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Coordenador é exonerado de curso de Medicina da USP e fala em conspiração

O professor José Sebastião dos Santos deixou ontem a coordenação em meio a discordâncias sobre a condução da implantação dos primeiros anos

por Tisa Moraes

11/06/2019 - 07h00

Malavolta Jr.
Além do curso de Medicina, José Sebastião dos Santos deixa a superintendência do Centrinho

Após ter sido exonerado do cargo de coordenador do curso de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) de Bauru e da superintendência do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho), o professor José Sebastião dos Santos afirma que foi alvo de uma "conspiração". A decisão pela saída do curso foi tomada pela Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) em meio a discordâncias sobre a condução do processo de implantação dos primeiros anos da graduação.

O professor se despediu oficialmente dos alunos nessa segunda-feira (10) de manhã, em solenidade que contou com as presenças do presidente da Associação Paulista de Medicina (APM) em Bauru, Marcos Cabello; o secretário municipal de Saúde, José Eduardo Fogolin; e a vereadora e também médica Telma Gobbi. À tarde, Sebastião concedeu entrevista no Espaço Café com Política do JC.

Entre as razões que levaram à saída, ele aponta resistências em relação à grade curricular diferenciada do curso, que prioriza aulas práticas desde os primeiros anos em serviços municipais e estaduais de saúde. Outro motivo foram divergências sobre o perfil de atendimento do futuro Hospital das Clínicas (HC), que tem previsão para começar a ser implantado a partir do ano que vem no conhecido 'Predião' do Centrinho.

O professor Sebastião também reclama da demora para a contratação de seis professores, necessários para garantir a realização das aulas no segundo semestre deste ano. O pedido foi feito pelo então coordenador em fevereiro deste ano.

"A USP tem crédito para contratar estes professores. A demora para a contratação não é um problema de ordem financeira. Senti que houve uma certa conspiração, no sentido de esperar até mudar a coordenação", frisa.

INTEGRAÇÃO

Em entrevista recente ao JC, o diretor da FOB, Carlos Ferreira dos Santos, informou que um concurso público será realizado ainda neste mês. Atualmente, o curso de Medicina conta com a atuação de 38 professores e médicos.

Coordenador do curso de Medicina desde a implantação, no início do ano passado, Sebastião também participou da estruturação do curso desde o segundo semestre de 2017. Ele diz que a grade curricular nova, que traz uma proposta mais interativa, não foi facilmente assimilada pelos docentes, que precisam passar por capacitação.

"A ideia, desde o início, foi integrar, já nos primeiros anos, ciências básicas e ciências aplicadas, que são as clínicas. Esta proposta mais contemporânea foi aprovada pelo Conselho Universitário, mas a FOB queria um curso mais tradicional", afirma ele, destacando que a resistência não foi motivada por um eventual descrédito na eficácia desta metodologia.

"É consenso no mundo que os estudantes são melhor preparados quando interagem com os doentes e com a própria organização do sistema de saúde desde o início. Mas os professores precisam ser capacitados e esta exigência os tira da zona de conforto, cria um novo desafio que demanda estrutura emocional para que reconheçam as próprias limitações", argumenta.

CONCEPÇÃO DO HC

Como resultado do novo modelo, ele aponta que o curso de Medicina da USP em Bauru recebeu boa avaliação no Teste de Progresso Interinstitucional das Escolas Públicas do Estado de São Paulo, conquistando, inclusive, nota melhor do que a alcançada pela medicinas da USP de Ribeirão Preto e da Unesp de Botucatu. Com sua saída da coordenação, ele lembra que o currículo poderá ser alterado apenas se for submetido novamente ao Conselho Universitário. Por meio de nota, a FOB, porém, reforçou seu compromisso com a "formação diferenciada e humanizada dos futuros profissionais de saúde, com atuação na rede pública desde o início da graduação".

Outro ponto que intensificou o desgaste na relação do ex-coordenador com a FOB foi a proposta de estruturação do HC. Na concepção de Sebastião, alguns serviços prestados por outros hospitais, como de otorrinolaringologia e neurocirurgia, deveriam ser transferidos para o 'Predião' para reforçar o atendimento que o Centrinho já oferece.

"Mas a ideia da Famesp sempre foi trazer o Hospital de Base todo para o HC, inclusive a urgência e emergência. No entanto, nossa ideia é que o HB seja um hospital inteiro só de urgência e emergência, como ocorre em Ribeirão Preto, de onde eu venho", comenta, salientando que sua proposta já está nas mãos da Reitoria e do Departamento Regional de Saúde (DRS-6).

