Bauru e grande região

 
Geral

Começa um dos semestres mais incertos da história

por Tisa Moraes

05/07/2020 - 05h00

Malavolta Jr./JC Imagens

Alessandra Lopes, da Psicologia da Unesp, explica os impactos das incertezas nos seres humanos

O País entrou no quarto mês de enfrentamento da pandemia e, no horizonte, muito pouco ainda se consegue vislumbrar. Cidadãos e os mais variados setores ingressaram, nesta última semana, em um dos semestres mais incertos da história, que traz um cenário de pouco espaço para planejamentos minimamente seguros.

Em entrevista concedida ao Podcast JC, o prefeito Clodoaldo Gazzetta chegou a comentar que Bauru seguiria nesse movimento de recuos e avanços, de "abre e fecha" das atividades econômicas, pelo menos até o final deste ano. Alguns segmentos apostam na descoberta de uma vacina para que a vida possa, finalmente, voltar ao normal. Porém, um especialista ouvido pelo JC, que pertence ao Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, adianta que o acesso universal à imunização provavelmente não ocorrerá antes de meados de 2021.

O JC ouviu especialistas em diversas áreas sobre os impactos da pandemia e sobre como a impossibilidade de programar o futuro irá afetar estes setores daqui em diante (leia mais abaixo). A reportagem conversou, também, com a professora Alessandra Lopes, do Departamento de Psicologia da Unesp, que analisou como os indivíduos são afetados pela inviabilidade de planejar as próprias vidas, em meio os imprevistos trazidos pela pandemia.

Segundo a professora, uma das grandes contribuições do pensamento científico consolidado ao longo da história é a importância da observação da regularidade dos eventos, permitindo que o ser humano pudesse melhor conhecer e estudar o mundo à sua volta, além de tirar conclusões e intervir sobre ele.

INSEGURANÇA

Com isso, o homem passou a ter a percepção de previsão e controle sobre o mundo e também sobre suas próprias vidas. Porém, o que acontece quando uma pandemia surge e substitui todas estas rotinas por incertezas? "Estudos têm atestado que, quanto maior a condição de imprevisibilidade, menor a capacidade humana de agir ativamente sobre o mundo. Mais passivos ficamos diante das situações que exigem refletir, ponderar e produzir mudanças que possam estabelecer novas rotinas. Falta-nos os sinais de segurança anteriormente aprendidos, as referências de ordem política, social e afetiva", descreve.

Ainda de acordo com ela, esta sensação de falta de controle tende a tornar os indivíduos mais limitados, dependentes, com repertórios restritos, que não permitem expandir os inúmeros potenciais para criação, ação e interação. Para lidar com este momento, ela recomenda que as pessoas procurem agir em grupo, mesmo a distância, como foco em produzir efeitos positivos não apenas para si, mas também para a coletividade.

"Se não posso trabalhar por restrições físicas e impostas, vale pensar em como mobilizar uma rede social de apoio, identificar as condições que levaram às mudanças, ponderar efeitos positivos e negativos, efeitos temporários e permanentes sobre a vida de outras pessoas e sobre minha vida. E pensar em como posso projetar ações que mais se aproximam daquelas que considero ideais", completa.

Diferentes áreas analisam momento de indefinição

A esperança de muitos para que a vida possa voltar à normalidade é a descoberta de uma vacina. Vários pesquisadores já trabalham com o objetivo de desenvolver o produto, contudo, o amplo acesso à imunização contra a Covid-19 não ocorrerá tão rapidamente, conforme analisa o médico infectologista Carlos Magno Fortaleza, membro do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo.

“Embora a gente tenha pesquisas andando muito rapidamente, é muito pouco provável que, antes de meados do ano que vem, tenhamos uma vacina comprovadamente eficaz, além de todo o parque de produção e logística para disponibilizá-la à população”, detalha ele, que também é professor da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu.

Simultaneamente, pesquisadores estudam formas de desenvolver medicamentos específicos para tratar a doença – que, provavelmente, terão alto custo de comercialização. Fortaleza reforça que, até o momento, nenhum remédio existente no mercado apresentou resultados robustos quanto à recuperação de pacientes infectados. “Um único estudo mostrou efetividade no uso de corticoides em pacientes graves. Mesmo assim, é um trabalho que precisa ser ampliado”, acrescenta.

A rede de saúde também tem se debruçado sobre a necessidade de retomada das cirurgias eletivas (não urgentes). Porém, como os hospitais de referência para a Covid-19 ainda seguem reservando grande parte de seus leitos para o tratamento de pacientes infectados pelo novo coronavírus, a estratégia será estabelecer quais são os procedimentos cirúrgicos prioritários, que poderão ser realizados quando o atendimento a atingidos pela pandemia começar a ser desafogado.

