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Realizado ao atender o chamado de Deus

Pároco da Igreja Santa Rita de Cássia, o padre celebra 15 anos de ordenação, se prepara para uma mudança de vida no clero e conta como surgiu a vocação pelo sacerdócio

por Dulce Kernbeis

21/07/2019 - 07h00

Arquivo Pessoal
Agnaldo celebrando missa na paróquia de Santa Rita

O jovem pároco da Igreja Santa Rita de Cássia, uma das mais tradicionais de Bauru, padre Agnaldo Pereira, fala manso como convém, claro, a um sacerdote, mas, com um grande entusiasmo. É só começar a entrevista para surgir o brilho em seus olhos e, na entonação da voz, o amor pela formação teológica.

Ele acaba de completar 15 anos de ordenação, com direito a uma missa de ação de graças e festinha dos paroquianos. Feliz, vive dias de fortes emoções e não deixa transparecer nenhuma preocupação por estar prestes a deixar a paróquia que conduz há nove anos. Isso mesmo. Ele está de mudança. Mas para onde? "Não faz diferença. Como diria Edith Stein (teóloga alemã), 'Não sei para onde estou indo, mas sei que Deus que está conduzindo", destaca. E, com a mesma paixão nas palavras, conta um pouco de sua vida na entrevista a seguir. 

Jornal da Cidade - Como foi a sua infância?

Padre Agnaldo Pereira - Eu nasci lá na divisa com Minas Gerais, em Espírito Santo do Pinhal, cidadezinha pequena mesmo, que a gente chama só de Pinhal. A referência de cidade maior, que nem é tão grande como Bauru, era São João da Boa Vista. Foi uma infância tranquila. Nada a supor que um dia eu viria a me tornar um sacerdote. 

JC - E a juventude?

Padre Agnaldo - Também tranquila, na paz...estudos. Tive, por causa da igreja, aquele envolvimento com grupo de jovens, algo muito legal. Tudo bem aproveitado, mas de forma normal. Quando vim para Bauru, já estava até trabalhando, tinha meu emprego, minha moto com a qual me locomovia para lá e para cá. Também foi uma adolescência normal. Minha motivação religiosa estava adormecida, apesar do envolvimento com o grupo de jovens. 

Arquivo Pessoal
O padre com os pais Geraldo e Neuza, quando foi ordenado

JC - Não houve influência dos pais ou imposição à moda antiga de consagrar um dos filhos a Deus?

Padre Agnaldo - Não, nada disso. Penso que isso acontecia mais com famílias do Sul, lá por Santa Catarina, Rio Grande do Sul, aquela coisa de três filhos e os pais sonhando com um médico (ou advogado), uma professora e um padre (risos). Aqui em São Paulo, pelo menos com a minha família, não teve nada disso, não.

JC - E como surgiu a vocação?

Padre Agnaldo - Os sinais de Deus vieram um pouco mais tarde, cronologicamente falando. Mas, quando vieram, foram muito fortes. Primeiro, foram notados por um padre de Pinhal, Celso Eduardo Maldonado, que viu em mim que estava latente. Daí, ele me "abriu as portas", vamos dizer assim, e, de 93 a 95, comecei a sedimentar a ideia de ser seminarista. A escolha por Bauru se deu com a participação de uma freira. Após conhecer a irmã Gorete, uma apóstola do Sagrado Coração, ela me incentivou a vir. A entrada no seminário (Seminário Diocesano Maria Mãe da Igreja) foi consequência natural, assim como cursar Filosofia na USC (Universidade do Sagrado Coração) e, depois, Teologia em Marília.

Samantha Ciuffa
O padre conta que, apesar de surgirem relativamente tarde, os sinais de Deus foram muito fortes

JC - São muitos anos de estudo...

Padre Agnaldo - Sim, tanto quanto os médicos. Leva, no mínimo, oito anos de estudos. E entrei no seminário já mais "velho" (risos). É que havia rapazes de 20 e 21 anos e, no meu caso, foi aos 25 anos. Os sinais foram me mostrando que eu estava no caminho certo. Quando entrei, havia dois outros jovens: José Carlos, de Apucarana (PR), e Vladimir, o Chiquinho, como o chamávamos em Pinhal, entraram também. No fim, os dois desistiram e eu fiquei. E, ainda sobre a minha vocação, houve uma passagem bastante curiosa e emocionante que, sempre que eu tenho oportunidade, faço questão de contar. 

JC - Então conte...

Padre Agnaldo - Um pouco antes de vir para cá, ainda lá em Pinhal, uma noite passando pela parte de trás da igreja, quando eu ia à missa, vejo um bêbado, um andarilho de rua, que me chamou e começamos a conversar. Ele me contando as mazelas dele. Eu sempre gostei de uma boa conversa, enfim, conversamos por um bom tempo, até que ele me perguntou: "você é padre?". Claro que eu disse que não, mas ele me viu como um padre. Isso me tocou. Desde esse dia, nunca mais duvidei de que seria um sacerdote.

