anos, e Marcelo, 4 anos

Time: Oficialmente, não. "Mas todo mundo lá em casa é meio corintiano"

Livro de cabeceira: Tantos... "Mas se fosse destacar um e pensando na Páscoa, a Bíblia tem uma sabedoria enorme que a gente ainda não descobriu. É difícil ler a Bíblia, não é um livro simples. Mas especialmente no Novo Testamento, nos Evangelhos, existem sabedorias que nos ajudam a encontrar as três dimensões fundamentais: a transcendental, com Deus, a comigo mesmo e a com o próximo"

Música: Clássicas, mas não há uma específica

Hobby: Ler. "Leio o tempo todo"

Palavra: Amor. "Tem faltado muito nas relações humanas. Mas também gosto de entusiasmo, que é a ideia de você ter Deus dentro de você"

Nota 10: Papa Francisco. "Ele tem sido muito próximo das pessoas, solidário. A religião precisa recuperar o alvor humano E o papa Francisco representa muito isso, por tudo o que tem feito, inclusive identificado e falando sobre os erros"

Nota 0: A toda forma de corrupção. "Inclusive à que as pessoas comuns realizam no dia a dia". Contato: (14) 2107-7073