Bauru e grande região

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Solidão na 3ª Idade favorece golpes

É grande o número de idosos que vivem sozinhos; sem retaguarda familiar e carentes de atenção, se tornam alvos fáceis

por Tisa Moraes

25/08/2019 - 05h41

Malavolta Jr.

Rogério Dantas: ao menos 30 idosos foram vítimas, em 2019

Após uma vida inteira dedicada ao trabalho, os aposentados passam a usufruir do merecido descanso. Porém, o que deveria ser um período de tranquilidade tem se transformado, também, em uma grande preocupação: de maneira frequente, os idosos têm sido alvos de golpistas em Bauru.

Alguns chegam a perder milhares de reais e nunca mais conseguem reaver a quantia. Somente neste ano, a Polícia Civil estima que ao menos 30 pessoas que já alcançaram a chamada Terceira Idade tenham sido vítimas de estelionatários na cidade, com perda efetiva de dinheiro.

A receptividade de idosos para conversar com estranhos e a solidão, já que muitos - com maior autonomia - vivem sem a companhia de outros familiares, são apontados como alguns dos principais motivos que tornam os aposentados vítimas mais vulneráveis e, portanto, preferenciais dos criminosos.

"Hoje, há muitos idosos morando sozinhos. A carência por se relacionar com pessoas faz com que, normalmente, eles estejam mais receptivos à abordagem de estelionatários, que são treinados para tirar proveito desta fragilidade", comenta o médico geriatra Júlio Horta Filho. Ele revela já ter recebido inúmeros pacientes no consultório que relataram ter sido vítimas de golpistas.

Coordenador do Setor de Investigações Gerais (SIG) da Delegacia Seccional de Bauru, o delegado Rogério Dantas conta que, entre os golpes mais comuns, está o do empréstimo consignado, feito pelos fraudadores em bancos, normalmente em cidades diferentes do local de moradia do aposentado. Utilizando os dados da vítima, os criminosos solicitam o empréstimo, mas indicam o depósito do crédito em outra conta corrente.

"Normalmente, os valores das parcelas, descontados da aposentadoria, são pequenos: R$ 60,00, R$ 70,00. O aposentado pode demorar em perceber", frisa. Neste caso, vale destacar que o idoso tem direito a ser ressarcido pela instituição bancária.

TECNOLOGIA

O público da Terceira Idade também é alvo preferencial em caixas de autoatendimento bancário, justamente porque é mais suscetível a precisar de ajuda, por ter pouca ou nenhuma intimidade com os recursos oferecidos pelas novas tecnologias. Outro tipo frequente de golpe é quando os criminosos, em posse de dados da vítima, ligam e se passam por funcionários de um banco ou instituições como o INSS, solicitando a atualização cadastral.

"Eles podem informar que houve um problema qualquer e pedem a confirmação de informações, incluindo a senha do cartão", comenta o delegado. Contudo, bancos ou o INSS, em nenhuma hipótese, fazem este tipo de contato.

Segundo Dantas, outro tipo de golpe bastante comum, que vitima um grande número de idosos, é o do bilhete premiado. "Já houve casos em que um aposentado perdeu mais de R$ 10 mil. Por mais conhecida que a prática criminosa seja, muita gente continua sendo ludibriada por estelionatários", completa.

Rede de apoio

Samantha Ciuffa

Geriatra Júlio Horta Filho: família deve redobrar atenção

O geriatra Júlio Horta Filho pondera que o número de idosos que vivem sozinhos é crescente, visto que a maioria dos filhos e filhas ocupam quase todo o seu tempo no trabalho e com os compromissos diários com as famílias que constituíram. E, por mais que sejam participativos na vida dos pais, a recomendação é alertar, reiteradamente, sobre os tipos de golpe mais comuns e como costumam agir os criminosos.

"A família precisa criar uma rede de apoio e proteção. Quando o idoso ainda é independente, mas já tem o quadro cognitivo um pouquinho comprometido, com episódios de esquecimento, o cuidado tem de ser ainda maior", destaca.

'Em nenhum momento, desconfiei', diz aposentada vítima de estelionato

Outro golpe bastante comum é o do processo judicial, em que os idosos são procurados por falsos advogados ou escritórios de advocacia, que informam sobre a vitória em uma ação. Como os alvos são pessoas que, de fato, têm processos em andamento, os estelionatários, não raro, conseguem enganar as vítimas.

Uma delas foi uma aposentada de 74 anos, que perdeu quase R$ 5 mil na última terça-feira (20). A mulher recebeu uma ligação que acreditou ser do escritório de advocacia que a representa, informando que ela havia ganhado duas ações contra o Estado.

"A pessoa sabia tudo: meu nome, número dos meus processos, o ano. Em nenhum momento, desconfiei", comenta a idosa, que preferiu manter a identidade preservada. Ela foi informada de que teria um total de R$ 300 mil a receber.

Para tanto, deveria depositar, na conta de um terceiro, o valor de R$ 4.997,28, a título de abatimento de Imposto de Renda. "Corri no banco, fiz um empréstimo de R$ 5 mil e fiz a transferência na conta indicada. No dia seguinte, por meio de mensagem, eles pediram mais R$ 10 mil, do desconto referente ao outro processo", detalha.

Foi apenas neste momento que a aposentada começou a desconfiar e decidiu ligar para o filho, que, prontamente, a alertou de que se tratava de golpe. A mulher registrou boletim de ocorrência, mas diz não ter esperança de conseguir reaver a quantia.

OUTRA OCORRÊNCIA

Também na terça-feira, conforme o JC divulgou, uma aposentada de 63 anos perdeu R$ 8.030,00, após um estelionatário se passar por funcionário de seu banco em um telefonema. Acreditando que, de fato, seus cartões precisavam ser bloqueados por uso indevido por terceiros, ela os entregou com as respectivas senhas a um motociclista que foi até sua casa, pretensamente a serviço do banco. A mulher só descobriu o golpe quando percebeu a movimentação de valores elevados em sua conta.

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