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'Jovem não dá lugar', dizem aposentados sobre transporte

Lei em vigência desde abril determina que todos os assentos dos veículos do transporte público são preferenciais

por Cinthia Milanez

12/07/2019 - 07h00

Fotos: Samantha Ciuffa
O comerciante aposentado João Ovídio Bernava, de 79, não se sente confortável em pedir para alguém sair

A aposentada Maria do Carmo da Silva Oliveira, de 75, tem problema no joelho, mas precisa passar pelo Centro para pagar as contas

Segundo o aposentado Valdir Júnior, é raro quando alguém cede lugar a ele

Em Bauru, todos os assentos do transporte público são destinados a obesos, gestantes, mães ou pais com crianças de colo, idosos e pessoas com deficiência

O ferroviário aposentado Valdir Júnior, de 73 anos, anda com a ajuda de uma bengala. Mesmo assim, costuma levantar do assento preferencial do ônibus, em Bauru, para cedê-lo às pessoas em condições mais difíceis do que as dele. "Jovem não dá lugar", justifica.

Desde abril deste ano, uma lei municipal determina que todos os assentos do transporte público são destinados a obesos, gestantes, mães ou pais com crianças de colo, idosos e pessoas com deficiência (leia mais abaixo). Contudo, bastante gente insiste em desrespeitar a norma.

Ainda segundo Valdir, é raro quando alguém cede lugar a ele. "Eu cansei de me levantar para outros idosos se sentarem. Os jovens ficam no celular e não percebem, ou fingem não perceber, a nossa presença", complementa.

Diariamente, o aposentado sai da sua casa, na Vila Falcão, rumo à região central da cidade, onde vê a vida passar, conforme ele próprio descreve. "Dentro do ônibus, tenho medo de cobrar os meus direitos e receber uma resposta errada", acrescenta.

O comerciante aposentado João Ovídio Bernava, de 79, pensa da mesma forma. "Fico envergonhado em pedir para a pessoa sair, porque, muitas vezes, trabalhou o dia todo em pé. Por outro lado, eu também trabalhei muito, até os meus 70 anos", argumenta.

Do ponto da quadra 10 da avenida Rodrigues Alves, no Centro, o idoso pegou a linha do Nova Esperança e a equipe de reportagem do JC o acompanhou. No coletivo, estava a doméstica aposentada Maria do Carmo da Silva Oliveira, de 75, com um largo sorriso no rosto. 

De acordo com ela, a situação se intensifica em horários de pico. "Vou em pé até a cidade", narra a idosa, que tem problema no joelho, mas precisa passar pelo Centro, mensalmente, para pagar as contas.

Embora quase imperceptível, a dona de casa Ellen Carpiski, de 18 anos, está gravida de quatro meses. A gestação é de risco e ela não pode fazer qualquer esforço.

No entanto, é a única da família que tem condições de acompanhar a avó, a aposentada Jacy da Silva, de 73, até o banco, do Nova Esperança, onde vivem, até o Centro. Surda, a idosa percorre tal trajeto todo mês, a fim de receber a aposentadoria.

NADA DE GENTILEZA

Mesmo ladeada de uma senhora debilitada, Ellen, dificilmente, consegue obter a gentileza de alguém, quando o ônibus está lotado. "As pessoas já se sentam no lugar preferencial e não abrem mão dele. Logo, o mesmo acontece com os demais assentos do coletivo", revela.

A auxiliar de limpeza Ieda Aparecida Ferreira, de 27, carrega a filha mais nova, Rebeca, de apenas 4 meses. Ao lado, fica o primogênito Rodrigo, de 6 anos. Para ela, andar de ônibus não tem sido uma boa experiência.

Ieda relata, ainda, que alguns motoristas se recusam a seguir o trajeto, caso ninguém dê lugar a ela. Outros não se sentem à vontade para fazer o mesmo. "O pessoal fala que, assim como eu, eles também estão pagando", observa, inconformada.

Veja vídeo:

Samantha Ciuffa
A manicure Tayla Ketiny Magalhães Silva, 19 anos, sempre cede o seu lugar às pessoas consideradas preferenciais

ELA FAZ SUA PARTE

Toda regra tem uma exceção. Neste caso, ela está personificada na figura da manicure Tayla Ketiny Magalhães Silva, de 19 anos. Além de ceder lugar às pessoas consideradas preferenciais dentro do coletivo, ela também o faz nos pontos de ônibus. Segundo a garota, o comportamento depende da educação de cada indivíduo.

"A minha avó tem problema no joelho. E se ela precisasse? Gostaria que alguém se levantasse", defende. Além disso, a moça pensa na própria velhice. "Quando chegar a minha vez, vou carecer. Enfim, é mais uma questão de respeito. Infelizmente, a maioria dos jovens não tem tal noção. Inclusive, já arrumei briga por causa disso. A pessoa acabou cedendo o lugar", finaliza.

NOVA LEI

Conforme o JC já noticiou, o vereador Ricardo Cabelo (PPS) apresentou, em março deste ano, um projeto de lei para que todos os assentos dos ônibus do transporte público, em Bauru, se tornassem preferenciais.

O texto, então, foi aprovado pela Câmara dos Vereadores e, em abril, sancionado pelo prefeito Clodoaldo Gazzetta (PSD). Em entrevista recente, o parlamentar reforçou que ceder lugar às pessoas consideradas preferenciais é uma questão de educação, porém, pouca gente o faz.

Por isso, Cabelo elaborou a nova norma. Entretanto, ela não prevê qualquer sanção para quem a desrespeitar.