Bauru e grande região

 
Geral

100 dias de isolamento

Rotina de muitas famílias que decidiram seguir à risca todo o período de quarentena precisou ser reorganizada

por Tisa Moraes

28/06/2020 - 05h00

Tainá Vétere

Psicólogo Luiz Carlos Canêo destaca que impactos são variáveis

O hábito de sair de casa tornou-se raro para um grande número de pessoas em Bauru, que optaram por seguir à risca as recomendações de distanciamento social desde o início da pandemia do novo coronavírus no País. Sem passeios, sem visitas à casa de parentes e amigos, elas só deixam a segurança do lar em caso de extrema necessidade.

Neste domingo (28), este grupo - que permaneceu em isolamento mesmo durante o período de flexibilização das atividades comerciais - completa "100 dias de solidão". Nestas páginas, o Jornal da Cidade conta a história de alguns idosos e de famílias com crianças que precisaram reorganizar sua rotina e encontrar, dentro de casa, formas de manter o equilíbrio mental.

O psicólogo e doutor em Educação Luiz Carlos Canêo avalia os impactos deste afastamento forçado, considerando que o ser humano é, essencialmente, um ser social. Ele explica que a quarentena repercute de modo diferente para cada pessoa, levando-se em conta que a personalidade, o histórico de vida, o nível de resiliência e instrução de cada indivíduo também são diversos.

Aspectos como morar em uma casa espaçosa, com quintal e contato com a natureza, também podem tornar o isolamento menos desconfortável para uma parcela da população. "Seria irresponsabilidade fazer generalizações. No grupo de idosos, por exemplo, têm aqueles que moram com a família, aqueles que moram sozinhos, aqueles que moram em casa de repouso. Da mesma forma, as condições socioeconômicas variam muito", detalha.

CONFORTO

Como exemplo, ele cita os idosos que já tinham pouco contato com a família - pelo fato de os filhos morarem em outra cidade ou terem suas rotinas tomadas por outros compromissos. "Neste caso, a pandemia ratifica este distanciamento e a sensação de solidão tende a se agravar, gerando ansiedade, tristeza, medo e até depressão. Porém, dependendo da capacidade de resiliência, se tiver saúde e uma rede de apoio entre os vizinhos, este idoso consegue se virar bem", analisa o psicólogo.

Assim como um ambiente doméstico confortável, o acesso a tecnologias também é relevante para minimizar os prejuízos emocionais diante da quarentena. Isso porque, por meio de ferramentas como Skype e WhatsApp, tanto idosos quanto crianças podem manter contato constante com familiares e amigos que estão longe.

Para quem tem filhos pequenos, o confinamento exigido pela pandemia também trouxe desafios, porque intensificou o tempo de convivência de todos dentro de casa. Enquanto os pais começaram a trabalhar em home office, os filhos passaram a estudar por meio de plataformas online, fazendo com que toda a rotina doméstica precisasse ser redesenhada.

"Para segmentos sociais financeiramente privilegiados, este desafio tende a ser mais facilmente superado. Os atritos vão existir em qualquer realidade, mas o enfrentamento é diferente para uma família de muitas pessoas que vive em um ambiente pequeno", pontua Canêo.

'Cumprir o distanciamento social nem sempre é possível'

Arquivo Pessoal

Alberto Consolaro, a esposa Ingrid Araújo Oliveira e a cachorrinha Luz

Professor da USP de Bauru, o patologista Alberto Consolaro, 64 anos, mudou-se para São Luís, no Maranhão, dias antes do início da quarentena. Desde então, não saiu mais de casa, mas mantém-se ativo, escrevendo artigos e fazendo lives sobre a pandemia do novo coronavírus.

