Bauru e grande região

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Idealizador do currículo da Medicina defende manter o modelo humanista

O professor Gerson Alves Pereira Júnior afirma que a metodologia interativa desde o primeiro ano é o grande diferencial do curso bauruense

por Tisa Moraes

27/06/2019 - 07h00

Aceituno Jr.
Professor Gerson Alves Pereira Júnior: “É um currículo que se adequa às necessidades das novas gerações de estudantes”

Em meio a especulações sobre o futuro do curso de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em Bauru, um dos idealizadores da grade curricular diferenciada, o professor Gerson Alves Pereira Júnior, defende a manutenção do atual modelo, que prioriza uma metodologia interativa desde o primeiro ano, com foco na formação humanizada dos alunos. Vindo da USP de Ribeirão Preto especialmente para participar da comissão de implantação do curso em Bauru, Gerson é pesquisador sobre educação médica há 16 anos e demonstra temor diante da possibilidade, aventada nos bastidores da universidade, de que o curso em Bauru possa ter o perfil alterado ou mesmo ser encerrado, com transferência dos alunos para outros campi.

Vale lembrar que, em entrevista recente, a direção da FOB, a qual a Medicina é vinculada atualmente, descartou completamente a possibilidade de encerramento do curso.

Segundo Gerson, o grande diferencial da Medicina da USP em Bauru é a aprendizagem significativa, em que os estudantes, desde o primeiro ano, veem sentido prático naquilo que estão estudando. Como resultado, ele ressalta, o curso recebeu boa avaliação no Teste de Progresso Interinstitucional das Escolas Públicas do Estado de São Paulo, conquistando, inclusive, nota melhor do que a alcançada pela Medicinas da USP de Ribeirão Preto e da Unesp de Botucatu.

"Inicialmente, ninguém apostava no currículo, mas deu muito certo, apesar das dificuldades de operacionalização. Acredito que nossos alunos de segundo ano, ao final do quarto semestre, vão tirar nota alcançada por alunos do quarto ano dos outros cursos", projeta.

O professor conta que o currículo possui metodologia interativa nos quatro ambientes do curso: tutoria (com aprendizagem baseada em problemas), laboratório de habilidades e simulações, atenção integral à comunidade em unidades de saúde (com problematização e aprendizagem baseada em projetos), e sistemas orgânicos integrados (com aplicação de conhecimentos em áreas básicas, como anatomia e bioquímica, para solução de problemas apresentados na tutoria).

"É um currículo que se adequa às necessidades das novas gerações de estudantes. No primeiro dia de aula, eles já vão para as unidades de saúde. Este olhar prático para o que estão aprendendo na teoria, que a gente chama de aprendizagem significativa, faz com que a memória de médio e longo prazo deles seja muito boa", assinala.

PROPOSTA

Ainda de acordo com Gerson, sua proposta inicial para o quarto semestre, inicialmente marcado para começar no final de julho, seria duplicar a carga horária de atenção integral à comunidade e de aulas práticas em laboratório de habilidades, de uma vez por semana para duas vezes. "Isso porque, no terceiro semestre, que acabou agora, o aluno já viu todo o ciclo vital: gestante, nascimento, crescimento, desenvolvimento, adulto e idoso, incluindo as patologias crônicas (hipertensão e diabetes). Com isso, no semestre que vem, ele já tem condições de atender, em ambulatório, desde gestantes, a crianças, adultos e idosos, desenvolvendo atividades práticas mais simples que já viu no simulado ou já acompanhou ao vivo", analisa.

A implantação desta proposta, contudo, não está garantida, já que a informação é de que a estruturação da grade curricular do quarto semestre ainda não foi concluída. Outro entrave é a formalização de convênio com a Famesp, esperada para que, a partir do quarto semestre, os alunos possam começar a ter aulas também dentro de hospitais, e não mais apenas em unidades da rede básica de saúde.

SEGUNDO SEMESTRE

O JC obteve informações de que não está descartada a possibilidade de atraso no início do próximo semestre do curso de Medicina em Bauru, já que o concurso público para contratação de sete professores efetivos ainda está em andamento, com previsão de ser concluído somente daqui a pelo menos dois meses. Há quem diga que, sem estes profissionais, as aulas para os alunos do quarto semestre ficariam inviabilizadas.

Em razão do cenário de incertezas e relatos de resistência de docentes quanto à grade curricular diferenciada, alguns alunos, inclusive, já estão cogitando trancar a graduação ou efetuar a transferência para outras unidades. Os problemas enfrentados pelo curso também fizeram, conforme o JC divulgou, a Câmara Municipal decidir levar o caso à Assembleia Legislativa, com pedido para que representantes das instâncias responsáveis sejam convocados pelos deputados a prestar esclarecimentos.