Bauru e grande região

 
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Parentes e amigos se juntam no mesmo imóvel para economizar e enfrentar crise

Na maioria dos casos, os inquilinos perderam o emprego e buscaram uma alternativa para superar este período de quarentena

por Cinthia Milanez

06/09/2020 - 05h00

Cinthia Milanez

Carlos Alberto Damiati, subdelegado regional do Creci-SP, conta ter presenciado famílias inteiras saindo de casas alugadas

Filhos que abrem mão da trajetória solo e retornam à casa dos pais, assim como jovens que voltam a morar em república após a experiência do espaço próprio, integram um contexto cada vez mais comum também em Bauru. A quarentena provocada pela pandemia do novo coronavírus deixou bastante gente desempregada, que precisou encontrar alternativas de moradia.

Para muitos, a saída para enfrentar este período foi deixar o aluguel e morar com os parentes. Há, ainda, quem tenha optado por dividir despesas com os amigos até a fase melhorar.

Em Bauru, o contexto foi confirmado pelo Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo (Creci-SP), que percebeu certo movimento de pessoas interessadas em buscar saídas para economizar.

O técnico de segurança Maurício Risse, de 29 anos, por exemplo, vivia com a esposa em um apartamento com dois dormitórios desde janeiro de 2020. Em abril, depois que a sua companheira perdeu o emprego, o casal decidiu deixar o imóvel para morar na casa de um tio de Maurício, em Astorga, no Paraná. "Eu aceitei uma proposta de trabalho que cobre todas as nossas despesas", comenta.

Com a iniciativa, o casal abriu mão de parte da privacidade, mas conseguiu viabilizar a casa própria, que ainda está em obras (leia nesta página).

Subdelegado regional do Creci-SP, em Bauru, Carlos Alberto Damiati diz ter presenciado famílias inteiras saindo de casas alugadas, deixando os pertences em garagens e morando com os parentes mais próximos. "O desemprego não permitiu que bancassem o aluguel de um imóvel maior", explica.

GARAGENS

A nova realidade ainda gerou outro fenômeno: o aumento da procura pela locação de garagens. Segundo o Creci, muitas pessoas, pensando em economizar, quiseram alugar um espaço mais barato só para deixar os pertences. Assim, conseguem morar com os parentes ou colegas.

Damiati informa que a cidade sempre registrou elevada rotatividade envolvendo a locação de imóveis de até dois dormitórios, principalmente, por conta do público universitário.

No primeiro mês em que as aulas presenciais foram suspensas, a maioria dos estudantes de fora optou por permanecer em Bauru. "Depois, tão logo os alunos perceberam que a quarentena se estenderia ainda mais, eles resolveram retornar para a casa dos pais", complementa.

Por isso, a procura pela locação de garagens, onde os estudantes podem deixar os seus pertences enquanto as aulas não voltam, aumentou de lá para cá. Outros universitários, por sua vez, se reuniram em repúblicas, mas também resolveram armazenar a mudança em locais mais baratos. Em alguns casos, decidiram compartilhá-la com os colegas.

O cantor e compositor sertanejo Dan Corrêa, de 32 anos, possui uma garagem situada na rua Quinze de Novembro, na região central de Bauru. Em fevereiro deste ano, ele resolveu alugá-la. "Embora não tenha fechado qualquer contrato desde então, ao menos, 11 pessoas já demonstraram interesse pelo local", observa.

Renegociação

Para o subdelegado regional do Creci-SP, em Bauru, as locações caíram 30%. O percentual só não foi pior porque houve renegociação. "Nós atendemos a um proprietário com 200 imóveis e ele optou por baixar 50% o valor de cada um deles no decorrer da pandemia. Assim, manteve os inquilinos", exemplifica.

O filho de Damiati, que trabalha no segmento de shows e aluga uma sala comercial em São Paulo, passou por uma situação semelhante. "Com a pandemia, ele ficou parado, mas conseguiu um acordo junto ao dono do local: nos primeiros três meses, pagou apenas o condomínio. Depois, passou a bancar, também, 50% do valor do aluguel", finaliza.

Com juros em baixa, venda de imóveis cresce nos últimos 90 dias em Bauru

O subdelegado regional do Creci-SP, em Bauru, Carlos Alberto Damiati, frisa que as vendas de imóveis cresceram nos últimos 90 dias.

De acordo com ele, o bom desempenho decorre da queda dos juros. "Os investidores que deixavam o dinheiro parado junto aos bancos perceberam que não valia mais a pena e partiram para o mercado imobiliário", justifica.

Damiati acredita que, tão logo surgir uma válvula de escape da pandemia, como uma vacina eficaz, a retomada das locações ocorrerá de forma imediata. "Os juros deverão permanecer baixos por um bom tempo. Por isso, agora é a hora de investir em imóveis para alugá-los", defende.

O técnico de segurança Maurício Risse, que deixou o aluguel para morar com o tio, aproveitou. Ele reduziu as despesas e aguarda a casa própria ficar pronta.

 

Demissão atinge inquilinos, que entregam as chaves

Aos 30 anos, Jéssica Rodrigues vivia sozinha em um apartamento até abril de 2020. A partir de então, ela viu a sua independência ir embora com o coronavírus. A assessora política havia acabado de se mudar para São Paulo quando a pandemia chegou ao Brasil. Ela perdeu o emprego e fez dívidas. Voltou ao Rio de Janeiro para a casa da mãe.

O aluguel afetou mais. A mulher pagava R$ 1,6 mil e a sua reserva não deu conta. Ela arcou com uma dívida de R$ 2,2 mil, parcelada no cartão de crédito, por romper o contrato. "Eu perdi tudo de uma vez. Não sei como não surtei", diz.

Ainda não há estudos sobre a quantidade de imóveis devolvidos no decorrer da pandemia. Adriano Sartori, vice-presidente de Gestão Patrimonial e Locação do Sindicato da Habitação (Secovi-SP), aponta para uma queda neste ano. "Em relação a julho, quando olhamos no acumulado de sete meses, há 7,8 mil ações, uma queda de 17% em relação a 2019, com 9,4 mil casos", afirma.

Para ele, isso ocorreu devido às negociações entre os inquilinos e donos. "Se você sempre foi um bom pagador, o proprietário senta para conversar", acrescenta.

A atendente comercial Cristiane Zamboni, de 50, também pretende deixar o apartamento, onde viveu por nove anos. Desempregada desde maio, ela não conseguiu manter o pagamento de R$ 2,5 mil, mesmo com o desconto de 20% dado pela proprietária, que também perdeu o emprego. A mulher se mudará para a casa da irmã, na Capital Paulista.

O fotógrafo Edgar Bueno, de 41, entregou o apartamento. Ele foi morar com a mãe e, depois, com um amigo. Sem pagar o aluguel, o homem acionou o advogado após o dono pedir o imóvel.

Por fim, acabou obrigado a sair e deverá arcar com a dívida, que gira em torno de R$ 6,8 mil. "Eu recebi o auxílio emergencial, mas só deu para comer".

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