"Nas lives e nos textos que escrevo, sempre friso que o ideal é se isolar socialmente, mas é compreensível que, em determinadas situações, o isolamento não se cumpra. Como, por exemplo, manter, por 100 dias, quatro pessoas em uma casa de três cômodos? Além disso, muitas pessoas não têm acesso à Internet e precisam sair de casa pra suprir suas necessidades básicas", pondera. O professor conta que está confinado com a esposa desde 17 de março. Para evitar sair de casa, passou a pagar contas e fazer compras de supermercado e farmácia pela Internet. Como patologista, ele diz ter tomado esta decisão por conhecer os riscos que a doença envolve, mas reconhece que, por ter condições de morar em um apartamento de frente para a praia, o enfrentamento da quarentena acabou sendo bem menos doloroso. "Fico vendo barcos, as pessoas circulando, a maré subindo e descendo. Se não fosse assim, seria muito difícil. Além disso, sigo dando aulas, participando de congressos e conferências online. Isso me mantém ocupado e permite que eu esteja em contato permanente com outras pessoas", completa.

'O que mais sinto falta é do abraço dos filhos e dos netos'

Aceituno Jr

Nilse Monteiro Ferreira, Wolmer Marques Ferreira e a cachorra Suzy

Nilse Monteiro Ferreira, 81 anos, e Wolmer Marques Ferreira, 79 anos, moram sozinhos em uma casa ampla localizada na região do Jardim Bela Vista. A varanda alta, posicionada sobre a garagem, garante uma vista distanciada - e privilegiada - do movimento da rua. "Isso alivia um pouco a sensação de prisão", comenta Nilse.

O casal está confinado na residência desde o início da pandemia e só sai em situações bastante específicas, como é o caso de consultas médicas. "A gente vai, mantém o distanciamento no consultório e volta para casa. Não fica zanzando à toa", destaca a aposentada.

Também para evitar o contágio pelo novo coronavírus, eles só vão ao mercado uma vez ao mês para fazer compras grandes. "É meu filho quem vai à feira e compra o que precisa para a semana", relata.

O distanciamento dos filhos, aliás, é o que mais tem pesado para Nilse e Wolmer durante a quarentena. Nestes últimos 100 dias, os encontros têm pouco tempo de duração e ocorrem sempre na varanda, com distanciamento mínimo de dois metros e uso de máscara. "Não podemos abraçar. O que mais sinto falta é do abraço deles, de ficar junto deles e dos meus netos", revela Nilse.

A saudade de uma rotina que deve demorar a ser retomada é amenizada com pequenos prazeres, como cuidar das plantas do jardim, costurar e brincar com a vira-latas Suzy, adotada há cerca de dois meses. "Não gosto de ficar parada e estou sempre arrumando algo para fazer. Se você preenche seu tempo, não sobra muito espaço para ficar triste", completa.

'Tive que flexibilizar o tempo de uso da Internet dos gêmeos'

Arquivo Pessoal

Clara, Daniela e Francisco Vargas aproveitam o fato de ficarem 24 horas juntos

Manter as crianças ocupadas e entretidas durante o dia todo não é uma das tarefas mais fáceis para os pais. Em tempos de Covid-19, as famílias que seguem à risca a quarentena aprenderam que, muitas vezes, é necessário diminuir a rigidez na criação dos filhos, como forma de tornar o confinamento um pouco mais harmonioso.

Mãe dos gêmeos Clara e Francisco, 13 anos, a funcionária pública Daniela Moretto Vargas, 44 anos, permitia, antes da pandemia, que os filhos ficassem, no máximo, até duas horas diante da tela do celular. "Mas tive que flexibilizar o tempo de TV e Internet, porque não há muitas opções para preencher esse tempo todo dentro de casa. Eles gostam muito de YouTube e estão sempre conversando com os amigos pelo computador. Os recursos tecnológicos acabam suprindo um pouco a falta de interação presencial com outras pessoas", analisa.

Daniela mora em um apartamento com os filhos e o marido e confessa que, principalmente no início, a adaptação à nova realidade foi difícil. Neste sentido, manter a rigidez pelo menos quanto aos horários para acordar, estudar, almoçar e jantar foi fundamental.

