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Em iniciativa inédita, cooperativa sai às ruas em busca de reciclável

Decisão busca reverter queda abrupta na arrecadação

por Marcele Tonelli

23/06/2019 - 07h00

Samantha Ciuffa
Ligado à Cooopeco, Danilo Costa Ferreira de Almeida também recolheu material no Mary Dota, na última quarta-feira; ideia é repetir o trabalho três vezes por semana para que cooperados possam viver com dignidade desta atividade, hoje concorrida

Cansada de sentir os efeitos da queda na arrecadação de materiais recicláveis da coleta seletiva pública, a Coopeco, cooperativa localizada no Parque Paulista, em Bauru, tem saído pelas ruas com caminhão próprio e com foco na coleta domiciliar (orgânicos). Inédita, a ação também conta com parceria da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Bauru e Região (Ascam) e arrecadou em apenas três horas 1,2 tonelada de recicláveis, na última quarta-feira.

Na prática, funciona da seguinte forma: o caminhão da Coopeco se antecipa ao da coleta domiciliar pública em um setor específico (bairros) e recolhe o que não foi separado pela população e iria para o aterro no caminhão da coleta orgânica. A prefeitura diz estar ciente da atividade experimental e que aguarda um estudo prometido pela cooperativa e Ascam (leia mais abaixo).

Com tom de "faça você mesmo", a inciativa pode ser vista também como uma forma de cobrança de atitudes por parte da prefeitura sobre a coleta seletiva pública, que apresentou queda brusca na arrecadação nos últimos anos. A ideia, inclusive, é que a atuação se estenda entre outras duas cooperativas da cidade, que já trabalham com material recolhido pela administração municipal.

QUEDA

No dia 2 deste mês, o JC publicou reportagem alertando para a preocupação das cooperativas de Bauru frente à diminuição do recebimento de recicláveis, oriundos da coleta seletiva. Na oportunidade, lideranças do setor chegaram a cogitar assumir a coleta e transporte do material, que hoje é feita pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) e Emdurb.

"A arrecadação caiu depois que o contrato com a Emdurb foi alterado e o município passou a pagar um valor fixo mensal, ao invés de pagar pela tonelada arrecadada", afirma Gisele Moretti, da Coopeco.

O contrato foi alterado no final de 2017. Antes, o valor era de R$ 549,00 por tonelada, com estimativa de 2.400 toneladas por ano. Depois, a Emdurb ampliou a coleta seletiva para praticamente toda a zona urbana, mas passou a receber um valor fixo de R$ 40 mil mensais por equipe, totalizando R$ 240 mil por mês.

A ação dos chamados atravessadores (que chegam antes da Emdurb com camionete e até mesmo caminhões) também cresceu e prejudicou o serviço. O município prometeu fiscalização e fala em multa que pode chegar a R$ 5 mil, mas é difícil flagrá-los.

AÇÃO

Na última quarta-feira (19), a Coopeco resolveu sair às ruas, das 6h30 as 10h30. Arrecadou com um caminhão próprio dois mil quilos de material, que resultou em 1,2 tonelada de recicláveis para processamento e venda.

"Com a crise, todo mundo passou a ver no reciclável uma oportunidade de ganhar", reforça Gisele. "Viramos atravessadores pela necessidade! Ou era sair por conta própria, ou iríamos ter que cortar pela metade, de R$ 1 mil para R$ 500,00, o ganho do pessoal da cooperativa. Aí, iria complicar de vez. E não queremos fechar as portas, queremos trabalhar", acrescenta.

Por mês, ela diz que a Coopeco tem recebido dos caminhões da coleta seletiva pública cerca de 1,8 tonelada de recicláveis. "Antes, eram 2,8 toneladas", compara.

EXPERIÊNCIA

Em nota, a Prefeitura informa, por meio de sua assessoria de imprensa, que tomou conhecimento da atividade que está acontecendo por parte da Ascam. "É algo a título de experiência para verificação do volume de resíduos recicláveis presentes no lixo orgânico domiciliar, tendo em vista que a prefeitura já está analisando um projeto de cooperação entre a associação e as cooperativas", diz.

O poder público cita ainda que a proposta será colocada em prática buscando um melhor aproveitamento dos resíduos recicláveis para os cooperados que deles tiram a sua subsistência. "Houve uma citação formal ao gabinete para esta experiência por parte desta entidade que é legalmente constituída no município".

'Sem conflitos'

Para não gerar desentendimento com as demais cooperativas que recebem materiais do município, Gisele Moretti diz ter conversado com a Cootramat, localizada no Jardim Redentor, e Cooperbau, na Vila Dutra. "Chamei todos para virem comigo. A Coperbau também quer começar a arrecadação própria. Comentamos com a Cootramat, mas ainda não sabemos se eles também participarão", pontua Gisele, citando ainda ter pedido autorização do próprio prefeito para colocar em prática a experiência.

Entidade quer estudar lixo e fidelizar público

Responsável pela Coopeco, Gisele Moretti diz ter protocolado um ofício na prefeitura prometendo um estudo ao poder público contendo o volume de recicláveis que ainda integra a coleta domiciliar nas regiões atendidas. "Muita gente ainda não separa o lixo em Bauru. Queremos ajudar a prefeitura, indicar caminhos. Nossa ideia, em um segundo passo, é criar uma espécie de campanha e fidelizar o público dos bairros", observa Gisele.

A arrecadação da Coopeco e Ascam acontece 3 vezes na semana, em dias alternados e definidos conforme cronograma estratégico próprio. Por enquanto, a equipe trabalha na região do Núcleo Habitacional Mary Dota. Os endereços específicos não são indicados por receio da ação de atravessadores.