Procurado pela reportagem, o diretor da FOB informou apenas que ratifica todas as informações prestadas por ele na matéria "Em busca de estruturação, Medicina da USP contratará mais professores", publicada pelo JC em 1 de junho de 2019.

Sebastião descarta o fechamento

Assim como o diretor da FOB, o professor José Sebastião dos Santos não considera a possibilidade de o curso de Medicina em Bauru ser extinto, com transferência dos alunos para outros câmpus da USP. A previsão, contudo, é de que o número de estudantes por sala só seja aumentado quando a primeira turma se formar, no fim de 2023 - e não mais a partir do ano que vem, conforme inicialmente planejado.

Outro detalhe, segundo o professor, é que a USP já está se preparando para a implantação de oito programas de residência médica, de especialidades como urgência e emergência, ginecologia e obstetrícia, pediatria, saúde da família, CTI, clínica médica e cirurgia. 

"Outra mudança importante, que precisa acontecer logo, é a transformação do curso em faculdade, para criar uma personalidade jurídico-administrativa e garantir maior autonomia à medicina, inclusive para firmar convênios e parcerias", frisa José Sebastião dos Santos.

Dívida da Funcraf

José Sebastião dos Santos acredita que a "gota d'água" para sua exoneração foi a cobrança da conclusão de uma sindicância interna relativa a uma dívida da Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Craniofaciais (Funcraf) com o Centrinho. A primeira dívida, de R$ 1,2 milhão, foi cobrada por ele e devolvida pela entidade há duas semanas.

Porém, um segundo débito, de R$ 3,8 milhões, está há dois anos submetido a uma sindicância interna. "É um recurso que o Centrinho recebeu do SUS e repassou à Funcraf para tocar serviços. Pedi para que concluíssem a sindicância ou, em caso de dúvidas se a fundação deve ou não devolver o valor, ingressarmos no Judiciário. É uma pendência que, a meu ver, precisa ser resolvida para não incorrer em prevaricação", observa.

Encontro na APM hoje aborda saída da coordenação

Hoje, às 10h, a convite do ginecologista Marcos Cabello, presidente da Associação Paulista de Medicina (APM) em Bauru, o professor José Sebastião dos Santos irá à sede da entidade para falar sobre sua saída da coordenação e o futuro do curso de Medicina.

A entrada é gratuita e aberta à comunidade.

A APM está localizada na rua Amadeu Sangiovani, 4-47, na Vila Mariana.

FOB/USP afirma estar empenhada

A FOB se manifestou nessa segunda-feira (10) por nota. "A Faculdade e a Universidade têm empenhado todos os esforços para o desenvolvimento do curso de Medicina. Além da estrutura e recursos comuns a todos os cursos - incluindo Odontologia e Fonoaudiologia -, já foram investidos, a partir de 2018, cerca de R$ 700 mil na estruturação e compra de equipamentos e livros específicos para o curso de Medicina, sem contar a contratação de professores".

Diz ainda que, "atualmente, há professores específicos do curso de Medicina, inclusive contratados recentemente. Novos professores serão contratados no segundo semestre de 2019. Há também professores da FOB que lecionam no curso, além de professores de outras unidades da USP que são colaboradores".

Na nota, a diretoria da FOB/USP e a superintendência do Centrinho dizem que não irão se manifestar especificamente sobre as indicações da Reitoria da Universidade para a superintendência do hospital e para a coordenação da Medicina. Ressaltam, por fim, "o compromisso com o desenvolvimento pleno do curso de Medicina e apoio para a futura estruturação de uma Faculdade de Medicina da USP em Bauru, a implantação efetiva do Hospital das Clínicas e a integração do trabalho já realizado pelo HRAC/USP nesse novo complexo hospitalar, visando uma formação diferenciada e humanizada dos futuros profissionais de saúde - com atuação na rede pública desde o início da graduação -, aliada a uma assistência de excelência à população e à permanente contribuição da universidade com inovações e as políticas públicas".

Conforme noticiou a Coluna Entrelinhas de anteontem, portaria publicada no Diário Oficial do Estado do dia 8 de junho designou o professor Luiz Fernando Ferraz da Silva, da Faculdade de Medicina (FM-USP), e o professor Rodrigo Cardoso de Oliveira, da FOB/USP, como presidente e vice-presidente, respectivamente, da Comissão Coordenadora do Curso de Medicina da USP de Bauru. Ambos já eram membros dessa comissão e atuam como docentes no curso.

Outra portaria designou o professor Carlos Ferreira dos Santos, diretor da FOB/USP, para exercer "pro tempore" a função de superintendente do Centrinho, instituição da qual já era presidente do Conselho Deliberativo e superintendente substituto.