JC - Nossa... e esse andarilho já sabe, ou soube, que o senhor é padre hoje?

Padre Agnaldo - Isso é o mais intrigante. Toda cidade, especialmente as pequenas, tem essa figura folclórica de pedinte, mendigo que todo mundo conhece. Mas não era esse o caso. Ali, ninguém o conhecia. Ele nunca tinha sido visto. E também nunca mais apareceu. Não dá para duvidar de que se está no caminho certo com um sinal desses.

JC - E não pintou uma dúvida, chegando em uma cidade maior, universitária, com todo o agito da época?

Padre Agnaldo - Não. Me me lembro bem que vim para Bauru em 29 de julho de 1995, praticamente já com 25 anos, ingressei em 7 de fevereiro de 1996. Dentro do ônibus, me dei conta que não estava ali do lado, não era como sair de Pinhal para São João da Boa Vista, são só 30 quilômetros. O trajeto de ônibus era mais de 300 quilômetros (hoje, com novas estradas, são 286 quilômetros oficiais). Dez vezes mais. Cheguei aqui com um número de telefone e um endereço, o do padre Enedir (hoje, monsenhor Enedir Gonçalves Moreira). Só. Mais nada. Claro que dá um frio na barriga (risos).

JC - E deixou a moto pra trás?

Padre Agnaldo - Ah, claro! Aliás, já havia deixado antes. Tive um acidente que foi como um aviso do tipo "moto não é para mim". E arrependimento, jamais. De lá para cá, a fé, o apostolado, tudo só fortalece. E só tenho colhido alegrias. O desafio do sacerdócio é grande, mas, para mim, não é um fardo. Quando a pessoa gosta do que faz, não lhe pesa.

JC - Nada a reclamar...

Padre Agnaldo - Na verdade, a lamentar. A medida em que o tempo avança, aumentam as atribuições administrativas, as coordenações, as necessidades da evangelização e eu gostaria de multiplicar o tempo para poder visitar mais as pessoas, visitar os doentes, falar mais com as famílias... e nem sempre isso é possível. Mas eu posso me queixar? Claro que não (risos). O sacerdócio me dá momentos além do que eu poderia imaginar. Nunca sonhei que estaria a três metros do papa, hoje santo, João Paulo II. E há muito mais exemplos do que o sacerdócio me proporciona.

JC - O que, por exemplo?

Padre Agnaldo - A oportunidade de conversar com dom Paulo Evaristo Arns (cardeal e pensador, morto há mais de dois anos, com alta atuação pastoral voltada aos habitantes da periferia, aos trabalhadores, à formação de comunidades eclesiais de base). Falar com ele é como ter uma aula de vida, de humanidade. Aqui, em Bauru mesmo, só tenho que agradecer aos superiores; aos bispos; ao dom Aloysio Leal Penna, que me acolheu; dom Luis Antonio Guedes, que me ordenou; dom Caetano Ferrari, que me deu muitas atribuições; e, agora, dom Rubens Sevilha, que está me dando a oportunidade de contribuir mais com a Igreja, com a Cúria. E, assim, lá se vão 15 anos de ordenação.

JC - E nesses quinze anos, completados na última terça-feira, dia 16, o senhor já esteve em várias paróquias? 

Padre Agnaldo - Primeiro, fiquei na Paróquia Maria de Nazaré, no Núcleo José Regino; depois, na Paróquia de São Judas, no Jardim Estoril; e, de 2010 até hoje, estou na de Santa Rita de Cássia (Centro), onde tive mais um privilégio: participar neste ano na festividades do Jubileu de Ouro da paróquia, que vou deixar em breve e os paroquianos já estão sabendo disso. Para eles, inclusive, deixo todo o meu carinho, meu melhor muito obrigado. Na paz.

Arquivo Pessoal
Agnaldo, ainda bebê, ao lado do irmão mais velho, João

Perfil

Nome: Agnaldo Pereira. "Só isso mesmo"

Nascimento: 19/9/1971, em Espírito Santo do Pinhal (SP)

Pais: Geraldo Pereira Primo e Neuza Gomes Pereira

Irmãos: "Creusa, assim mesmo, com 'r', e João, mais velhos. Sou o caçula"

Hobby: Nenhum

Mania: "Ando sempre com uma garrafinha de água mineral"

Leitura: Além da Bíblia, obras que contribuem com o crescimento da Igreja. "Agora mesmo estou lendo as Diretrizes Gerais das Ações Evangelizadoras. As encíclicas papais me atraem muito" 

Televisão: "Só noticiários. Mais nada"

Cinema: "Nenhum. Não me atrai porque não há interação. Não dá para conversar" 

Receita antiestresse: "Um bom vinho, um bom queijo e, claro, um bom papo. Fico horas... (risos)"

E-mail: [email protected]