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Bairros

A alegria de viver que 'brota' da terra

Perto de fazer 90 anos, Mário Passeto se despede de horta em que trabalhou por 27 anos, no Geisel, para cultivar outro terreno

por Ana Beatriz Garcia

21/06/2020 - 05h00

Malavolta Jr.

Mário Passeto cuidava da horta no Geisel há quase três décadas

De origem italiana, Mário Passeto, de 89 anos, aprendeu ainda menino sobre a lida na terra. Vendo o exemplo do pai, ele cresceu tirando do trabalho na roça a força e a energia para viver. Plantou por diversas vezes, colheu por tantas outras. Na família, viu crescer nove filhos, dez netos e quatro bisnetos e, da terra, ainda fez história e amizades. Agora, pronto para um novo começo, despede-se da horta que cuidou por 27 anos, no Núcleo Geisel, em Bauru.

"Cheguei em Bauru em 1993, depois que aposentei. Só trabalhei na roça, a vida inteira. Fiz disso minha profissão", conta seo Mário, que morou apenas por quatro anos no bairro onde, ainda em 1993, começou a horta em um terreno municipal. "Quando era vizinho da horta, aqui no Geisel, um conhecido, já finado, me convidou para cuidar deste terreno. Eu não consigo ficar sem trabalhar. Comecei a vir todos os dias, até de domingo, mas agora já não posso mais", conta.

Por conta da pandemia, a família de seo Mário pediu que ele não pegasse mais circular para ir de onde mora, no Jardim Contorno, até o local. "A condução passa pelo Hospital Estadual e meu filhos começaram a não deixar eu ficar vindo quando começou a quarentena. Agora, só venho de carona com a minha filha, que me traz cedinho e busca no horário de almoço", comenta o aposentado, que se despediu dos companheiros de horta no último mês.

No local, entre plantações de couve, cebolinha, salsinha, rúcula e tantas outras, seo Mário também semeou boas amizades. "São cinco famílias que cuidam das suas hortas aqui", diz. Uma delas é a de Eva Severino dos Santos, de 70 anos. A senhora, assim como ele, desde criança, está habituada ao trabalho na roça e está na horta há 21 anos. "A gente sempre conversava sobre os nossos tempos de roça, com a família, na infância. Todo dia, eu chegava e ele já estava por aqui. Com certeza, todos sentiremos saudade da companhia dele", afirma.

NOVAS SEMENTES

Pensando não apenas na saúde física, mas também na mental do patriarca da família, os filhos se mobilizaram para alugar um novo espaço, agora mais perto da casa dele, para que seo Mário pudesse dar prosseguimento ao plantio.

"Ele não aguenta ficar parado. Quando houve greve de circulares, ele ia a pé até lá. Cerca de 40 minutos de caminhada, só para não deixar as plantas", conta umas das filhas, Elza Passeto. A outra, Neltri Passeto, garante que a felicidade do pai, sobretudo após a morte da mãe há sete anos, brota da terra. "A alegria dele é uma enxada na mão", salienta.

E a decisão de deixar a horta, após 27 anos de cuidados, não foi difícil para o aposentado, que pretende, o quanto antes, começar suas atividades no terreno novo. "Fico feliz por tudo que vivi aqui e o que eu quero é continuar trabalhando. Vou levar umas mudinhas daqui para lá. Meus irmãos me perguntam porque eu não paro de trabalhar, mas eu sei que é isso que me deixa vivo e feliz, até o final da vida", finaliza seo Mário.

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