Passados mais de três meses, a família aprendeu a usufruir da possibilidade de ficar unida 24 horas por dia. "Na verdade, ninguém quer sair de casa pelo risco de contágio. A Clara ainda fala, às vezes, que quer voltar para a escola, mas, como ela e o Francisco têm um ao outro, ajuda bastante a lidar com a falta dos amigos", analisa.

'Coloquei cartazes nas paredes para lembrar sobre a nova rotina'

Arquivo Pessoal

Enrico, Adriano, Patrícia e Vitor Amorim, na companhia do cão Raio

Nas paredes da casa da professora Patrícia Scarabotto Nasralla Amorim, 34 anos, cartazes estão colados por toda parte. É uma estratégia para lembrar, em tempo integral, os filhos Enrico, 8 anos, e Vitor, 3 anos, sobre a nova rotina da família durante a pandemia de Covid-19, já que eles só têm saído de casa em situações excepcionais.

"Senti que precisava fazer isso para conseguir administrar esse novo momento. Eu continuo trabalhando remotamente em quatro escolas e, como tenho muita coisa para fazer, tinha medo de eles ficarem muito tempo ociosos. Então, logo na primeira semana, estabeleci tempo para tudo: brincar, ler, fazer as atividades escolares, comer. E fiz os cartazes com os horários", detalha.

Assim como ela, o marido também está trabalhando em casa, o que permite que o casal se reveze na atenção diária demandada pelos filhos. Mesmo já bastante adaptado, o mais velho, Enrico, vez ou outra, ainda verbaliza sentir falta dos amigos. "Ele ficava em período integral na escola duas vezes por semana, fazia aula de xadrez, atividades físicas. A rotina dele mudou completamente", descreve a funcionária pública.

Na tentativa de compensar esta ausência, Patrícia conta que permitiu que os filhos brinquem no celular por mais tempo ao longo do dia. "Ainda temos regras, mas tivemos de flexibilizar um pouco, até para que eu e meu marido conseguíssemos dar conta do nosso trabalho", conta. A lhasa apso Raio, que chegou na casa logo no início da quarentena, tem ajudado a preencher o tempo restante dos meninos, que são responsáveis por todos os cuidados com a cachorrinha.

'Faço minha parte e fico em casa pois quero viver muito'

Arquivo Pessoal

Maria Teresa Chiquito Palhares

"A vida é preciosa. Fico em casa porque quero viver muito ainda. A minha parte eu vou fazer". É assim, dos altos de seus 75 anos, que Maria Teresa Chiquito Palhares explica o que a motiva a continuar dentro de casa, respeitando com rigor a quarentena.

Funcionária da Diretoria Regional de Ensino de Bauru, ela conta que aderiu ao distanciamento social assim que o Estado recomendou que os idosos, que pertencem ao grupo de risco, passassem a trabalhar em home office.

"Desde então, mantenho a mesma rotina. Levanto às 5h, faço os serviços domésticos e, por volta das 8h, começo a trabalhar pelo computador e pelo celular", conta, revelando que não abre mão de colocar uma roupa bonita, além de passar batom e ajeitar o cabelo antes de iniciar suas atividades. "Até porque participo de videoconferências", justifica.

Depois do almoço, Maria Teresa faz uma pausa para ler as notícias do dia e, quando os compromissos com o trabalho acabam, se dedica a algum de seus hobbies, como cuidar de suas plantas. Quando as contas chegam, recorre ao pagamento por Internet. Já as compras de supermercado e farmácia são feitas pela filha ou por meio do serviço de delivery.

A solidão, quando bate, é aplacada por meio de chamadas de vídeo, que ajudam a matar a saudade de familiares e amigos. "E, como sou católica, assisto às missas da paróquia ao vivo no Facebook . Isso me dá alento e forças para viver mais um dia", afirma.

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