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Pandemia ressignifica e fortalece o simbolismo do Dia das Mães

Médico fala sobre como conciliará batalha na 'linha de frente' com as homenagens e paciente curada da Covid-19 relata alegria de vencer a doença e passar a data ao lado da filha

por Ana Beatriz Garcia

10/05/2020 - 06h00

Aceituno Jr

Como, além do Dia das Mães, é também o aniversário de Paulo, ele quer celebrar com a esposa, Thais Cristina Bernardi Frare, e o filho, Lucas Frare Rangel

No repertório do cantor e compositor brasileiro Tiago Iorc, a música "Dia Especial" (composta por Duca Leindecker) fala sobre reconhecer quando alguém nos faz bem em meio a um "temporal". Reforçando isso, em um trecho da canção, o artista recita: "mas te vejo e sinto o brilho desse olhar, que me acalma e me traz força pra encarar tudo". Este sentimento de "porto-seguro" pode ser dedicado a muitos ao longo da vida, mas, certamente, as mães são as que carregam este posto em primeiro lugar.

Neste "dia especial" diferente, por conta do momento crítico de enfrentamento ao coronavírus, celebramos a vida daquelas que, na maior parte das vezes, nos "acalmam e trazem força", com histórias de quem ressignificou o Dia das Mães, neste ano, por conta de suas experiências com a Covid-19.

Trata-se de um médico na "linha de frente", que terá que conciliar as homenagens à mãe e à esposa com a batalha contra o novo coronavírus. E também de uma mulher que, após conseguir vencer a doença, celebrará a data ao lado da filha.

Filho e marido na 'linha de frente'

Fotos: Aceituno Jr.

Paulo Henrique Malaquias Rangel fará uma videochamada com a mãe, Isabel Malaquias Rangel, que mora em Minas Gerais, para comemorar o dia tão especial

Depois de passar 25 anos de sua vida entre estudos, plantões e atendimentos, o médico cardiologista, intensivista e nutrólogo Paulo Henrique Malaquias Rangel planejou fazer, neste domingo (10), uma reunião especial. "Eu nasci em um domingo, 10 de maio, Dia das Mães. 50 anos depois, iríamos comemorar todos juntos a data e o meu aniversário", conta.

No entanto, assim como em muitas outras famílias, a Covid-19 mudou os planos das comemorações agendadas para este domingo. "Também aproveitaríamos para celebrar o aniversário de meu filho, de 4 anos, e de minha esposa. Seria uma grande festa em Pouso Alegre, em Minas Gerais, onde meus pais moram. Um momento para matarmos a saudade, já que não nos vemos desde o início do ano", diz Paulo Henrique, que é diretor de assistência no Hospital Estadual de Bauru (HEB) e está, hoje, de plantão na ala de Covid-19 da unidade.

Na falta da festança outrora planejada, o médico está focado em ser o elo entre filhos e mães que se recuperam da doença, internados na UTI do HEB. "No hospital, nós todos somos uma grande família e é muito gratificante poder auxiliar quem precisa de nós, ainda mais neste período", afirma. "Quando implementamos a visitação da família na UTI, notamos as melhoras dos pacientes. Mas, agora, que não é permitido, tentamos levar, sempre que possível, as mensagens entre eles e seus parentes para que se sintam próximos e acolhidos. Tentamos minimizar o máximo possível a angustia da família e a dor do paciente", completa.

Sem outra alternativa para a comemoração, o médico pretende cozinhar uma refeição e um bolo para sua esposa e filho comemorarem com ele, após o plantão. "Por conta de tudo isso, passo mais tempo no hospital do que em casa e minha esposa tem sido meu braço direito, sempre me ajudando e apoiando. Será, igualmente, bom estar com ela e meu filho, nesta data. Penso que este é um momento que modificará as pessoas e os valores", comenta.

Mesmo distante, a mãe de Paulo Henrique, dona Isabel Malaquias Rangel, de 76 anos, não ficará de fora deste dia especial. "Será diferente do que planejamos, vamos nos falar por videochamada. Acredito que esse cenário está fortalecendo minhas escolhas enquanto profissional da saúde. Para mim, é uma bênção, uma forma de demonstrar amor pelo que escolhi", conclui, salientando todo cuidado que tem com os pais idosos, em meio à pandemia.

'É como se eu estivesse sendo mãe novamente'

Arquivo pessoal

Segundo Luciane, este Dia das Mães junto a Maria Clara será ainda mais especial do que quando a filha estava em sua barriga

Neste domingo (10), Luciane Bezerra de Toledo, de 53 anos, respira aliviada no aconchego do abraço de sua filha, Maria Clara Bezerra de Toledo, em um Dia das Mães diferente de todos que viveu nos últimos 20 anos. A mulher foi diagnosticada com a Covid-19 e, após dias internada, venceu a doença. "Tem jeito de vida nova", diz. "É uma alegria parecida como se eu estivesse sendo mãe novamente. Meu presente é estar aqui com a minha filha, estar viva. O meu primeiro Dia das Mães foi com ela ainda na barriga, achei especial. Mas, este é ainda mais. Só gratidão, por tudo", completa.

Luciane não sabe ao certo como e quando o coronavírus fez a visita tão indesejada em sua família. Tudo teve início com seu marido tendo indícios leves da doença. Depois, a filha começou a sentir o que parecia ser uma laringite. Porém, foi com a mulher que os sintomas e a falta de ar se intensificaram. Ela teve de ser hospitalizada e ficou internada por quatro dias na UTI do Hospital São Francisco, em Bauru, recuperando-se da Covid-19.

"Quando a gente descobre que está com a doença, falta o chão. Na hora, você pensa que não vai dar certo e que você vai morrer. Eu não estava saindo de casa, nem sabemos como isso aconteceu com meu marido, mas começou com ele e passou para nós", diz.

Além do temor da descoberta, outros fatores precisaram ser vencidos nesta batalha. "O tratamento também não é fácil. É bastante dolorido e houve momentos na UTI que eu até desacreditei. Ainda bem que não fui intubada, fiquei em respiradores", relembra Luciane.

Foi a equipe médica que fez com que ela recobrasse as forças e a esperança em seu tratamento. "Eles foram muito especiais. Sempre falavam que eu iria conseguir me recuperar, que eu era forte. E isso me ajudou demais a aguentar esse processo", comenta. E, assim, no dia 5 de maio, ela recebeu uma homenagem da equipe ao ter alta e retornar para seu esposo e sua filha, como o JC noticiou. "É um renascimento", define.

Sabendo da realidade de muitas mães que aguardam a recuperação de seus filhos ou dos que buscam por notícias do estado de saúde de suas genitoras internadas, Luciane destaca que acreditar na melhora é fundamental para a vitória. "Tem uma saída, tem como superar isso. Acreditem e tenham fé. Aos que não sabem o que é essa doença, não peguem. Fiquem em casa, usem máscaras e se cuidem. O melhor é não dar a chance de viver essa doença", finaliza.

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