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Obeso é quem tem maior chance de evoluir para caso crítico mais rápido

A conclusão saiu de uma pesquisa inédita elaborada pela FOB/USP, cuja publicação está prevista para os próximos dias

por Cinthia Milanez

01/08/2020 - 05h00

Malavolta Jr.

A livre docente Silvia Helena de Carvalho Sales Peres é coordenadora da pesquisa

Uma pesquisa inédita elaborada pela Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP) faz um alerta às pessoas com obesidade: a comorbidade é a mais propensa ao agravamento acelerado da Covid-19. Por isso, o estudo recomenda cuidados redobrados contra o novo coronavírus por parte daqueles que pertencem a tal grupo e políticas públicas voltadas para a redução de peso.

De acordo com a coordenadora do trabalho, a livre docente do Departamento de Odontopediatria, Ortodontia e Saúde Coletiva da FOB/USP, Silvia Helena de Carvalho Sales Peres, o estudo indica que os obesos são os pacientes que têm maior chance de evoluir para uma situação crítica mais rápido.

6.577 pessoas que testaram positivo para a doença em cinco países do mundo integraram o universo estudado pela professora.

Deste público, foram analisados mais profundamente os que ficaram hospitalizados e 56,2% desta fatia apresentavam obesidade. Em seguida, vieram os hipertensos (45,9%), os portadores de diabetes tipo 2 (23,6%), os doentes pulmonares (21,6%) e os fumantes (20%).

A pesquisadora explica que os obesos são mais suscetíveis ao agravamento da Covid-19, porque abrigam uma inflamação crônica que reduz a capacidade de produção dos interferons, proteínas responsáveis por interferir na replicação do novo coronavírus.

Além disso, segundo a docente, tais pacientes possuem alteração nas células B e T, que fabricam os anticorpos. "O SARS-CoV-2 também se mantém retido por um tempo maior na rede de armazenamento do tecido adiposo dos obesos".

SOBREPESO

Segundo Sales, as pessoas com sobrepeso também não estão isentas de apresentar um agravamento mais severo da Covid-19, porque têm uma quantidade maior de tecido adiposo, bem como os demais agravantes dos obesos, só que menos acentuados.

Este, para ela, seria o caso do apresentador Rodrigo Rodrigues, da SporTV, cujo quadro clínico evoluiu rápido. "De fato, a nossa pesquisa concluiu que a progressão da doença em pacientes obesos e com sobrepeso ocorre de forma mais acelerada", acrescenta.

De acordo com a coordenadora do trabalho, quem se encaixa nesta descrição precisa intensificar cuidados como distanciamento social, uso correto de máscaras e higienização frequente das mãos.

A professora defende, também, a criação de políticas públicas voltadas à redução de peso. "Os alimentos saudáveis são mais caros. Por conta da pandemia e consequente redução da renda da população, fica difícil optar por produtos do tipo. De repente, uma iniciativa que ensine a aproveitar melhor os restos dos alimentos seja bem-vinda".

COMO TUDO COMEÇOU

Desde 2006, Sales estuda as obesidades adulta e infantil, além da cirurgia bariátrica. "Assim que surgiu a Covid-19, eu comecei a observar que diversos casos relatados envolviam o excesso de peso. Porém, os pesquisadores, inicialmente, estavam focados em estabelecer uma relação com as doenças pulmonares e cardíacas, bem como com o diabetes", relata.

Como os primeiros estudos se deram em países que chegaram a ser epicentro da pandemia no mundo, como China, França, Espanha, Estados Unidos e Itália, a pesquisadora fez um rastreamento dos mesmos, por meio de bases de dados científicas, entre o início de abril e o dia 27 do mesmo mês.

A partir daí, a professora filtrou nove pesquisas envolvendo 6.577 pacientes que testaram positivo para o novo coronavírus. "Ao analisarmos mais profundamente os dados, investigando as pessoas que passaram por hospitalização e precisaram de UTI, constatamos que 56,2% delas eram obesas", completa.

O estudo contou com a colaboração de uma equipe de seis pessoas, incluindo mestres, doutorandos, doutores e um professor do Unisagrado.

O grupo, então, teve o artigo aceito e aprovado pela Obesity Research & Clinical Practice, uma revista científica com fator de impacto alto. Já a publicação do mesmo está prevista para os próximos dias.

A docente adianta a sua intenção de fazer um estudo, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, para verificar o índice de letalidade por Covid-19 entre os obesos de Bauru. "Nós gostaríamos que estes pacientes tivessem uma conscientização maior da exposição ao risco de contrair o vírus, mesmo sendo jovens", justifica.

O trabalho de Sales pretende, também, evitar a sobrecarga hospitalar, uma vez que estas pessoas têm maior necessidade de UTIs. Elas apresentam, ainda, a capacidade de espalhar o vírus por mais tempo, porque o mesmo fica retido na rede de armazenamento do tecido adiposo.

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