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Águas Virtuosas: eles exigem o básico!

Moradores não desistem do sonho de o bairro entrar de vez no mapa de Bauru e alertam que o Rio Batalha está morrendo

por Bruno Freitas

17/10/2020 - 05h00

Fotos: Bruno Freitas

Nélio Silvestre, Tião Santos, no bar que leva seu nome, e Devanil dos Reis

"Entra prefeito e sai prefeito e ninguém se interessa em trabalhar por este bairro", dizem os moradores em uma roda de proza no tradicional Bar do Tião, ponto de encontro na Estância Balneário Águas Virtuosas, situado nas margens da rodovia Bauru-Ipaussu, a poucos quilômetros do centro da cidade. Eles não gostam do rótulo de "bairro abandonado", mas sim "esquecido". Faltam estruturas básicas, como redes de água e esgoto, ônibus e asfalto em parte do local que atenderia o acesso de transporte coletivo sem infligir leis ambientais, mais postes de luz e unidades escolar e de saúde. Nem postagens dos Correios e encomendas chegam na casa das pessoas.

As próprias 200 famílias tentam cuidam do local como podem. Nos últimos anos, nenhum político ou postulante a cargo público sequer passou por lá, afirmam. Mas eles não desistem do sonho de o bairro entrar de vez no mapa de Bauru. Atualmente existem 1.000 lotes.

O Estatuto das Cidades, lei responsável por regulamentar a política urbana, prevê aspectos como moradia, saneamento, infraestrutura, transporte e serviços públicos como direito básico de cada indivíduo. 

Edson Borges, proprietário da mercearia que é ponto de referência, resume o desejo da vizinhança: "Queremos melhorias, o básico, e pagamos caro por isso, mas não queremos o progresso. São coisas diferentes. Viemos morar aqui pela tranquilidade, sossego, para estarmos próximos da natureza, respirar ar puro. Se quiséssemos o progresso, iríamos morar na região do Centro", disse o morador. Enquanto ele falava dos motivos aprazíveis de residir lá, um tucano passou voando por cima dele. "Olha lá, você viu? Isso é muito comum aqui. Bonito de ver", comenta.

Borges cita que no começo do ano a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) fez melhorias nas ruas. Haviam muitas erosões. "Conseguimos coleta de lixo três vezes na semana. Todas as construções exigem detalhes porque o bairro pertence à Área de Proteção Ambiental (APA) do Batalha, que está assoreando", reforça. 

ÁGUA E ESGOTO

Eles não arredam pé do local onde escolheram para viver. Tião Santos revela que nem os furtos que ocorreram recentemente desmotivam a paixão que tem pelo Águas Virtuosas. "Faltam muitas coisas, as mais urgentes seriam redes de água e esgoto. Hoje nós mesmos temos que construir as fossas. A cada oito meses, quando a fossa fica cheia, nós temos que ir até o Poupatempo, procurar o DAE e pagar dobrado. São R$ 250,00 para limpar", revela. 

Tião acrescenta que quando chove forte a terra desce em direção ao Rio Batalha.

Devanil Ramalho dos Reis mora em um sítio naquele local há 21 anos. "Transporte público não vem aqui. O ônibus chega até no Lago Sul, mas não vem pra cá. Daria pra vir até o meio do nosso bairro, onde tem asfalto. E quando chove, além de não ter ônibus, o barro não deixa sair de casa com o carro", frisa.

Nélio Silvestre recorda que já houve uma vez que teve ônibus no bairro, mas por pouco tempo. "Desistiram", reclama. Ele frisa que o local tem poucos postes de luz.

 

"Nosso rio está morrendo"

Bruno Freitas

Ponto do Rio Batalha que faz a divisa entre Piratininga e o Águas Virtuosas

O Batalha está perdendo a guerra contra o ser humano. Benedito Tanganelli, morador do bairro, chama a atenção para a urgência na delimitação de construções de áreas em nascentes do rio. Ele destaca que o tema já foi pauta no Orçamento Participativo do Município em 2019, quando solicitaram também a demarcação do bairro que, segundo ele, possui 42 alqueires na bacia do rio.

"O Batalha está morrendo e ninguém toma providência. Até gado circula na cabeceira do rio. A gente liga para o Zoonoses e eles não têm veículo pra vir. Além de tudo isso, pagamos valor alto de IPTU, porque eles chamam a gente de 'bairro da zona Sul'. Não somos! E como aqui não é populoso, não temos força política", finaliza. 

Prefeitura responde

A Prefeitura destaca que o Águas Virtuosas foi construído dentro de duas APAs (estadual e municipal), em uma época quando não havia rigor nas questões ambientais. Com a necessidade de melhorias no bairro e diante das novas legislações ambientais, a Prefeitura de Bauru e o Ministério Público (MP) iniciaram levantamento dos problemas e estão elaborando projetos, que deverão ser aprovados pelo MP. O prazo, porém, não foi divulgado.

A prefeitura reforça que realizou recape da entrada do bairro, dentro do Orçamento Participativo, retirada a cada 15 dias de materiais inservíveis pelo Projeto Cata-Treco, remoção de bancos de areia nas ruas, manutenção e construção de caixas de contenção e lombadas, manutenção e construção de caixas de saídas de água, limpeza e roçagem da vegetação e capim, contensão de erosão e terraplanagem e aplicação de cascalho em todas as ruas. Já a Emdurb não emitiu resposta sobre a falta de ônibus.

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