“Muitos pacientes, como aqueles que têm certos cânceres e certas doenças cardíacas ou que demandam grandes cirurgias ortopédicas, não podem ficar meses esperando. Cada local deverá apresentar uma proposta de retomada de cirurgias muito cuidadosa, mas reversível, que pode ser suspensa, se os índices de infecção por Covid piorarem”, comenta.

Economia: 'Alguma melhora virá somente a partir de outubro'

Vinicius Bomfim

Economista Reinaldo Cafeo afirma que não será pelo consumo a retomada da economia

Segundo o economista Reinaldo Cafeo, o desempenho da economia pode ser avaliado a partir de quatro variáveis: o consumo das famílias, investimentos privados, gastos públicos e saldo líquido do comércio exterior brasileiro. A principal variável, o consumo, será a mais abalada daqui em diante, visto que as famílias estão endividadas e o nível de desemprego já alcança 12,9% da população economicamente ativa.

"Significa que não será pelo consumo que teremos a retomada da economia", frisa. Ele faz a mesma análise quanto aos investimentos produtivos, já que os investidores privados utilizaram seus excedentes para contornar a crise.

"Já os gastos do governo poderão ajudar a alavancar a economia. O governo brasileiro já gastou acima do que arrecada e o Orçamento está liberado. Deveremos ter um resultado primário (receitas menos gastos, sem considerar juros) de -11% e a dívida pública bruta deve chegar a 100% do PIB", enumera.

O setor de exportação, por sua vez, pode ter superávit, porém, com menor desempenho. Como resultado do comportamento destas variáveis, Cafeo projeta um cenário de retração econômica da ordem de 6,5% a 8%.

"A partir do momento em que as atividades econômicas voltarem a uma certa normalidade, os que sobreviveram à crise poderão alavancar um pouco suas vendas, mas operando mais ou menos com 50% da capacidade, na comparação com o que era antes da pandemia", analisa, adiantando que alguma melhora de resultados poderá ser verificada a partir de outubro, em um aquecimento preliminar à Black Friday e às vendas de fim de ano.

Até lá, contudo, a tendência é de que haja aumento do desemprego e de pedidos de recuperação judicial ou fechamento de empresas, considerando a previsão de continuidade do movimento de "abre e fecha" dos estabelecimentos. "Para o ano que vem, poderemos ter um crescimento de uns 3%, mas sobre uma base muito precária, que é o ano de 2020", observa.

Saúde: 'Esperamos vacina acessível a partir de meados de 2021'

Divulgação

Infectologista Carlos Magno Fortaleza fala sobre tratamentos e cirurgias eletivas

A esperança de muitos para que a vida possa voltar à normalidade é a descoberta de uma vacina. Vários pesquisadores já trabalham com o objetivo de desenvolver o produto, contudo, o amplo acesso à imunização contra a Covid-19 não ocorrerá tão rapidamente, conforme analisa o médico infectologista Carlos Magno Fortaleza, membro do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo.

"Embora a gente tenha pesquisas andando muito rapidamente, é muito pouco provável que, antes de meados do ano que vem, tenhamos uma vacina comprovadamente eficaz, além de todo o parque de produção e logística para disponibilizá-la à população", detalha ele, que também é professor da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu.

Simultaneamente, pesquisadores estudam formas de desenvolver medicamentos específicos para tratar a doença - que, provavelmente, terão alto custo de comercialização. Fortaleza reforça que, até o momento, nenhum remédio existente no mercado apresentou resultados robustos quanto à recuperação de pacientes infectados. "Um único estudo mostrou efetividade no uso de corticoides em pacientes graves. Mesmo assim, é um trabalho que precisa ser ampliado", acrescenta.

A rede de saúde também tem se debruçado sobre a necessidade de retomada das cirurgias eletivas (não urgentes). Porém, como os hospitais de referência para a Covid-19 ainda seguem reservando grande parte de seus leitos para o tratamento de pacientes infectados pelo novo coronavírus, a estratégia será estabelecer quais são os procedimentos cirúrgicos prioritários, que poderão ser realizados quando o atendimento a atingidos pela pandemia começar a ser desafogado.

"Muitos pacientes, como aqueles que têm certos cânceres e certas doenças cardíacas ou que demandam grandes cirurgias ortopédicas, não podem ficar meses esperando. Cada local deverá apresentar uma proposta de retomada de cirurgias muito cuidadosa, mas reversível, que pode ser suspensa, se os índices de infecção por Covid piorarem", comenta.

Educação: 'Enquanto não houver vacina, a escola não será como antes'

Samantha Ciuffa

Vera Capellini, da Unesp, acredita que o retorno será em um modelo híbrido

Divulgada na última semana, uma pesquisa elaborada pela Nova Escola revelou que a maioria dos diretores de escolas brasileiras avalia que os professores não estão preparados para a volta às aulas presenciais. O estudo também mostrou que mais de 60% dos professores consideram que o ensino remoto está sendo razoável, péssimo ou ruim e 45% deles disseram que poucos alunos estão acompanhando as atividades a distância.

