Bauru e grande região

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O quadrilátero esquecido da Machado de Mello

Quem está naquela região relembra os velhos tempos e cobra intervenções

por Ana Beatriz Garcia

21/07/2019 - 07h00

Samantha Ciuffa
Entorno da Praça Machado de Mello guarda histórias do passado e espera por mudanças para o futuro

A região que hoje compreende a quadra 1 da rua Batista de Carvalho (Calçadão) no século passado já foi 'apelidada' como a "rua dos esquecidos". Isso porque outras vias da cidade já tinham sido batizadas enquanto ela não. Por mais que seja longínqua e até folclórica, a história dos primórdios daquela área encontra certa afinidade com os dias de hoje.

Embora existam diversos projetos especulando a revitalização do Centro da cidade, quem convive com o entorno da praça Machado de Mello e a primeira quadra da Batista de Carvalho fala muito mais sobre o passado do que o futuro. Eles entendem que a região é importante para a cidade, mas lamentam a situação de abandono que paira sobre o quadrilátero menos movimentado da área central.

Depois de percorrer os caminhos que contam a história do crescimento da cidade, o JC nos Bairros conversou com comerciantes que, persistentes, permanecem em seus pontos por anos, guardando recordações de um tempo próspero e expectativas de intervenções públicas que tragam novas oportunidades para o endereço.

Ana Beatriz Garcia
Laercio Greatti desabafa sobre necessidades no entorno de sua loja

'ATÉ QUE ENFIM''

Quando a reportagem entrou em uma loja de móveis usados na quadra 2 da avenida Rodrigues Alves, mais que naturalmente o comerciante Laercio Greatti, de 63 anos, exclamou "até que enfim alguém pensou em nós". Com um largo sorriso, ele puxou uma das cadeiras que estava por perto para desabafar sobre o tema mais à vontade. "Estava, hoje mesmo, falando com um amigo meu sobre o centro da cidade", começou.

Há 40 anos no mesmo ponto, Laercio conta como se sente sendo um dos poucos a continuar no local. "Os prefeitos foram passando pelo poder e nenhuma mudança foi feita por aqui. São só promessas. Fico feliz de conservar os meus clientes e nunca ter saído do ponto, porque a clientela foi passando de geração em geração. Isso sem contar que atendo cidades de toda a região, mas fico triste em ver a situação de abandono ao meu redor", comenta.

Vinicius Bomfim
Quadra 1 da Batista de Carvalho não tem movimento semelhante às demais quadras e há várias lojas fechadas

Laercio já não tem mais esperanças em grandes incentivos para o local onde trabalha, mas propõe sugestões do que gostaria de ver ali. "Os imóveis desta área estão nas mãos de poucos e eles pedem um valor muito alto pelo aluguel, mesmo sendo prédios velhos. Para eles, não muda nada estar tudo parado. Penso que a prefeitura poderia cobrar uma multa de quem mantém o imóvel abandonado e sem cuidados. E também acho que o prédio da Noroeste deveria abrigar algumas secretarias da cidade, já que é um imóvel da prefeitura", critica.

 

INSEGURANÇA

Assim como Laercio, Zenaide Nogueira, de 52 anos, também persiste há 32 com uma loja na quadra 1 da rua Monsenhor Claro, bem próximo à praça Machado de Mello. A comerciante relembra o tempo em que o ponto era um dos melhores do Centro da cidade, com um movimento ímpar, mesmo depois do encerramento dos trabalhos da Ferrovia. "O que me manteve aqui foi a tradição. Os clientes sabem onde me encontrar, mas já desanimei muitas vezes", conta.

Ana Beatriz Garcia
Prédio abandonado fica ao lado da loja de Zenaide

Isso porque a loja que ela mantém já foi furtada 18 vezes, sendo a última no início de 2018. "Os ''noias' estavam entrando pelos hotéis abandonados que ficam ao redor da loja. Uma vez, tinha feito compra em São Paulo e levaram quase R$ 5 mil em produtos. Dessa vez eu quase fechei", lamenta. "Ainda bem que, comigo aqui, nunca aconteceu nada. Eles entram sempre à noite. É uma situação complicada porque tem de tudo nesses imóveis abandonados e na praça Machado de Mello à noite. Sinto que estamos um pouco abandonados nesse pedaço", destaca.

Laercio, que conhece o problema de Zenaide, também salienta a insegurança no local. "À noite, se toca o alarme da loja, eu só passo de carro na frente rapidamente. Mas nunca aconteceu nada, ainda bem. Depois que a base da Polícia Militar chegou na praça, conteve a situação que poderia estar ainda pior", finaliza.

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