A defasagem no aprendizado, acentuada nesta pandemia especialmente entre os alunos da rede pública, será apenas um dos desafios que irão se impor quando as escolas voltarem a receber os alunos. Para a pedagoga Vera Capellini, vice-diretora da Faculdade de Ciências (FC) da Unesp de Bauru, a exclusão digital deverá ser agravada pela falta de planejamento das instituições, tanto para o início do ensino a distância quanto para a retomada das aulas presenciais, prevista para 8 de setembro, se todas as regiões do Estado estiverem na fase amarela.

"A sensação é de que alguns setores estão anestesiados. E a gente tem clareza de que, enquanto não tiver vacina, não iremos voltar todos para a escola de uma vez, como era antes. Por isso, um dos desafios será explorar a potência que as ferramentas digitais de informação oferece, já que, quando retornarmos, será em um modelo híbrido, com ensino presencial e remoto", pontua.

Vera aponta que também há risco de aumento nos índices de evasão escolar, bem como perspectiva de maior exigência dos professores e demais funcionários quanto à adaptação dos alunos às novas regras, como o uso de máscaras e manutenção do distanciamento social. "Também teremos de pensar em estratégias para acolher estes alunos, para exercer a empatia mesmo sem poder ter contato físico, visto que muitos poderão retornar à escola com impactos emocionais provocados pela quarentena", completa.

Cultura: 'Muitos artistas irão abandonar as suas carreiras'

Malavolta Jr.

Paulo Tonon afirma que, mesmo com a volta, artistas terão medo

O setor cultural certamente será um dos últimos a retomar suas atividades. Seriamente impactados, muitos artistas tiveram de buscar outras formas de ganhar dinheiro, seja como motorista de aplicativo ou operador de telesserviços, sem saber se, um dia, conseguirão voltar a trabalhar com algo que se aproxime de sua essência.

"Quando as atividades culturais forem retomadas, certamente será com restrição de público. Ou seja, a renda dos eventos será menor e, portanto, a remuneração dos artistas também. E muitos deles convivem com idosos. Na hora de pesar na balança entre ganhar um cachê menor e correr o risco de ir trabalhar e transmitir o vírus para alguém da família, muitos já sinalizaram que vão preferir ficar em casa", detalha Paulo Tonon, 1.º secretário do Conselho Municipal de Cultura.

Ele explica que, com a pandemia, os ganhos e a possibilidade de trabalho destas pessoas foram praticamente reduzidos a zero. Com o isolamento, muitos buscaram outras formas de apresentar seu trabalho, como é o caso das lives. "Porém, soube de artistas que tiveram que fazer seis lives para chegar à renda que tinham em um show presencial", acrescenta, salientando, contudo, que este formato já está razoavelmente saturado.

Tonon critica, ainda, a demora para a concessão de auxílio de emergência cultural, cuja lei foi sancionada só três meses após o início da pandemia. "Um ou outro artista, que conta com respaldo financeiro familiar ou possui uma reserva de emergência, ainda está conseguindo sair um pouco ileso. Mas a maioria está dependendo de ajuda. Se não tivermos uma vacina o mais breve possível para termos alguma segurança, muitos artistas irão abandonar suas carreiras", observa.

Esportes: 'Tendência é de redução de salários e custos'

Divulgação

Lucas Guanaes analisa o cenário

Sem perspectivas de retomada dos eventos esportivos, clubes e federações discutem formas de buscar equilíbrio entre a necessidade de voltar e as precauções necessárias. Segundo o jornalista Lucas Guanaes, são os clubes menores, que já enfrentam dificuldades para subsistirem agora, os que ficarão mais vulneráveis no retorno. "A tendência é de que todos os jogos sejam com portões fechados até o final de 2020. O problema é que os clubes menores não terão renda de bilheteria e não há uma definição de quem custeará os protocolos de segurança.

Entre as medidas que poderão ser impostas, estão testes de Covid-19 para os atletas e todo o staff das equipes antes de um jogo. Guanaes menciona que, até o momento, não há um aceno de garantia de custeio destes protocolos por parte das federações e que, se eles não forem obrigatórios, pode ocorrer o pior. "Se os atletas começarem a ser infectados, provavelmente os campeonatos terão de parar novamente", analisa. Por outro lado, ele pondera que os eventos precisam, o quanto antes, ser retomados, já que, sem eles, não há patrocínio, bilheteria e cotas de transmissão em televisão.

Será sob uma nova realidade, contudo, que os jogos voltarão. Entre as mudanças, está a diminuição dos salários dos jogadores e maior controle de gastos para realizar campeonatos. "Um exemplo será adequar as tabelas para que os clubes viajem menos. Outra alteração serão os campeonatos mais curtos".

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